
Professor de Teologia Peniel Pacheco afirma que o cristianismo não legitima a violência e que interpretações equivocadas da Bíblia alimentaram distorções ao longo dos anos
Por Edgar Lisboa
A repercussão nacional da pregação da pastora Helena Raquel, líder da Assembleia de Deus Vida na Palavra, em Queimados, no Rio de Janeiro, em Santa Catarina, continua provocando debates dentro e fora do meio evangélico. O sermão, apresentado durante um congresso religioso e posteriormente viralizado nas redes sociais, alcançou milhões de pessoas e abriu espaço para uma discussão sobre violência contra a mulher, abuso, responsabilidade das lideranças religiosas e a interpretação dos textos bíblicos.
Em entrevista concedida na última semana, Helena Raquel afirmou ter sido surpreendida pela dimensão do alcance da mensagem.
Segundo a pastora, a repercussão ultrapassou o público evangélico.
“Foi um retorno excelente, tanto do público interno quanto do externo. O mais surpreendente foi justamente das pessoas que estavam fora. Em momento nenhum imaginei um alcance dessa natureza.”
Ela afirma que inúmeras mulheres relataram experiências pessoais de violência ou disseram conhecer histórias semelhantes. Para Helena, o aspecto mais marcante foi perceber que muitas pessoas não imaginavam que um púlpito pudesse tratar o assunto de forma tão direta.
“Algumas pessoas não acreditavam que existisse um enfrentamento tão claro dessas questões dentro das igrejas.”
Apesar da surpresa do público externo, Helena Raquel ressalta que confrontar erros e pecados sempre fez parte da tradição cristã.
“A igreja evangélica no Brasil está habituada a confrontar os nossos vícios e defeitos.”
Peniel Pacheco: “A Bíblia não respalda machismo nem misoginia”

Ao comentar a repercussão da pregação, o pastor e professor de Teologia Peniel Pacheco, de Brasília, afirmou que a mensagem da pastora reforça um princípio fundamental da fé cristã: a rejeição de toda forma de violência, especialmente contra as mulheres.
Segundo ele, existe um equívoco recorrente entre pessoas que enxergam o meio evangélico como tolerante com abusos.
“Existe uma ideia equivocada de que, no meio evangélico, não haja repressão a toda forma de violência, principalmente contra a mulher.”
Peniel reconhece que, como ocorre em qualquer segmento da sociedade, há exemplos positivos e negativos dentro das igrejas.
Ele lembra episódios recentes que ganharam repercussão nacional, envolvendo líderes religiosos que expuseram publicamente suas esposas para justificar separações ou que tentaram proteger aliados acusados de abuso, resultando, inclusive, em destituições de cargos de liderança.
Para o professor, esses casos não representam a doutrina cristã.
“A teologia cristã não endossa a misoginia nem aprova o machismo. Infelizmente, interpretações equivocadas da Bíblia podem ser utilizadas para justificar determinadas práticas culturais, mas isso simplesmente não possui respaldo nas Escrituras.”
Violência contra a mulher é problema mundial
Durante a entrevista, Helena Raquel lembrou que a violência doméstica não é uma realidade exclusiva do Brasil.
Ela citou levantamento da ONU, divulgado em 2020, segundo o qual 28% dos entrevistados em diversos países consideravam justificável que um marido agredisse a esposa em determinadas circunstâncias.
“Isso não é Brasil. Isso é o mundo.”
Para a pastora, enfrentar esse problema exige romper o silêncio e revisar discursos que, durante décadas, acabaram sendo interpretados de forma equivocada.
O significado bíblico da submissão
Um dos principais pontos abordados por Helena Raquel foi a compreensão da palavra “submissão”, frequentemente utilizada de forma distorcida.
Ela afirma acreditar plenamente no conceito bíblico de submissão da esposa ao marido, mas ressalta que essa submissão jamais pode ser confundida com submissão à violência.
“Eu acredito piamente que a mulher deve ser submissa ao homem no padrão bíblico, não no padrão equivocado que se ensina em alguns lugares.”
