Setor produtivo alerta que sobretaxas podem comprometer cadeias industriais dos dois países, elevar custos para consumidores americanos e atingir quase US$ 15 bilhões em exportações brasileiras.
Negociação entra na reta final
O governo brasileiro e o setor produtivo intensificam os esforços para evitar que os Estados Unidos imponham novas tarifas sobre produtos brasileiros. A avaliação da indústria é de que uma sobretaxa de 25% não provocará prejuízos apenas ao Brasil, mas também à economia americana, afetando empresas instaladas nos Estados Unidos, elevando custos de produção e reduzindo a competitividade de diversos segmentos industriais.
Representantes da indústria destacam que grande parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos é composta por insumos, máquinas, equipamentos e produtos intermediários essenciais para a indústria americana. Segundo o setor produtivo, interromper ou encarecer esse fluxo comercial tende a gerar perdas para ambos os lados da relação.
Redução de competitividade
“O impacto será compartilhado. As tarifas reduzem a competitividade de empresas americanas que dependem de matérias-primas e componentes brasileiros, além de pressionarem os preços para consumidores e indústrias dos Estados Unidos”, avaliam representantes do setor.
Resposta americana deve sair até o dia 15
Embora o governo brasileiro não participe diretamente das audiências públicas realizadas em Washington sobre o chamado “tarifaço”, diplomatas da Embaixada do Brasil acompanham as discussões de perto.
Praticas desleais, alega EUA
Os Estados Unidos abriram investigação contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio, alegando práticas consideradas desleais. Na semana passada, o governo brasileiro encaminhou resposta técnica rebatendo as acusações e tentando evitar a aplicação da tarifa adicional de 25%. A decisão do governo americano é esperada até o próximo dia 15.
Nova investigação pode ampliar impacto
Além da investigação comercial, o Brasil também responde a outro procedimento conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), relacionado ao combate ao trabalho forçado. Nesse caso, o país poderá sofrer uma sobretaxa adicional de 12,5%.
Acusações sem respaldo nos fatos
Na segunda-feira (6), o governo brasileiro apresentou sua defesa, sustentando que as acusações não encontram respaldo nos fatos e solicitando que não sejam adotadas novas medidas comerciais contra produtos brasileiros.
Brasil com legislações mais rigorosas do mundo
O Itamaraty destacou que o Brasil possui uma das legislações mais rigorosas do mundo no combate ao trabalho análogo à escravidão. Segundo o ministério, a legislação brasileira criminaliza toda a cadeia de comercialização de produtos vinculados ao trabalho escravo, responsabilizando penalmente empresas e pessoas envolvidas.
Indústria calcula perdas bilionárias
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que, caso sejam confirmadas as sobretaxas de 25% e de 12,5%, mais de 4 mil produtos brasileiros poderão ser atingidos.
O impacto alcançaria cerca de US$ 15 bilhões em exportações, afetando principalmente o comércio de bens manufaturados, segmento no qual os Estados Unidos são o principal mercado para o Brasil.
Apesar do cenário de preocupação, equipes técnicas dos dois governos deverão realizar, ainda nesta semana, uma nova rodada de negociações preparatórias para um encontro entre ministros brasileiros e o representante de Comércio dos Estados Unidos.
A posição brasileira continua sendo a de privilegiar a negociação técnica e diplomática. O governo sustenta que as medidas tarifárias não encontram justificativa econômica, lembrando que os Estados Unidos mantêm superávit comercial nas trocas de bens com o Brasil, situação diferente da registrada em boa parte de suas relações comerciais com outros países.
Resposta do Itamaraty alerta para riscos diplomáticos
Paralelamente à disputa comercial, outro tema elevou a tensão entre Brasília e Washington.
Em resposta oficial encaminhada à Câmara dos Deputados, o Itamaraty analisou os possíveis desdobramentos da decisão do governo americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Impactos diplomáticos, econômicos e jurídicos
O documento foi elaborado após questionamentos apresentados pelo deputado Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES), que solicitou esclarecimentos sobre os impactos diplomáticos, econômicos e jurídicos da medida.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores, a classificação unilateral poderá produzir consequências para cidadãos brasileiros nas áreas financeira, migratória e penal, além de abrir espaço para interpretações que permitam ações extraterritoriais por parte das autoridades americanas.
Eventual emprego da força
O texto também registra preocupação com a possibilidade de que essa classificação venha a ser utilizada como fundamento para medidas mais amplas dos Estados Unidos, incluindo eventual emprego da força em território brasileiro, hipótese considerada pelo governo como um risco potencial para a soberania nacional.
Soberania, um princípio ineglciável
O governo brasileiro informou ainda que continua acompanhando a evolução do tema e reiterou que aceita a cooperação internacional no combate ao crime organizado, mas considera a preservação da soberania brasileira um princípio inegociável.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa