
Por Eli Sant’Anna Cruz
Existem determinados temas, que por maior importância de que se revistam, acabam perdendo seu protagonismo ao longo do tempo, especialmente numa época em que as notícias sobre os “escândalos nossos de cada dia”, esgotam o espaço em todos os veículos da imprensa, tradicional ou alternativa.
O tema do presente artigo, porém, há décadas se mantém vivo e não apenas pela sua importância ou pelo aspecto inovador que apresentou naquele momento em nosso país, mais especificamente nos Estados do Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, mas também pela sua utilidade nos dias de hoje.

A “revolução” de Brizola não se restringiu ao campo das ideias com sua verdadeira obsessão pela educação pública, integral e de qualidade, mas também se revelou num novo paradigma no modo de governar.
Primeiramente mostrou um fato novo, até então desconhecido nos governantes, que foi a coerência e a fidelidade absoluta entre seus discursos de campanha e a prática do governo após sua posse.
Já nos primeiros dias de governo, com seu revolucionário conceito de escola rural, até então caracterizada por grandes prédios, de grande custo, demora na construção e distante dos alunos, ele idealizou pequenas escolinhas de madeira, de baixíssimo custo, que poderiam ser construídas numa semana.
Ato contínuo convocou a comunidade de todo o Estado e graças ao seu carisma, sua credibilidade e a importância da causa, foi atendido, o que proporcionou o milagre da “multiplicação das escolas” e elas surgiram aos milhares, especialmente nos rincões mais remotos da zona rural. Onde houvesse 20 crianças em idade escolar, ali tinha uma “Brizoleta”, o apelido carinhoso com que foram batizadas.
Ele costumava repetir exaustivamente afirmações que se tornaram lemas de sua campanha. O primeiro desses lemas era que “a educação deveria ser a prioridade dentre as prioridades de qualquer governo”. Outra, de suas reiteradas afirmações, numa crítica sutil ao trabalho infantil, cujo debate apenas engatinhava na época, era que “lugar de criança é na escola”.
Já no primeiro ano de governo ele conseguiu a façanha de repetir esses bordões de seus discursos de campanha, mas já então como discurso de governo, na prática.
Obviamente que não se está dizendo que ele atingiu cem por cento das crianças na escola, porque isso dependia de outras variáveis, além da existência da escola, mas as sementes de sonhos e esperanças foram plantadas nos corações de milhares de crianças, até então condenadas à ignorância e à exclusão social.
Concomitantemente, em várias cidades do Estado, foram criados internatos, para que os filhos dos agricultores, beneficiários daquelas escolhinhas, pudessem continuar seus estudos até a conclusão do primeiro grau.
Simultaneamente, em turno inverso, era ministrado um curso profissionalizante, de onde o aluno, depois de formado, era encaminhado para uma vaga de emprego. Assim se dava a despedida do aluno após quatro anos com cama, mesa e roupa lavada e cuja única obrigação era estudar.
Inquestionável é, que isso foi uma verdadeira revolução de ideias, de métodos e de ousadia. Feito que dispensa citações de referência porque está fartamente registrado por toda a imprensa da época, que, livre da influência do patrocínio estrangeiro, era mais nacionalista e sem esse ranço de hoje contra as políticas públicas em benefício dos mais necessitados.
Essa mesma política exitosa no Rio Grande, foi depois adotada também no Rio de Janeiro quando ele governou o Estado após seu retorno do Exílio. No Rio a cereja do bolo foi a criação dos CIEPs (Centro Integrado de Educação Pública). A concretização no plano real do sonho sempre acalentado de uma educação pública, integral e de qualidade.
Contribui para a lembrança desse legado, atitudes recentes da mesma elite, contra a qual Brizola combatia e que demonstraram com toda a ênfase, não apenas um descaso, mas o total desprezo pela educação pública de qualidade.
Primeiro um ex-presidente de triste memória, congela a merenda escolar por quatro anos e anuncia publicamente na TV, que seu grande plano na área da educação era a implantação do ensino à distância, para acabar com as despesas com professores e merendeiras.
Na sequência o governador de um Estado proeminente de nosso país e que é protagonista de um dos mais belos capítulos da nossa história, ignora o patamar civilizatório já conquistado por nosso povo e promete, sem qualquer constrangimento, restaurar o trabalho infantil.
Quando nos defrontamos com escândalos dessa magnitude – mesmo que minimizados pela grande mídia patrocinada – a lembrança de Brizola ressurge como o clarão de um relâmpago em meio à escuridão que se abateu sobre nossa Pátria, conclamando-nos à resistência.
Mais do que nunca, esse legado deve ser divulgado para servir de inspiração às novas gerações e aos verdadeiros patriotas e de antídoto contra os assim travestidos, que vestem a camisa da nossa seleção, mas torcem por outro time, de outro hemisfério. Aqueles que Brizola designava de entreguistas e que hoje são conhecidos como vira-latas.
Brizola é o símbolo da nossa resistência contra o “viralatismo” e sua rebeldia lúcida e ponderada continua viva e foi institucionalizada num Partido, que é o depositário dessa energia e que há de restaurar o seu protagonismo e impedir um retrocesso à barbárie e ao obscurantismo da Pré Idade Média.
Finalizando, o presente texto focou no seu legado restrito à educação, mas Brizola deixou muito mais do que isso e só para aguçar a curiosidade do leitor, ele quando governador do Rio Grande promoveu a primeira reforma agrária do Brasil.
Para concluir, um fato ocorrido no seu velório, quando o então Senador Espiridião Amim, adversário político de longa data, compareceu à cerimônia e ao lado do caixão declamou a poesia “Galo de Rinha”, que retrata com precisão a sua personalidade.
Escrever sobre Brizola e sua revolução na educação seria apenas um dever de justiça, mas para esse escriba é também um prazer imenso por estar resgatando uma parcela, ainda que ínfima, de uma dívida de gratidão impagável com aquele verdadeiro patriota. Eli Sant’Anna Cruz é Bacharel em Direito e Mestre em Ciências Políticas
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa