
Ao longo dos últimos anos, com o projeto Violão na Escola, percorri centenas de escolas públicas no interior paulista. Em cada cidade, em cada sala, a música revelava algo que muitas vezes passa despercebido no cotidiano escolar: o som do ambiente. Não o som da música, mas o som da própria escola. O que se encontra, na grande maioria dos casos, são salas com paredes lisas, pisos rígidos, tetos sem qualquer tratamento e uma ausência quase total de materiais que absorvam o som.
À primeira vista, isso pode parecer apenas uma escolha construtiva comum. Mas, na prática, essas superfícies transformam a sala de aula em um espaço onde o som não desaparece, ele se acumula. Cada fala permanece no ar por mais tempo do que deveria, as conversas se sobrepõem e os ruídos ganham força. A consequência disso não é um ambiente que gera incômodo e dificulta a própria função da escola: comunicar.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, ambientes de aprendizagem deveriam manter níveis de ruído abaixo de 35 decibéis. No entanto, em situações reais, é comum que salas de aula atinjam níveis muito superiores, frequentemente entre 60 e 80 decibéis.
Mais do que o volume em si, há um fator ainda mais crítico: o tempo que o som permanece no ambiente. Quando a reverberação é alta, a fala perde a definição. As palavras deixam de ser nítidas e, quando a fala não é compreendida com clareza, o aprendizado começa a falhar. Em uma sala acusticamente inadequada, o aluno não apenas escuta menos, ele entende menos.
Estudos mostram que, em ambientes ruidosos, crianças podem perder uma parcela significativa da compreensão verbal, especialmente aquelas em fase inicial de desenvolvimento. Isso afeta diretamente a atenção, a memória e a capacidade de acompanhar o conteúdo. Não é apenas uma questão pedagógica, é física. Ao mesmo tempo, do outro lado da sala, está o professor. Para vencer o ruído, ele eleva a voz. E depois eleva mais um pouco e mais. Ao longo de horas, dias e anos, esse esforço contínuo cobra seu preço. O desgaste vocal se torna comum, a fadiga se instala e o estresse se acumula. Ensinar, nessas condições, deixa de ser apenas um desafio didático, passa a ser também um desafio físico.
A escola, que deveria ser um espaço de construção, passa a ser também um espaço de desgaste. É importante dizer: não se espera silêncio absoluto em uma escola. Crianças e adolescentes são naturalmente mais expressivos, mais sonoros. Isso faz parte do desenvolvimento humano e social.
O problema não está no comportamento dos alunos, mas na forma como o espaço responde a esse comportamento. Hoje, muitas escolas são construídas com materiais que refletem o som quase integralmente. O resultado é um ambiente que amplifica o que já existe. A arquitetura, nesse caso, não ajuda, ela atrapalha. Diante disso, a primeira medida necessária é simples, mas ainda pouco praticada: medir.
É preciso entender, com dados concretos, qual é a realidade acústica das escolas. Avaliar níveis de ruído, tempo de reverberação, qualidade da propagação sonora. Sem esse diagnóstico, qualquer ação se torna superficial. A partir daí, as soluções não precisam ser complexas nem inacessíveis. Materiais absorventes, painéis acústicos, forros adequados e pequenas intervenções podem transformar completamente a experiência sonora de uma sala de aula.
Não se trata de sofisticar o espaço, mas de torná-lo funcional. Porque ouvir bem é condição básica para aprender. Depois de tantas escolas visitadas, a impressão que fica é clara: estamos tentando ensinar em ambientes que dificultam a escuta. E isso compromete tudo o que vem depois. A acústica não é um detalhe técnico, é parte essencial da educação. E, enquanto não for tratada como tal, continuará atuando silenciosamente contra ela.
*Welton Nadai é violonista, educador musical e produtor cultural. Natural de Rio Claro (SP), é formado em música e atua há mais de uma década na difusão da música instrumental e na formação de público. Desenvolve o projeto Violão na Escola, por meio do qual já realizou apresentações e atividades pedagógicas em centenas de escolas públicas no interior paulista, aproximando estudantes da música erudita e ampliando repertórios culturais.