Uma Religião Simples (Paulo José Corrêa)

Paulo José Corrêa/Divulgação

Era um belo projeto religioso!

Incomodado com a parafernália religiosa judaica que oprimia as pessoas, Jesus resolveu criar uma religião simples. Como ele criticava a infindável lista de mandamentos do judaísmo, que impunha regras para tudo, certo dia vieram os teólogos judaicos e lhe perguntaram:
— Nossa religião é baseada nos mandamentos. Numa sistematização teológica, qual é o maior deles?
— Simplifiquem! Toda a teologia se concentra em dois tópicos: amar a Deus e ao próximo. Tudo o que está nas Escrituras se resume a esses dois mandamentos. Toda a complexidade religiosa se dissolve diante desses dois princípios.
— Só isso? Simples assim?
— Simples assim.
Acostumados à liturgia judaica, os discípulos de Jesus estavam preocupados com o modo de orar.
— Mestre, precisamos de um curso sobre oração para saber que palavras, gestos e rituais usar.
— Simplifiquem! Querem um curso? Vou lhes dar um em cinco palavras: pai, perdão, poder, pão e pecado. Dirijam-se a Deus como a um pai. Lembrem-se que ele é o Deus do perdão, que tem poder para dar o pão e para livrar do pecado.
— Mateus, você que é cobrador de impostos e está acostumado a fazer registros, anote aí essas cinco palavras para a gente não esquecer —, disse Pedro.
— Tá complicado ainda? Vou simplificar mais. Guardem só uma palavra: misericórdia. Se não souberem orar, digam como publicano: “Tem misericórdia de mim!” Pronto! Deus entendeu tudo. Não precisam usar muitas palavras.
— Só isso?
— Simples assim.
Mas a palavra “poder” acendeu uma luzinha amarela na mente de alguns discípulos. “Se o Mestre for embora, quem dentre nós vai comandar essa nova religião? Quais serão os critérios pra escolher os líderes?” Levaram a questão a Jesus.
— Simplifiquem! Um único critério é suficiente: servir. Quem quiser ser o líder entre vocês, que seja servo dos demais.
— Só isso? Simples assim?
— Simples assim.
A mulher samaritana estava preocupada com o lugar de culto.
— Há divergência sobre o local para adorar a Deus. Precisamos saber o lugar certo. Não podemos ir aonde ele não está.
— Mulher, simplifique! Não importa o local. Jerusalém, Samaria, Nazaré, tanto faz. Nessa nova religião o lugar está em você. Você é o lugar! É só ter sinceridade na sua adoração.
— Simples assim?
— Simples assim.
Para a mulher adúltera, o problema era o pecado.
— Não me apedrejaram, mas eu sei que sou uma pecadora. O que devo fazer para me redimir? Sacrificar um cordeiro, um novilho? Quantos dias deve durar a minha purificação?
— Não complique, mulher! Está arrependida? Então, siga seu caminho e evite o pecado.
— Só isso? Simples assim?
— Simples assim.
Sim, era uma bela ideia: uma religião simples, uma religião do coração!
MAS…
​Ao longo da história, os cristãos que não gostavam ou não sabiam viver em liberdade começaram a perguntar:
​— E os mandamentos?
​Então criaram e recriaram inúmeras regras, embora preguem que o tempo da lei já passou. E o cristianismo tornou-se complicado como a religião dos fariseus.
​Depois, vieram os que gostam de rituais e indagaram:
​— E os sacramentos?
​Então decidiram que certos rituais eram necessários como sinais e canais da graça divina. Alguns grupos fixaram em dois, outros em cinco e outros em sete o número dos sacramentos. E estabeleceram que eles são necessários para a fé.
​Outros, mais preocupados com a estética religiosa, questionaram:
​— E os paramentos?
​Então, investiram tempo e dinheiro no aperfeiçoamento de roupas clericais, algumas enfeitadas como fantasias carnavalescas. E construíram catedrais, templos cada vez mais requintados, paramentados com frisos, pinturas e vitrais, que viraram atrações turísticas. E criaram artefatos de ouro, prata e pedras preciosas para serem reverenciados.
​E como a manutenção da máquina religiosa, cada vez mais intrincada, custa muito dinheiro, tornou-se inevitável a pergunta sobre os recursos financeiros. Então os seguidores do tesoureiro Judas se manifestaram:
​— E os rendimentos?
​E restabeleceram a regra do Antigo Testamento sobre os dízimos e inventaram inúmeros tipos de ofertas. E passaram a vender milagres e promessas de prosperidade. E criaram seitas caça-níqueis na televisão. E buscaram mais e mais imunidades e isenções tributárias. E os cofres de igrejas e os bolsos de líderes começaram a financiar mansões, aviões e fazendas. Tudo com a justificativa de que é para “glória de Deus”.
​E como a administração de toda essa complexa organização religiosa demanda instituições, cargos e distribuição de poder, então perguntaram:
​— E os empoderamentos?
​E criaram hierarquias e títulos honoríficos, funções e carreiras eclesiásticas. E se envolveram em disputas internas e externas pelo poder. E aliaram-se a organizações políticas e econômicas para alongar os tentáculos da influência eclesiástica. E começaram a lutar por governos religiocráticos.
​E assim foram acrescentando outras complicações. E a religião simples tornou-se uma nova versão daquilo que Jesus tanto combateu. E o singelo “amar a Deus e ao próximo”, essência da proposta original do cristianismo, perdeu-se no meio dessa nova parafernália religiosa.
Que pena!
Paulo José Corrêa é pós-graduando em Ciências da Religião e autor do livro Três Bilhetes e um Segredo.