
O Brasil apresenta sinais contraditórios na área da segurança pública. Enquanto os índices de mortes violentas intencionais registram os menores patamares da última década, o país convive com o avanço dos feminicídios, o crescimento da criminalidade digital, a expansão das facções criminosas e um intenso debate sobre a atuação policial.
O tema voltou ao centro das discussões durante a série “50 Debates para o Brasil”, que reuniu dois dos principais especialistas do país: a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, e o coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo José Vicente da Silva Filho, associado do Instituto Brasileiro de Segurança Pública.
Especialistas defendem mais eficiência e transparência
Apesar de trajetórias diferentes, os dois especialistas convergem em um ponto: a segurança pública precisa combinar eficiência no combate ao crime com mecanismos capazes de garantir transparência e segurança jurídica para policiais e cidadãos.
Segundo Samira Bueno, o uso de câmeras corporais não deve ser encarado como um obstáculo ao trabalho policial, mas como um instrumento que fortalece a atividade das corporações.
“As câmeras ampliam a transparência, ajudam na produção de provas e oferecem proteção jurídica ao próprio policial durante as ocorrências”, argumenta.
Ela lembra que diversos países já adotam esse modelo e afirma que as experiências mostram redução da letalidade policial, da vitimização dos agentes e até de casos de corrupção.
Velha cultura ainda resiste às mudanças
Para o coronel José Vicente da Silva Filho, a maior resistência às câmeras corporais vem de uma cultura policial ultrapassada.
Segundo ele, parte das corporações ainda enxerga qualquer mecanismo de controle como limitação da atividade policial, quando, na prática, a tecnologia contribui para melhorar procedimentos e aumentar a confiança da sociedade.
“O trabalho policial é extremamente complexo. As câmeras ajudam a verificar se os protocolos foram cumpridos e também servem para aperfeiçoar o treinamento das equipes”, afirma.
Modelo paulista virou referência internacional
Os dois especialistas destacam que o programa implantado pela Polícia Militar de São Paulo tornou-se referência internacional.
O sistema previa gravação contínua durante todo o turno de serviço, armazenamento seguro das imagens em nuvem e acesso controlado por órgãos como Ministério Público, Defensoria Pública e Judiciário.
José Vicente lembra que o modelo foi estudado por forças policiais de diversos países e hoje já incorpora recursos de inteligência artificial para avaliação automática das ocorrências e aperfeiçoamento dos procedimentos operacionais.
Confiança na polícia influencia sensação de segurança
Outro ponto de consenso entre os debatedores é que a percepção de segurança da população não depende apenas da redução dos índices criminais.
José Vicente afirma que a confiança da sociedade nas instituições policiais é um fator decisivo para diminuir o medo da violência.
Segundo ele, aproximadamente 95% das interações da Polícia Militar com a população não envolvem prisões, mas atendimentos, orientações e apoio à comunidade, reforçando a importância da qualidade desse relacionamento.
Crime organizado e violência digital ampliam desafios
Além da criminalidade tradicional, especialistas alertam para a rápida transformação das organizações criminosas.
Facções ampliam seu poder econômico, diversificam atividades ilegais e utilizam cada vez mais recursos tecnológicos, enquanto golpes virtuais, fraudes bancárias e crimes praticados pela internet crescem em ritmo acelerado.
Esse novo cenário exige investimentos permanentes em inteligência, integração entre as forças policiais, tecnologia e aperfeiçoamento da legislação.
Debate vai muito além das câmeras
Embora as câmeras corporais tenham sido o centro da discussão, a conclusão dos especialistas é mais ampla: o Brasil precisa construir políticas públicas permanentes de segurança, capazes de enfrentar tanto a violência nas ruas quanto as novas modalidades de crime.
O desafio, afirmam, é encontrar o equilíbrio entre firmeza no combate à criminalidade, proteção dos agentes de segurança e respeito aos direitos da população.
Essa combinação, segundo eles, será decisiva para recuperar a confiança dos brasileiros em um dos temas que mais preocupam o país atualmente.
Edgar Lisboa/Portal Repórter Brasília