
Viver é um desafio. Enfrentar as tensões do dia a dia, lutar pela sobrevivência, driblar a recessão, sair incólume em meio a tanta violência é quase uma arte! Viver é uma arte. São tantas as pressões exercidas sobre o ser humano, que este termina por sucumbir ante a falta de perspectivas e solução para seus dramas. Muitos se refugiam nas drogas, na prostituição, na promiscuidade, descendo tão baixo que até se esquecem do que é a vida, do que é ser pessoa, criatura humana, dotada de caráter e racionalidade.
A vida nos apresenta desafios constantes. O tempo não espera por nós. A nossa idade não espera por nós. Na verdade, nem queria que o tempo parasse ou que a idade voltasse, mas que fizessem pausas em momentos que foram tão marcantes e especiais e passaram… Antecipar o futuro? Impossível! Não nos foi legado esse privilégio “Viver é um desafio diário. A vida não nos dá trégua, não importa o momento pelo qual estamos passando, o mundo não vai parar para esperar que nós recuperemos o fôlego”. Assim, nós nos defrontamos com a nossa finitude diante do infinito, acima de tudo, do Criador.
Vivemos em uma sociedade angustiada, estressada, desesperançada. O homem está sempre ameaçado por doenças psicossomáticas e outros transtornos que o confrontam a todo momento. É patente o desajuste social, o desequilíbrio emocional, a falta de perspectivas por parte de uma geração jovem com valores totalmente equivocados. A vida não significa nada. Não se valoriza mais a vida do ser humano, pois a qualquer momento, por meio de uma bala perdida ou um soco, um sequestro, um pedaço de vidro ou pau, um louco qualquer põe fim a uma família, uma criança, um adulto. O outro, definitivamente, não é importante. Falta o sentimento de solidariedade, amor, consideração e responsabilidade para com o próximo em muitas ocasiões.
E considerando o rumo que as relações humanas estão tomando, temos o sentimento de ver o ressurgir de uma sociedade materialista, egoísta, degradada e descuidada como aquela dos tempos do velho Noé, à qual Jesus referiu-se para exemplificar a situação que antecederia a sua volta a esta terra: “… Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio, comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos…” (Mt 24.37-39). O desespero de não ter vencido o desafio da incredulidade, da intolerância e da zombaria tomou conta de toda uma geração que de repente viu ruírem todas as suas esperanças. Não tiveram como desafiar as forças da natureza e sobreviver…
Em todos os tempos os desafios se fizeram sentir. Vieram em forma de governos abusivos, de progresso, de não se acomodar a um estilo de vida ultrapassado, de busca pelo autoconhecimento, pela exploração dos universos nunca dantes habitados. Homens foram desafiados em suas crenças, em sua força, em sua coragem e transformaram em arte a vida que lhes restou. O escritor aos Hebreus fala de “homens dos quais o mundo não era digno”. Tal força, bravura, coragem e desafios com que foram confrontados.
O desafio de viver nestes tempos é gigantesco. Quanta inversão de valores, quanto despreparo para fazer frente às vicissitudes que estão diante de nós, quanta cegueira em tantas áreas essenciais da vida humana! Portanto, viver é uma arte, um desafio. Aquilo que deveria ser o bem mais precioso da humanidade tem se tornado alvo de toda sorte de ameaças. É preciso disciplina e amor para conscientizar o homem de que a vida vale muito mais que todas as mesquinharias pelas quais se digladia.
Luzelucia Ribeiro da Silva é professora, filósofa e teóloga.