Pai com aço (Josué Silva)

Josué Silva/Divulgação

Hoje é comemorado o Dia dos Pais.

Na década de 1980, a Goodyear, gigante fabricante de pneus, lançou o pneu Grand Prix S. Era um pneu muito especial que se tornou muito conhecido e está na memória dos brasileiros de então devido ao famoso bordão – “É mais que pneu. É pneu com aço. É pneuaço”.
Depois dessa propaganda, por um bom tempo, passou a ser comum o acréscimo do sufixo “-aço” quando a coisa ou a pessoa eram de primeira excelência, de ótima qualidade: carroaço, tijoloaço, tioaço, amigoaço, filhaaço, mãeaço, paiaço…
Paiaço não é um pai super-herói. É um pai que desempenha seu papel básico – dar proteção e atenção aos filhos. Proteção é teto, comida, cama, roupa e outras coisas que o dinheiro paga. Mas proteção não é só dar coisas que o dinheiro paga. É, também, defender os filhos de perigos diversos e dar segurança e certeza de que os filhos são importantes, de que têm lugar de destaque em sua vida e rotina diária. Já atenção é amor, afeto, carinho, orientação, ensino, educação, formação. É tudo que o dinheiro não paga. É tudo o que tem valor. Não preço.
Se os filhos não têm uma dessas coisas – proteção e atenção –, tornam-se adultos carentes. A carência é a mãe da insegurança, da ansiedade, do medo, da vergonha, da timidez excessiva, das fobias e do pânico, por exemplo. Qualquer pessoa que você por ventura conheça que é carente é porque faltou a ela proteção ou atenção. Se ela é muito carente, é porque a ela faltaram as duas coisas.
A proteção, no que diz respeito às coisas que têm preço, pode ser pequena, pobre ou até escassa, visto que nem todos podem dá-la como gostariam ou como os filhos merecem. A atenção, como só tem valor, e a parte da proteção que não depende de dinheiro precisam ser grandes, ricos, abundantes, pois, a rigor, todos podem dá-las.
Todos podem dá-las? Infelizmente, não. Todos damos o que temos. Se não temos, não temos como dar. Alguns pais não dão atenção e segurança aos filhos porque nunca as receberam. Muitos pais precisam ser tratados emocionalmente para conseguirem dá-las.
Muitos pais só querem dar aos filhos o que o dinheiro paga. É que é mais fácil dar o que tem preço, não o que tem valor. O que tem preço, sai do bolso. Abrir a carteira é mais fácil do que abrir o coração, a alma. Na prática, para muitos pais, o bolso cheio revela um coração cheio e um coração vazio é compensado por um bolso cheio.
Quando falamos de coisas que têm preço e de coisas que têm valor, falamos de algo que tem o maior valor do mundo – o tempo. Quando nos dedicamos às coisas que têm preço, gastamos nosso tempo ganhando dinheiro e não temos tempo para as coisas que têm valor.
Um paiaço tem tempo para os filhos. Tempo de qualidade. Tempo que produz memória afetiva cheirosa, gostosa, prazerosa, inesquecível nos filhos.
Nesta semana, perguntei a uma jovem senhora de 34 anos de idade, minha paciente, mãe de dois rapazes, qual era a melhor memória afetiva que ela tinha do pai. Sem pestanejar, rapidamente, falou: Não tenho memória afetiva alguma de meu pai. Ele nunca me deu proteção, atenção nem tempo.
Um senhor, também meu paciente, hoje pai de um casal de filhos, disse: Meu pai só me deu o que tinha preço, e eu só queria atenção e tempo. Um pouco do tempo dele. Eu só queria me sentir amado, querido. Importante para ele. Eu só queria tê-lo comigo.
Paiaço se parece com palhaço, não? É só uma semelhança sonora. Na verdade, nada tem a ver um com o outro. É uma forma carinhosa de superlativizar o substantivo pai. Não é revelar o papel que muitos pais desempenham hoje estragando o papel maravilhoso que esse artista, astro do circo, desempenha.
Josué Silva é professor, pastor, teólogo, palestrante, conselheiro cristão, master terapeuta emocional, escritor e membro da Academia Evangélica de Letras do Distrito Federal.