Idosos entre o medo e o abandono

Paulo Paim (Crédito: Carlos Moura, Agência Senado)

O Brasil está envelhecendo rapidamente, mas o país ainda parece caminhar devagar quando o assunto é garantir dignidade para quem chegou à terceira idade. O senador Paulo Paim (PT-RS) comenta a nova pesquisa nacional sobre a saúde das pessoas idosas, conduzida pela Fiocruz Minas e pela UFMG. O estudo escancara um problema que vai muito além da saúde pública. O estudo revela um retrato duro do abandono urbano, da insegurança e da fragilidade social enfrentada diariamente por milhões de brasileiros.

Prisão silenciosa

Os números impressionam. Quase metade dos idosos que vivem em áreas urbanas teme cair por causa das más condições das calçadas, ruas e passeios públicos. Parece um detalhe simples, mas não é. Um tombo para um idoso pode representar internações longas, perda de mobilidade, dependência permanente e até morte. O medo acaba se transformando em prisão silenciosa dentro de casa.

Falha no planejamento urbano

Ilustração (Edgar Lisboa com revursos de IA)

O problema é ainda mais grave porque esse isolamento destrói a convivência social. O idoso deixa de caminhar, conversar, visitar amigos, frequentar praças e participar da comunidade. Aos poucos, perde autonomia, saúde física e equilíbrio emocional. É um ciclo perverso que revela o quanto o Brasil falhou no planejamento urbano e na preparação para o envelhecimento da população.

Vizinhanças violentas

A pesquisa também mostra que mais de 12% dos idosos consideram suas vizinhanças violentas e inseguras. São cerca de três milhões de pessoas vivendo sob medo constante. A violência urbana, que já afeta toda a sociedade, torna-se ainda mais cruel para quem possui mobilidade reduzida e maior vulnerabilidade física.

Fragilidade da rede de apoio

Outro dado alarmante é a fragilidade da rede de apoio. Entre os idosos que possuem dificuldades para realizar tarefas básicas do dia a dia, apenas 37% recebem algum tipo de ajuda. E somente 5,8% dos cuidadores tiveram treinamento adequado. O país envelhece, mas ainda não estruturou uma política eficiente de assistência e cuidado continuado.

SUS pilar de sustentação

Nesse cenário, o Sistema Único de Saúde aparece como verdadeiro pilar de sustentação. Dois em cada três idosos dependem exclusivamente do SUS. Já a Estratégia Saúde da Família atende cerca de 22 milhões de pessoas idosas. São números que desmontam discursos fáceis contra a saúde pública brasileira. Sem o SUS, milhões simplesmente ficariam desassistidos.

Sinal de alerta nacional

No Congresso Nacional, poucos parlamentares mantêm uma atuação histórica tão ligada à defesa da população idosa quanto o senador Paulo Paim. Reconhecido como um dos congressistas com maior número de projetos aprovados em defesa dos aposentados e idosos, Paim avalia que a pesquisa funciona como um sinal de alerta nacional.

Não basta viver mais

“Não basta viver mais; é preciso viver com dignidade, segurança e qualidade de vida. É preocupante saber que milhões de idosos convivem com o medo da violência, com calçadas e vias públicas sem condições adequadas e, muitas vezes, sem uma rede de apoio para as atividades mais básicas do dia a dia”, afirmou Paulo Paim.

Estatuto da pessoa idosa

O senador lembra que o Estatuto da Pessoa Idosa já garante direitos fundamentais, como mobilidade, segurança, saúde e convivência comunitária. O problema é que muitos desses direitos continuam existindo apenas no papel. “Envelhecer com dignidade deve ser um direito de todos, e não um privilégio de poucos”, reforçou Paim.

População que cresce rapidamente

O estudo deixa claro que o debate sobre envelhecimento não pode mais ser tratado como pauta secundária. O Brasil precisa adaptar cidades, fortalecer políticas públicas, investir em acessibilidade, ampliar redes de apoio e preparar profissionais para cuidar de uma população que cresce rapidamente. Afinal, a forma como um país trata seus idosos revela muito sobre o seu próprio futuro.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa