
“Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em ciência, aumenta em tristeza.” — Eclesiastes 1:18
Caminhei recentemente por um desses lugares que parecem feitos para celebrar a vida: luzes, sons, aromas, famílias, amigos, encontros. Um ambiente vibrante, cheio de beleza e movimento. Mas, apesar de tudo isso, o que encontrei foi um silêncio estranho — um silêncio moderno, digital, quase ensurdecedor.
Pessoas sentadas lado a lado, mas distantes. Jovens reunidos em grupos, mas cada um mergulhado na própria tela. Famílias inteiras à mesa, mas sem qualquer diálogo. Pais, mães e filhos conectados ao mundo inteiro — menos uns aos outros.
A comunicação era zero. E isso é muito triste.
Observei adolescentes que, mesmo diante de tantas atrações, preferiam o refúgio do celular. Vi idosos com expressões tensas, talvez reagindo a notícias que jamais deveriam chegar durante um momento de descanso. Vi crianças pequenas sendo “acalmadas” com aparelhos que substituem o colo, o olhar e a presença.
E vi pais tentando conversar, mas vencidos pela tirania das notificações. Vi mães tentando interagir, mas interrompidas por chamadas urgentes. Vi famílias juntas, mas profundamente separadas.
A tecnologia, que deveria aproximar, tem roubado o espaço da conversa, do olhar, do gesto, do afeto. E quando ela ocupa o lugar da presença, algo essencial se perde — algo que não se recupera com um simples “desligar”.
A comunicação era mínima. Às vezes, inexistente. E isso é muito triste.
Mais adiante, vi jovens em roda, mas em silêncio absoluto. Não conversavam, não riam, não trocavam ideias. Apenas reagiam às mensagens que chegavam, às fotos engraçadas, aos vídeos instantâneos. Era uma festa sem voz, uma reunião sem encontro, uma convivência sem presença.
Vi também pessoas andando e falando sozinhas — ou melhor, falando ao celular. Gesticulavam, discutiam, davam ordens, resolviam problemas. Mas não percebiam quem estava ao lado, à frente ou atrás. Cada pessoa no seu próprio mundo, mergulhada nas facilidades que o aparelho lhe proporciona.
E isso é muito triste.
Não tenho nada contra o celular, o tablet, o computador. São ferramentas úteis, importantes, indispensáveis. O problema não é a tecnologia — é a falta de disciplina diante dela. Quando deixamos de ser senhores desses instrumentos e passamos a ser servos deles, algo começa a se deteriorar.
Primeiro, deteriora-se a convivência. Depois, deteriora-se o vínculo. Por fim, deteriora-se o tempo — inclusive o tempo com Deus.
Há quem passe horas e horas diante da tela, mas quase nenhum minuto diante da Palavra. Há quem converse com dezenas de pessoas por dia, mas não conversa com o cônjuge. Há quem responda mensagens imediatamente, mas não responde ao chamado dos filhos. Há quem esteja sempre “online”, mas espiritualmente ausente.
Quando a comunicação entre cônjuges, entre pais e filhos, entre amigos e irmãos se torna quase zero, o diagnóstico é inevitável:
Isso é muito triste.
A tecnologia avança — e deve avançar. A ciência cresce — e deve crescer. Mas, como diz o texto bíblico, junto com a ciência cresce também a responsabilidade. Cresce a necessidade de sabedoria, de equilíbrio, de domínio próprio.
Se não retomarmos a disciplina, perderemos uns aos outros. Se não retomarmos a presença, perderemos a convivência. Se não retomarmos o tempo com Deus, perderemos o sentido da vida.
E isso — isso é muito triste.
Orcélio de Almeida Amâncio é pastor, escritor e membro da Academia
Evangélica de Letras do DF.