Os dois “Manos”

Por Décio Guimarães

Ilustração, Edgar Lisboa, com recursos de IAA vida está sempre a nos surpreender, assim como a morte.

Falo sobre a partida do Papa Francisco e de Pepe Mujica, dois seres iluminados e, portanto, por serem humanos, sujeitos a críticas.

Surgiram em lugares próximos, Uruguay e Argentina, e se aventuraram pela vida em caminhos diversos.

Por diferenças de dias, os dois partiram para uma próxima jornada.

Se vão se encontrar no além ainda é um mistério, pois segundo Mujica que era ateu, poderia estar errado ao negar a presença de Deus.

O Papa Francisco com suas preces e sua importância de Sumo Pontífice criou as condições para ser recebido no Céu.

Assim mandam os dogmas cristãos, já que a Igreja assegura os seus compromissos com a eucaristia professada por muitos.

A forma como ele conduziu a igreja, nestes 12 anos, demonstra que ele tinha um compromisso com a fé e com a espiritualidade.

Deixou isso bem claro em seu período de papado.

Por isso, quando nos deixou, o Mundo o reverenciou e o homenageou de maneira marcante.

E o que dizer do outro “mano”, o companheiro de lutas José Pepe Mujica, que a morte o levou sem ele a tivesse impedido.

Soube viver e morrer pelo que acreditava, tendo levado até as últimas consequências suas ideias.

Praticou a boa política, sem ódio e ressentimento, embora seu passado de guerrilheiro e combativo.

Deixou de lado as mágoas e estigmas, que muitos políticos cultivam ao longo de suas trajetórias, para ser um ponto fora da curva.

Suas andanças pelo Mundo e pelo seu pequenino Uruguay, mostraram a todos como pode se fazer política sem medo e com um pé na realidade.

Seu legado político é inegável, e suas ideias a respeito da vida hão de permanecer ao longo do tempo.

Tinha o compromisso com a verdade, simplicidade e sempre tratava de não ser incompreendido.

São dele algumas reflexões que nos atordoam e nos fazem pensar:

“No meu jardim, há décadas não cultivo ódio. Porque aprendi uma dura lição imposta pela vida: que o ódio acaba estupidizando, porque nos faz perder a objetividade frente às coisas.”

OU

“Uma das desgraças da política é que ela abandonou o campo da filosofia e se transformou demais em um receituário meramente econômico.”

Falo então da similitude destes dois pensadores, que habitaram nosso Mundo e deixaram exemplos a serem seguidos.

De humildade, perseverança e fé na humanidade, virtudes estas que devem ser cultivadas por todos aqueles que professam a solidariedade e a compaixão.

São valores há muito esquecidos e abandonados em nome de um capitalismo anódino e sem perspectiva, que viceja neste século de mudanças climáticas e da inteligência artificial.

O que temos que cultivar olhando estes dois seres iluminados, que partiram neste maio, são suas consignas, conselhos e suas visões de Mundo.

O Papa Francisco por diversas vezes procurou manter-se à frente dos grandes desafios (guerras, fome no mundo e mudanças culturais), colocando a Igreja como mediadora destes conflitos e pregando a empatia e a fraternidade entre os povos.

Temas muito difíceis e que ainda persistem no cenário mundial, e que necessitam da compreensão e do engajamento de muitos.

Pepe Mujica também trilhou este caminho e fez da política uma arma eficaz de mudanças culturais e na pacificação das ideias.

Porque a falta destes homens, que muito fizeram pelo bem da humanidade, agora é lembrada?

Porque urge que façamos um minuto de silêncio em honra as suas memórias, mas mantenhamos firmes e fortes na esperança de que seus ensinamentos sejam mantidos em um patamar alto.

E os exemplos não deixam dúvidas, em recente evento em Cannes, Robert de Niro, ator americano, assim vaticinou: “não se pode ficar sem reação, em silêncio. As pessoas devem se expressar e correr riscos, até mesmo de ser assediada ou qualquer outra coisa. Não podemos simplesmente deixar o valentão se safar, ponto final!”.

Com veem, as ameaças estão por toda a parte, não escolhem país nem continente.

Cabe a nós, sobreviventes neste mundo conflituoso, digerir e assimilar os ensinamentos destes passageiros da agonia, que muito cultivaram a empatia e o amor ao próximo.

Salve Francisco e Mujica!!

Décio Guimarães poeta e escritor