
A resposta não está no tamanho do seu Produto Interno Bruto (PIB), na extensão de suas fronteiras ou na exuberância de suas riquezas naturais. Está, fundamentalmente, na qualidade de vida que ela entrega ao seu povo. Quando nos deparamos com o dado de que o Brasil ocupa apenas a quarta posição entre os doze países da América do Sul no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Organização das Nações Unidas (ONU), a sensação não pode ser de mera surpresa; deve ser de profunda indignação e inconformismo.
Ficar atrás de vizinhos como Chile, Argentina e Uruguai em um indicador que mensura pilares tão básicos e vitais — saúde, educação e renda per capita — é o reflexo de um paradoxo histórico que o Brasil carrega e que teimamos em não resolver. Somos, de longe, o maior país da região, uma potência agrícola e industrial, detentores de uma das maiores economias do planeta. No entanto, o gigantismo geográfico e financeiro do nosso país contrasta, de forma dolorosa, com a nossa pequenez na distribuição e na eficácia dos serviços essenciais que moldam a dignidade humana.
O IDH não é uma métrica subjetiva ou um capricho estatístico. Ele traduz a realidade crua: a expectativa de vida ao nascer, o acesso e a permanência na escola, e o poder de compra real do cidadão comum. Longe de liderar em qualidade de vida, o Brasil se arrasta em uma média que esconde abismos regionais brutais. O que falha no modelo brasileiro não é a nossa capacidade de gerar riqueza, mas sim a nossa crônica ineficiência na gestão pública e na conversão dessa riqueza em bem-estar social.
A saúde pública brasileira oscila entre o heroísmo de um sistema universal subfinanciado e o colapso estrutural que custa vidas em filas de espera. A educação, embora tenha expandido o acesso nas últimas décadas, patina tragicamente na qualidade, falhando em preparar as novas gerações para os desafios de uma economia global baseada no conhecimento e na tecnologia. E a nossa renda per capita patina em um cenário de baixa produtividade e de concentração de renda crônica, onde o crescimento econômico raramente se traduz em prosperidade palpável para a base da pirâmide.
Nenhum brasileiro consciente e comprometido com o futuro desta nação pode se dar por satisfeito com essa quarta colocação. Aceitar esse diagnóstico de braços cruzados é chancelar a perpetuação de um Brasil de duas velocidades: o da elite econômica integrada ao mundo moderno e o da imensa maioria que luta para ver garantidos os seus direitos mais elementares.
O caminho para reverter esse quadro não passa por discursos populistas ou medidas paliativas de curto prazo, mas por reformas estruturais profundas que coloquem o desenvolvimento humano no centro da estratégia de Estado. Precisamos de um choque de gestão na saúde, de uma revolução pedagógica que valorize o professor e a inovação na escola, e de políticas que estimulem a produtividade nacional e a geração de empregos qualificados. O Brasil tem dimensão, recursos e vocação para liderar a América do Sul e ser protagonista global não apenas em balança comercial, mas em dignidade e qualidade de vida. O conformismo é o nosso pior inimigo; o IDH é o nosso alerta de que o futuro tem pressa.
*Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia,administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo” e “Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”.