Depois de 26 anos, acordo cria uma das maiores áreas comerciais do mundo e dá ao Brasil chance de ampliar exportações, atrair investimentos e reduzir dependências
Por Edgar Lsboa
A entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, nesta sexta-feira, 1º de maio, foi celebrada em videoconferência por líderes dos dois blocos. O gesto teve peso político e simbólico: depois de 26 anos de negociações, avanços, recuos, resistências internas e pressões externas, a parceria finalmente começa a sair do papel.
Pelo Brasil, o governo foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em uma reunião que marcou o início de uma nova etapa nas relações entre a América do Sul e a Europa. O acordo passa a valer de forma provisória na parte comercial, enquanto a tramitação institucional mais ampla segue seu curso nos parlamentos e instâncias europeias.
Um acordo para tempos difíceis
O acordo chega em um momento especialmente sensível. O mundo vive guerras, disputas geopolíticas, insegurança energética, aumento de tarifas e incertezas provocadas pelo retorno de Donald Trump ao centro da política norte-americana. Nesse ambiente, países e blocos econômicos procuram alternativas para não depender de uma única potência, de uma única rota comercial ou de um único fornecedor.
É aí que o acordo ganha dimensão estratégica. Não se trata apenas de vender mais carne, frutas, mel, arroz, açúcar, etanol ou produtos industriais. Trata-se de abrir uma frente de estabilidade em um mundo instável.
A Comissão Europeia afirma que o acordo cria uma zona comercial de cerca de 700 milhões de pessoas. Já a Associated Press aponta um mercado transatlântico de aproximadamente 720 milhões de consumidores e US$ 22 trilhões em valor econômico.
O que muda na prática
Na prática, o acordo reduz tarifas e abre espaço para produtos dos dois lados. A União Europeia eliminará tarifas para grande parte das exportações do Mercosul, enquanto o Mercosul fará cortes graduais para produtos europeus, em alguns casos ao longo de até 15 anos. Segundo a Reuters, o acordo prevê retirada de tarifas sobre cerca de 91% das exportações europeias ao Mercosul e redução ou eliminação para cerca de 92% das exportações do Mercosul à União Europeia.
Para o Brasil, alguns produtos ganham vantagem imediata ou gradual. Frutas, mel, arroz, açúcar e etanol aparecem entre os setores com maior expectativa. No caso do etanol, relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos aponta cotas específicas, incluindo 450 mil toneladas anuais para uso industrial com tarifa zero.
Isso pode representar uma nova fronteira para o agronegócio brasileiro, mas também para pequenos e médios exportadores que, até agora, enfrentavam tarifas capazes de inviabilizar negócios.
Brasil entra com alimentos, energia e escala
O Brasil chega a esse acordo com ativos importantes: alimentos, biocombustíveis, energia renovável, produção agrícola competitiva e capacidade industrial em determinados segmentos. Em um mundo preocupado com segurança alimentar e energética, esses fatores pesam.
A Europa quer diversificar fornecedores. O Mercosul quer ampliar mercados. O Brasil, maior economia do bloco sul-americano, tem condições de ocupar posição central nessa ponte.
Há também um ganho político. Ao apostar em integração comercial, o país sinaliza que prefere negociar, diversificar e construir alianças em vez de ficar refém da guerra tarifária entre grandes potências.
A indústria brasileira precisa ser protegida
O entusiasmo, porém, não elimina os riscos. A chegada de produtos europeus mais competitivos pode pressionar setores da indústria nacional. Máquinas, equipamentos, veículos, químicos e produtos industriais europeus terão redução gradual de tarifas.
A Europa tem indústria forte, tecnologia consolidada e crédito mais barato. O Brasil, ao contrário, ainda convive com juros altos, carga tributária complexa, infraestrutura deficiente e custo elevado de produção.
Por isso, o acordo é uma oportunidade, mas também um teste. Sem política industrial, inovação, crédito e redução do chamado custo Brasil, parte da manufatura brasileira poderá sofrer.
França resiste, mas o caminho está aberto
A resistência europeia não desapareceu. A França segue crítica, especialmente por pressão de agricultores e setores preocupados com concorrência e padrões ambientais. O presidente Emmanuel Macron defende mais controles ambientais e supervisão sobre o acordo.
Ainda assim, a entrada em vigor provisória muda o patamar do debate. O acordo deixa de ser apenas promessa diplomática e passa a produzir efeitos econômicos concretos.
Uma aposta necessária
O acordo Mercosul-União Europeia deve ser visto como uma aposta necessária e positiva. Não é solução mágica. Não resolverá, sozinho, os gargalos brasileiros. Mas abre uma porta importante em um momento em que o comércio mundial volta a ser contaminado por protecionismo, guerras e instabilidade política.
Para o Brasil, o desafio é aproveitar a chance. Vender mais alimentos, ampliar a presença dos biocombustíveis, agregar valor à produção, fortalecer exportadores e preparar a indústria para competir.
Depois de 26 anos de espera, o pior erro seria entrar nesse novo ciclo com medo. O Brasil tem escala, recursos naturais, produção agrícola, energia limpa e mercado interno relevante. Se fizer a lição de casa, o acordo pode ser mais do que uma vitória diplomática: pode ser uma nova avenida de desenvolvimento.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa