Nossos monstros de estimação (Júnior Sipaúba)

Júnior Sipaúba /Divulgação

_Nos perderemos entre monstros/Da nossa própria criação /Serão noites inteiras /Talvez com medo da escuridão_

A música _Será_ é um dos maiores clássicos do rock brasileiro, servindo como o primeiro single de trabalho que lançou a banda Legião Urbana ao estrelato nacional. A canção foi lançada em janeiro de 1985. A composição é assinada em conjunto por Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. A genialidade da letra está na sua universalidade e dupla interpretação, permitindo leituras tanto no campo individual, político, familiar, profissional dentre outras possibilidades. Que tal refletir um pouco sobre os nossos “monstros”?
É curioso a forma sutil como criamos nossos “monstrinhos” sistêmicos, e vamos ao mesmo tempo, nos beneficiando de seus mecanismos disfuncionais. O problema é que os cenários existenciais são dinâmicos e mudanças são exigidas diante do princípio de que a realidade se impõe. É exatamente aí, que nos perdemos em nossas criações assombrosas.
Nutrimos expectativas de que seremos tratados dignamente por um sistema adoecido e patrocinado por nossas fantasias e ilusões do coração. Desejamos cafuné e colo de um “monstro” que não conhece essas linguagens de afeto. Nas palavras do monge beneditino Anselm Grün: “Os rituais criam relações”. O problema é que vamos nos acostumando a uma circunferência viciosa que não requer atenção e não acessa o modo “Despertar do Despertar” segundo conceito do rabino Nilton Bonder. Os rituais, então, só criam repetições!
É muito comum encontrarmos gestores à beira de um colapso diante de uma empresa em crise, pastores sofrendo horrores frente aos duros processos eclesiásticos, pais desesperados por não saberem o que fazer com filhos agindo tão perigosamente etc. Diante de tantos cenários sombrios, cabe uma pergunta: será que os “monstros” criados não foram alimentados pela nossa própria permissividade e comodismo?
Há esperança? O famoso refrão (“Será só imaginação/Será que nada vai acontecer? /Será que vamos conseguir vencer?”) traduz a angústia diante da ameaça do desconhecido. Renato Russo definia a canção como uma faixa esperançosa, convidando o ouvinte a buscar soluções para que o egoísmo não destruísse o coração.
A Bíblia nos exorta: “Ainda que pises o insensato com mão de gral entre grãos pilados de cevada, não se vai dele a sua estultícia” (Provérbios 27: 22). Tem gente que mesmo moída pela vida e triturada por escolhas desastrosas, opta por continuar em seus ciclos destrutivos. Abandone a estultícia (um tipo de sabedoria particular que não dialoga com nenhum senso de transcendência), nas palavras do monge Grün: “[…] o cansaço que experimentamos no mundo nos indica um espaço além desse mundo, o espaço interior da alma, onde somos totalmente nós mesmos, livres das oscilações do mundo que nos cansam. O cansaço nos desafia a transcender a esse mundo e a encontrar nosso verdadeiro ser, o qual o mundo não pode influenciar”.  Enfrente os seus monstros!
Júnior Sipaúba é Professor, escritor, teólogo, psicanalista, matemático e mestre de Taekwondo.