A pastora cita o capítulo 5 da carta aos Efésios, destacando que o texto inicia determinando que marido e mulher sejam mutuamente submissos.
“Sujeitem-se uns aos outros no temor de Cristo.”
Ela lembra ainda que a orientação dirigida aos maridos estabelece um padrão elevado de responsabilidade.
“Maridos, amem suas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.”
Na avaliação de Helena Raquel, o modelo bíblico exige do homem disposição para proteger, servir e até entregar a própria vida pela esposa.
Peniel reforça interpretação teológica
A leitura apresentada pela pastora encontra respaldo na avaliação do professor Peniel Pacheco.
Segundo ele, o casamento cristão é descrito pela Bíblia como uma unidade, na qual homem e mulher possuem igual dignidade.
“A Bíblia afirma que marido e mulher se tornam uma só carne. Não existe espaço para superioridade de um sobre o outro. Há cooperação, respeito e complementaridade.”
Peniel também chama atenção para o significado da palavra “submissão”.
Ele explica que o prefixo “sub” significa “debaixo”, mas ressalta que a própria construção da palavra indica estar “debaixo da missão”, e não “debaixo do marido”.
“A mulher participa da mesma missão da família. Ela é apresentada nas Escrituras como adjutora idônea, indispensável para o cumprimento do propósito comum do casal.”
Corrigir erros históricos
Helena Raquel reconhece que discursos equivocados foram difundidos ao longo dos anos dentro de alguns segmentos religiosos.
“Esse discurso houve, sim, com muita força.”
Segundo ela, chegou o momento de enfrentar essas interpretações.
“É preciso sacudir as pessoas e dizer: não é isso que a Bíblia está ensinando.”
A pastora afirma que não existem pesquisas específicas comparando o número de mulheres evangélicas vítimas de violência com o total de denúncias registradas. Ainda assim, sustenta sua avaliação na experiência acumulada ao longo de décadas de ministério.
“Sou filha de pastor, neta de pastor, esposa de pastor e convivo diariamente com mulheres desde os meus 16 anos.”
Essa convivência, afirma, revelou erros graves na forma como muitas vítimas foram orientadas.
“Houve erros gravíssimos no nosso discurso sobre como uma mulher deveria agir diante de um quadro de violência.”
Ela também faz um alerta para os casos de abuso sexual praticados por criminosos que se infiltram em instituições religiosas.
“Infelizmente, pedófilos se infiltram em nosso meio. Que nenhum líder seja conivente com isso por medo das repercussões.”
Denúncia e proteção às vítimas
Ao orientar mulheres vítimas de agressão, Helena Raquel é categórica.
“Denuncie, procure um lugar seguro e não desculpe. Quem agride pode matar.”
Ela também rejeita a ideia de que as igrejas, de forma generalizada, acobertem casos dessa natureza.
“As igrejas não abafam esses casos. E aquelas que eventualmente tenham indivíduos agindo dessa forma precisam enfrentar a resistência da grande maioria das igrejas sérias para que essas pessoas percam definitivamente a força.”
Para a pastora, combater a violência começa pelo reconhecimento do problema.
“Nomear é importantíssimo. O inimigo que a gente nega, a gente não vence.”
Ao encerrar a entrevista, à CBN, Helena Raquel recordou pesquisa Datafolha que aponta que cerca de 59% dos fiéis das igrejas evangélicas brasileiras são mulheres negras e de baixa renda. Segundo ela, justamente por isso, enfrentar a violência doméstica e os abusos também representa um compromisso social das igrejas.
Na avaliação do professor Peniel Pacheco, a repercussão da mensagem demonstra que o tema deixou de ser apenas um debate interno das denominações religiosas e passou a integrar uma discussão nacional sobre dignidade humana, responsabilidade das lideranças e fidelidade aos princípios centrais do cristianismo, que, segundo ele, jamais legitimam qualquer forma de violência contra a mulher.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa