Jornada de trabalho e custos no país

Ricardo Alban, Alfredo Cotait Neto, Alceu Moreira e José Velloso (Créditos: Agência Indústria, CACB/Divulgação, Renato Araujo, Câmara dos Deputados e ABIMAC/Divulgação/Montagem: Ana Letícia)

A discussão sobre mudanças na jornada de trabalho no Brasil, especialmente em torno da escala 6×1, voltou ao centro do debate político e econômico em Brasília. A proposta mobiliza trabalhadores, parlamentares e representantes do setor produtivo. Enquanto defensores da redução apontam a necessidade de adaptar o modelo às novas realidades sociais e tecnológicas, lideranças empresariais alertam para os riscos de mudanças sem avaliação técnica sobre impactos na produtividade, nos custos e na geração de empregos.

Indústria alerta para produtividade

Abrindo o debate pelo lado da indústria, o presidente da CNI, Ricardo Alban, defende que o país enfrente primeiro seus gargalos estruturais antes de discutir alterações profundas na legislação trabalhista.

Segundo ele, juros elevados, carga tributária pesada, endividamento das empresas e baixa produtividade formam um ambiente econômico ainda frágil para mudanças bruscas na jornada de trabalho.

Para Alban, a discussão precisa ocorrer fora do ambiente eleitoral e com diálogo entre trabalhadores, empresas e governo. Ele lembra que o chamado “Custo Brasil”, burocracia, insegurança jurídica, infraestrutura precária e crédito caro, segue sendo um dos principais entraves ao crescimento econômico.

Comércio pede cautela

No comércio, o presidente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), Alfredo Cotait Neto, também defende que o debate seja conduzido com base técnica e longe de disputas políticas.

Segundo ele, qualquer mudança precisa considerar a realidade de pequenos e médios empreendedores, que operam com margens reduzidas e enfrentam dificuldades para contratar mão de obra.

“A minha escala é 7 x 0, com muito orgulho”, afirmou, destacando que o trabalho sempre foi visto como instrumento de dignidade e ascensão social. Para ele, o avanço tecnológico deveria priorizar ganhos de produtividade e eficiência, e não necessariamente uma redução imediata da jornada.

Congresso defende negociação

No Congresso Nacional, o deputado Alceu Moreira (MDB/RS) defende que eventuais mudanças ocorram por meio de negociações coletivas entre empregadores e trabalhadores, respeitando as particularidades de cada setor.

Segundo o parlamentar, aplicar uma regra uniforme para toda a economia pode gerar distorções em atividades com rotinas muito distintas, como indústria, hospitais, comércio ou serviços.

Moreira alerta que mudanças amplas podem elevar custos das empresas, com impacto final no preço dos produtos e serviços.

Competitividade em risco

O alerta também vem da indústria de máquinas. Para José Velloso, presidente executivo da Abimaq, reduzir a jornada sem aumento consistente de produtividade pode ampliar o problema de competitividade da economia brasileira.

Ele lembra que o país ainda está distante das economias mais industrializadas. Enquanto países desenvolvidos operam com centenas de robôs na produção, o Brasil possui cerca de 10 robôs para cada 10 mil trabalhadores, muito abaixo da média global de 162.

Para Velloso, reduzir jornada sem enfrentar entraves estruturais pode significar mais custos, menos competitividade e risco de perda de empregos em setores expostos à concorrência internacional.

No centro da discussão permanece um velho dilema da economia brasileira: como avançar socialmente sem ignorar os limites da produtividade e o peso estrutural do custo de produzir no país.

Apoio a fim da escala 6×1 sobe e chega a 71% dos brasileiros, diz Datafolha
A grande maioria dos brasileiros é favorável ao fim da escala de seis dias de trabalho por sema na, proposta hoje em debate no Congresso Nacional, e essa percepção avançou em relação ao levantamento realizado no final de 2024, mostra pesquisa Datafolha.
Para 71%, a jornada máxima no Brasil deveria ser reduzida, enquanto 27% discordam; em de zembro, eram 64% e 33%, respectivamente. Na amostra, 66% declaram trabalhar até 8 horas por dia, 28% entre mais de 8 horas e 12 horas, e 5% mais de 12 horas.
Pela pesquisa, os economicamente ativos se dividem entre os que trabalham até cinco dias na semana (53%) e seis ou sete dias (47%). O segundo grupo, no qual há maior proporção de autônomos e empresários, é menos favorável à medida (68%).

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa