Brasília, jardim de coragem e beleza comemora 66 anos

Por Edgar Lisboa

Canteiro com flores coloridas em via de Brasília, uma Capital mais humana (Foto: Acácio Pinheiro/ Agência Brasília)

 

Brasília não nasceu apenas do concreto. Nasceu de um sonho. Erguida no coração do Cerrado, a capital foi pensada para ser mais do que sede do poder: deveria ser símbolo de modernidade, encontro e esperança. Na visão de Juscelino Kubitschek, no traço de Oscar Niemeyer, nos cálculos dos engenheiros e no esforço de milhares de trabalhadores, surgiu uma cidade que transformou o vazio em horizonte.

Mas Brasília nunca foi feita só de monumentos. Sua grandeza também mora no detalhe: nos jardins, nos canteiros, nas cores espalhadas pelas vias largas, nos balões floridos e, sobretudo, nos ipês que, a cada estação, fazem a capital florescer como poucas cidades no mundo. Há algo de profundamente humano nessa paisagem. O concreto ganha alma quando encontra o amarelo, o rosa, o branco e o roxo dos ipês, como se a cidade lembrasse a todos que a beleza também é uma forma de pertencimento.

Ao longo dos anos, esse cuidado com o colorido urbano ganhou força. Joaquim Roriz marcou esse capítulo ao incentivar jardins floridos que ajudaram a dar a Brasília um charme ainda mais singular. Os canteiros se tornaram cartão-postal, encantando moradores e turistas, que levavam na memória e nas fotografias a imagem de uma capital viva, acolhedora e surpreendente. Não era apenas paisagismo. Era identidade. Era afeto traduzido em flores.

Hoje, os jardins continuam presentes, mas muitos brasilienses ainda sentem falta daquele impacto mais intenso das cores, daquela sensação de cidade-parque plena, generosa, celebrada em cada rotatória e em cada avenida. Recuperar esse espírito não é nostalgia vazia. É reconhecer que a paisagem urbana também educa, acalma, inspira e aproxima as pessoas. Uma cidade mais florida é também uma cidade mais gentil com quem nela vive. Os Ipês: Branco, Amarelo, Amarelo do Brejo, Amarelo da Casca Lisa, Amarelo do Cerrado, Rosa, Roxo, Roxo Bola, Roxo da Mata, Púrpura, ainda preservam suas identidades para alegria de fotógrafos e amadores ou turistas, com seus celulares, que mostram ao mundo a beleza da cidade criada por Juscelino Kubitscheck, no centro do cerrado, transformando o Brasil.

Brasília precisa, mais do que nunca, de menos polarização e mais sensibilidade. Menos ruído político e mais compromisso com aquilo que une. Cuidar da beleza da capital, valorizar seus jardins, ampliar o colorido dos espaços públicos e devolver protagonismo aos ipês é, também, uma maneira de reafirmar o sentido coletivo da cidade. O poder público pode e deve olhar para isso com mais atenção, não como luxo, mas como gesto de civilidade e amor urbano.

Talvez esteja aí uma boa mensagem para o presente da República e a governadora: Brasília continua sendo obra em construção, não apenas de governos, mas de todos os que a habitam. Uma capital que nasceu da coragem pode seguir avançando com mais harmonia, mais cuidado e mais cor. Porque, no fundo, a beleza também governa. E quando Brasília floresce, floresce junto uma ideia mais generosa de Brasil.

Flores em vez de pedras

Começando pelo Palácio do Planalto, uma sugestão para o presidente Lula. Ele  poderia fazer com que voltassem os jardins coloridos em torno do Palacio presidencial, em vez de deixar apenas a selva de pedra.

Governadora Celina Leão costuma dizer que “Brasília não é apenas a capital do país, mas a cidade onde brasileiros de todas as origens aprenderam a viver juntos, transformar sonhos em realidade e construir, todos os dias, o futuro do Brasil.”

Já a governadora Celina Leão poderia aumentar e colorir as vias, como já foi, em tempos anteriores. Sem dúvida, Canteiros floridos chamam a atenção nas majestosas vias de Brasília. A Novacap poderia incrementar e expandir, flores em vias rotatórias trazendo de volta o charme dos jardins idealizados pelo ex-governador Joaquim Roriz.

Na foto de Acácio Pinheiro, da Agência Brasília, Jardineiros trabalham na manutenção de canteiro em frente ao Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília.

Faça sol ou faça chuva, os canteiros de Brasília permaneciam floridos

Ao todo, a capital do país tinha, na ocasião, em 2019, mostra matéria do g1 Brasília, 547 canteiros ornamentais nas vias e rotatórias das superquadras.

