O drama do pequeno saruê expõe o abandono silencioso dos animais silvestres em Brasília

Capital da República falha no básico. O Pequeno saruê depois de ser medicado e ficar no oxigênio morreu na madrugada de hoje (20), não aguentou o descaso público. 

Foto ilustração de um saruê. Veja abaixo vídeo do animal silvestre ferido

Por Edgar Lisboa

Brasília gosta de vender ao país a imagem de cidade organizada, moderna e preocupada com sustentabilidade. Campanhas de proteção animal aparecem nas redes sociais, operações ganham holofotes e autoridades exibem fotos de resgates como símbolo de eficiência ambiental. Mas basta um animal silvestre agonizar no asfalto para a dura realidade aparecer: ninguém sabe quem deve agir e, pior, ninguém age.

Foi exatamente isso que ocorreu na noite desta terça-feira, na L2 Norte. Um pequeno saruê silvestre foi atropelado e ficou ferido, sofrendo com lesões na cabeça, enquanto motoristas e voluntários tentavam desesperadamente encontrar ajuda. Pessoas pararam os carros, arriscaram a própria segurança no trânsito e passaram horas ligando para Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Ambiental. O resultado foi um vergonhoso jogo de empurra.

O cidadão tenta ajudar. O Estado desaparece

A situação se torna ainda mais revoltante porque os próprios órgãos públicos alertam constantemente que animais silvestres não devem ser manipulados por pessoas comuns. Ou seja: o cidadão é impedido de agir por questões legais e sanitárias, mas, quando busca o socorro oficial, encontra portas fechadas, telefones sem resposta e desculpas burocráticas.

A resposta atribuída à Polícia Ambiental revolta ainda mais: o resgate só poderia ocorrer “se estivesse dentro da casa de alguém”. Enquanto isso, o pequeno animal permanecia ferido, assustado e indefeso à beira da pista.

No desespero, voluntários conseguiram ao menos retirar o saruê da via para evitar um novo atropelamento. Depois disso, começou outra batalha: tentar internar o animal em uma clínica particular, pagando do próprio bolso para minimizar o sofrimento do bichinho. Uma cena absurda para qualquer cidade. Ainda mais para a Capital da República.

Leis existem. Falta autoridade funcionando

O caso expõe uma contradição gritante. Vivemos um momento em que maus-tratos contra animais podem levar pessoas à prisão e corretamente devem levar. Há campanhas permanentes de conscientização, fiscalização e defesa animal. Mas de que adianta endurecer leis se o poder público falha justamente no momento do socorro?

Leis não faltam. Estruturas também não. O que falta é definição clara de competência, preparo operacional e, principalmente, responsabilidade.

É inadmissível que, em Brasília, ninguém saiba exatamente quem deve atender um animal silvestre atropelado. Bombeiros, Polícia Ambiental, órgãos ambientais e estruturas veterinárias públicas deveriam operar de forma integrada para situações assim. Não é aceitável que um cidadão precise implorar por atendimento enquanto um animal agoniza.

Congresso e Câmara Distrital precisam reagir

A Câmara Legislativa do Distrito Federal e, principalmente, a Câmara dos Deputados precisam tratar episódios como esse com seriedade. Não basta aprovar leis simbólicas e endurecer discursos nas redes sociais. É preciso garantir protocolos objetivos, atendimento rápido e responsabilização de quem se omite.

O drama do pequeno saruê mostra um vazio institucional perigoso: todos falam em proteção animal, mas, na prática, o socorro desaparece quando realmente é necessário.

Um recado ao GDF

A governadora Celina Leão tem demonstrado disposição para cobrar resultados e acelerar áreas que não funcionam na administração pública. Está aí um tema que merece atenção imediata.

Alguém precisa definir, de forma clara, quem salva, quem recolhe e quem atende animais silvestres feridos no Distrito Federal. Não é possível permitir que novos episódios terminem em abandono, improviso e sofrimento.

Porque enquanto os órgãos discutem de quem é a responsabilidade, o pequeno saruê segue ferido e Brasília coleciona mais um retrato vergonhoso de omissão pública.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa