
Com modelos capazes de simular respostas de públicos reais, a inteligência artificial ganha espaço nas pesquisas de opinião e amplia a análise de tendências de comportamento. Lucas Reis, PhD e chairman da Zygon, explica por que a tecnologia complementa os levantamentos tradicionais, mas não é capaz de prever o resultado das eleições.
A inteligência artificial começa a abrir novas possibilidades para o campo das pesquisas de opinião, especialmente na análise de comportamentos e na construção de diferentes cenários eleitorais. A partir de modelos treinados com grandes volumes de informações, pesquisadores podem simular perfis e testar hipóteses sobre determinados grupos, ampliando a frequência e a velocidade com que tendências são observadas. A tecnologia, no entanto, não elimina as pesquisas realizadas com eleitores reais nem transforma projeções em previsões certeiras sobre o resultado das urnas.
O movimento acompanha o avanço científico na construção e validação dos chamados modelos sintéticos, além do crescimento de um mercado que busca incorporar a inteligência artificial à produção e interpretação de dados. As chamadas ‘personas sintéticas’ podem reproduzir características de grupos específicos a partir de informações coletadas de pessoas reais, funcionando como uma camada complementar às metodologias tradicionais. O desafio está em estabelecer até onde essas simulações conseguem representar comportamentos humanos com confiabilidade e quais são os limites para sua utilização em decisões estratégicas.

Para o PhD, pesquisador, empresário e chairman da Zygon, Lucas Reis, o debate sobre inteligência artificial precisa considerar a tecnologia como uma ferramenta que pode ampliar a capacidade de análise, sem atribuir a ela uma capacidade de previsão que não possui. A avaliação dialoga com o artigo “O falso dilema do TSE sobre IA nas eleições”, publicado pelo especialista, no qual ele defende que a discussão sobre a tecnologia não deve partir de uma oposição entre permitir seu uso ou preservar a integridade dos processos eleitorais. No campo das pesquisas, a mesma lógica se aplica à necessidade de diferenciar ferramenta, metodologia e finalidade.
“A inteligência artificial não deve ser tratada como uma substituta das pesquisas, mas como uma ferramenta adicional para ampliar a capacidade de análise. O ganho está em poder testar mais hipóteses, acompanhar tendências com maior frequência e observar diferentes cenários, sempre entendendo que estamos falando de projeções probabilísticas e não de uma previsão do resultado eleitoral”, afirma Lucas Reis.
A utilização de ‘personas sintéticas’ pode, por exemplo, permitir que pesquisadores avaliem como determinados perfis poderiam reagir a diferentes temas, discursos ou acontecimentos, a partir dos padrões identificados nos dados utilizados para treinar os modelos. Isso cria a possibilidade de realizar análises em maior escala e com mais agilidade, mas também exige validação constante diante do comportamento efetivamente observado na sociedade. Uma simulação não equivale a uma entrevista com uma pessoa real e, por isso, seus resultados precisam ser interpretados dentro dos limites da metodologia empregada.
“Não há uma cadeia de causalidade em que o uso da inteligência artificial, por si só, representa uma ameaça à democracia. O que importa é a finalidade, a forma como a tecnologia é utilizada e os efeitos que ela produz”, avalia o pesquisador. A afirmação está alinhada ao argumento central apresentado por Reis em seu artigo sobre a regulamentação eleitoral: regras muito amplas podem acabar alcançando usos legítimos e cotidianos da tecnologia, enquanto situações de má-fé e de dano efetivo devem ser tratadas de maneira específica.
Outro desafio está na regulamentação e na confiabilidade dos próprios modelos. Como as ferramentas evoluem em velocidade elevada, novas aplicações podem surgir antes que normas e mecanismos de fiscalização consigam acompanhar suas características. “Além disso, ‘personas sintéticas’ podem reproduzir vieses ou limitações presentes nos dados de origem. Por isso, a qualidade dos resultados depende tanto da tecnologia quanto da seleção dos dados, da metodologia de treinamento, da validação científica e da comparação permanente com informações obtidas no mundo real”, explica o especialista.
Nesse cenário, a inteligência artificial pode contribuir para tornar a análise de opinião pública mais dinâmica, mas não elimina a incerteza própria das eleições. Pesquisas convencionais continuam sendo instrumentos importantes para medir a percepção de eleitores, enquanto os modelos sintéticos podem acrescentar velocidade, escala e novas possibilidades de simulação.
“Hoje, as ‘personas sintéticas’ constituem um método real, cientificamente validado e bastante promissor. Ainda assim, em decisões de alto risco, como as eleitorais, elas tendem a atuar como complemento às pesquisas tradicionais, oferecendo mais velocidade e mais capacidade de identificar tendências, sem substituir o contato direto com a população. O caminho está em utilizar essas ferramentas de forma complementar e responsável, reconhecendo que nem uma pesquisa tradicional nem uma pesquisa sintética é capaz de prever o resultado de uma eleição, mas ambas podem contribuir para identificar tendências e projetar probabilidades sobre o comportamento do eleitorado”, conclui.