Por uma Teologia Ecológica (Albérico Camelo de Mendonça)

Albérico Camelo de Mendonça/Divulgação

Em seu livro “Poluição e a Morte do Homem” (1970), Francis Schaeffer destacou que, para defender a ecologia, o cristão não precisa evocar o panteísmo como sua base filosófica, pois a Bíblia oferece a base correta para uma relação respeitosa e sustentável com a natureza. Dessa forma, a denominada “Teologia Ecológica”, ou Ecoteologia, tornou-se uma reflexão da fé que integra o cuidado com a natureza e a justiça social como partes centrais da mensagem bíblica. Propõe-se neste espaço apresentar alguns destaques sobre as bases bíblicas dessa Teologia.

Em primeiro lugar, a Bíblia apresenta a criação como obra de arte e o denominado “Mandato de Guarda”. No Antigo Testamento, a narrativa da criação estabelece que o mundo pertence a Deus e possui um valor intrínseco, independente da utilidade para o homem.
Gênesis 1: Repete exaustivamente que tudo o que Deus criou “era bom” antes mesmo da existência humana. A biodiversidade e os ecossistemas têm aprovação divina por si mesmos.
Gênesis 2:15: O ser humano é colocado no jardim para “o cultivar e o guardar” (do hebraico shamar, que significa proteger, vigiar e preservar). Isso supera a má interpretação de “dominar” a Terra como um direito à exploração irrestrita.
Salmo 24:1: Afirma categoricamente que “do Senhor é a terra e a sua plenitude”. O ser humano não é proprietário do planeta, mas um administrador (mordomo) que prestará contas de suas ações.
A Bíblia apresenta pactos em que a natureza é incluída explicitamente nas promessas e nos direitos dados por Deus.
Gênesis 9 (Aliança com Noé): Após o dilúvio, Deus estabelece uma aliança não apenas com os sobreviventes humanos, mas “com todos os seres viventes e com a própria Terra”.
Levítico 25 (O Ano Sabático): A lei mosaica determinava que a cada sete anos a terra deveria descansar sem ser cultivada. Isso demonstra uma preocupação ecológica com a regeneração do solo e o respeito aos limites da natureza.
O profeta Habacuque, no capítulo 2:17, faz uma denúncia direta contra a devastação ambiental e o abuso cometido contra animais pelo Império Babilônico:
 “Porque a violência cometida contra o Líbano te cobrirá, e a destruição dos animais ferozes os assombrará, por causa do sangue dos homens, e da violência para com a terra, a cidade e todos os seus moradores” (Habacuque 2:17, versão ARC).
Desse texto destacam-se:
1) A devastação florestal: O termo “violência contra o Líbano” refere-se ao desmatamento predatório das famosas florestas de cedro daquela região, que eram exploradas pelos impérios conquistadores para construir palácios e templos.
2) A crueldade com animais: O texto condena o massacre e a caça predatória da fauna local, afirmando que a dor causada aos animais se voltaria contra os próprios opressores como forma de juízo divino.
3) A conexão socioambiental: O profeta conecta diretamente a violência social (derramamento de sangue humano) com a violência ecológica (agressão à terra), mostrando que a injustiça humana desestabiliza a criação de Deus.
No Novo Testamento, a missão de Jesus Cristo não se limita à salvação individual das almas humanas, mas projeta a restauração de todo o cosmos.
Colossenses 1:15-20: O hino cristológico afirma que por meio de Cristo foram criadas “todas as coisas, nos céus e na terra” e que o sacrifício da cruz reconciliou consigo tudo o que existe.
Romanos 8:19-23: Paulo descreve a natureza de forma poética e teológica, dizendo que “a criação aguarda com ardente expectativa” a libertação dos filhos de Deus, pois ela própria geme com dores de parto, sofrendo as consequências da corrupção e do pecado humano.
Apocalipse 21: A consumação da história bíblica não prevê a destruição do mundo físico para uma fuga espiritual, mas a descida de uma Nova Jerusalém em uma “nova terra”, onde Deus habitará plenamente com a criação restaurada.
Apocalipse 11:18 é um dos versículos mais fortes e impactantes de toda a Bíblia sobre o juízo final e a responsabilidade humana. Diz: “As nações se iraram; e chegou a tua ira. Chegou o tempo de julgares os mortos e de recompensares os teus servos […] e de destruir os que destroem a terra”.
Para a ecoteologia, essa passagem funciona como um alerta escatológico gravíssimo. Na perspectiva teológica, o texto carrega dois significados profundos que se complementam:
1) O Significado Ecológico e Literal: Deus confiou o planeta aos seres humanos como um jardim para ser protegido (Gênesis 2:15). Quando a humanidade inverte esse papel e passa a explorar a criação com ganância, poluindo os rios, extinguindo espécies e devastando biomas para o lucro imediato, ela comete uma rebelião contra o Criador. O texto de Apocalipse deixa claro que o colapso ambiental não passará despercebido: arruinar a obra de Deus traz consequências espirituais e um julgamento divino severo.
2) O Significado Teológico e Moral (A Corrupção da Terra) No contexto original grego do Novo Testamento, a palavra usada para “destruir” (diaptheiro) também tem o sentido de corromper, arruinar ou perverter.
Isso conecta o versículo diretamente a Gênesis 6:11, que diz que antes do dilúvio “a terra estava corrompida diante de Deus e cheia de violência”. Portanto, “destruir a terra” significa tanto a destruição física da natureza quanto a destruição moral da sociedade. A ganância que polui os rios é a mesma que explora os pobres e promove a guerra. Destruir o ambiente onde a vida deve florescer é o ápice da maldade humana.
Em linha de arremate, destaca-se que Apocalipse 11:18 desfaz qualquer ilusão de que o cuidado com o planeta seja um tema secundário ou meramente político. Trata-se de uma questão de fidelidade doutrinária. Destruir o meio ambiente é uma afronta direta ao Criador e uma rebelião contra Seu plano de vida. Abraçar uma teologia ecológica é, portanto, responder ao chamado urgente de conversão, transformando nossa postura de predadores em guardiões dedicados do jardim de Deus.
Albérico Camelo de Mendonça, pastor, professor, escritor.