Mas já foram mais, esse número chegou a 1,5 mil. A redução foi causada por mudanças nas vias, para fazer o trânsito fluir.

Joaquim Roriz diante de uma de suas últimas obras: o Museu da República, projetado por Oscar Niemeyer.

Quem teve a ideia de uma capital repleta de flores – para valorizar ainda mais a “cidade parque”– foi o ex-governador Joaquim Roriz. De acordo com afirmações do paisagista da Novacap Raimundo Gomes Cordeiro, que dedicou 40 anos de sua vida a embelezar a capital (ele morreu em 2016, aos 72 anos), em 1991 Roriz voltou de uma viagem a Nova York encantado com a beleza dos jardins.

Canteiro com flores coloridas em via de Brasília (Foto: Acácio Pinheiro/ Agência Brasília)

“Ele viu aquela cidade toda florida e ficou admirado com a beleza. Logo que retornou à capital quis fazer do mesmo jeito aqui, é claro, adaptando à realidade do nosso país.”

No início, a Novacap, por meio do Departamento de Parques e Jardins (DPJ), usava folhagens. “Mas era tudo muito verde, não tinha cores”, lembra o paisagista.

Depois, buscou-se espécies de floração exuberante. No entanto, elas não duravam muito.

Até que as equipes chegaram às flores que encantam moradores e visitantes. São espécies mais adaptadas ao clima e com maior duração, como caliópsis, crista de galo, cravo marigold e gailardia.

“Cada tipo precisa ser usado de acordo com o fator climático, para se aproveitar mais delas”, mostrou o paisagista.

Na Semana da Pátria, Flores amarelas enfeitaram Brasília (Foto: Acácio Pinheiro/ Agência Brasília)

No período da seca, explicava com paixão, o saudoso Raimundo Cordeiro, o “Jardineiro de Brasília”, são plantadas flores que exigem menos rega. Já no período chuvoso, as escolhidas são as que aguentam um grande volume de água. De acordo com Raimundo Cordeiro, é dentro desse planejamento que o DPJ projeta a ornamentação da cidade.

“Estudamos o clima, o tamanho de cada espécie, a visualização (tanto dos pedestres quanto das pessoas em veículos – para não provocar acidentes) e por último a combinação das cores. Tudo tem de ficar harmonioso”, explicou. Que falta faz o seu Raimundo.

Mudas de flores prontas para serem plantadas nos canteiros de Brasília (Foto: Acácio Pinheiro/ Agência Brasília).

Na época de Natal, por exemplo, os jardineiros deixavam o balão do Aeroporto JK e a Esplanada dos Ministérios com flores vermelhas. Já perto de 7 de setembro, a capital estava enfeitada com espécies amarelas. “Ao se misturar com o verde da grama, elas têm as cores do Brasil”, lembrava Cordeiro.

Ele argumentava que, quando há uma única cor durante todo o ano, as pessoas se acostumam com a paisagem. Mas quando canteiros se renovam, o resultado é compensador para quem vê e para quem planta.

Flor cultivada em viveiro da Novacap enfeita canteiros de Brasília (Foto: Acácio Pinheiro/ Agência Brasília)

As mudas de flores que ornamentam os canteiros de Brasília são produzidas no Viveiro I da Novacap. A área, no Setor de Mansões Park Way, tem uma área de 26 hectares.

No local, eram produzidas 1,5 milhão de mudas, quantidade necessária para enfeitar os canteiros e rotatórias de Brasília. Normalmente, as flores são substituídas a cada seis meses, mas existem também as espécies perenes, que não necessitam de troca contínua.

No viveiro da Divisão de Parques e Jardins e nas ruas, entre produção, plantio e manutenção das flores, trabalhavam cerca de 100 pessoas: deficientes visuais, jovens aprendizes e presidiários em fase de readaptação na sociedade.

Brasília: símbolo de futuro, ousadia e integração nacional

Brasília é mais do que a capital política do país. É um símbolo de futuro, ousadia e integração nacional, pela coragem de JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, entre outros. Planejada para representar o Brasil moderno, mantém um perfil único, com arquitetura, urbanismo e paisagem que impressionam o mundo. Cabe aos gestores preservar essa história e essa beleza, cuidando da cidade com responsabilidade e visão de longo prazo. A capital precisa continuar sendo a Capital de Todos os Brasileiros: com alto índice de desenvolvimento humano, segurança, infraestrutura de qualidade, mobilidade, áreas verdes e oportunidades de emprego. Manter Brasília agradável para viver é respeitar seu passado, valorizar seu presente e garantir que seu espírito futurista siga inspirando as próximas gerações.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa