Um passinho pra trás: que tal? (Júnior Sipaúba)

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Júnior Sipaúba /Divulgação

_Será que o excesso de amor mata o amor? Eu acho que sim. É como um estômago se autodevorando. O Google me disse que o estômago não devora a si mesmo porque há um muco que o protege dos próprios sucos gástricos que ele produz, a fim de digerir o alimento. Eis que no amor também é assim. Alguém tem sempre que dar um passinho para trás para garantir o muco protetor do amor, que impeça que um devore o outro._                                                                                                            – Ana Suy

      É impressionante como o excesso de “amor” vem matando o jeito de amar de muita gente. E muitos vão concluindo mais um ano sem refletir profundamente em seus “quartos escuros” emocionais. Fico imaginando quantos relacionamentos promissores terminaram por falta de uma dosagem saudável nos afetos. Não se trata apenas de amar ou não amar, mas de saber amar.
      Um sábio rabino fez uma provocante reflexão sobre o sentido do amor, utilizando uma experiência inusitada e até bem-humorada. Dizia o mestre, que quando alguém está devorando um prato de peixe ou qualquer outro tipo de carne, e você perguntar ao sujeito o motivo de tamanha satisfação, geralmente é possível ouvir como resposta: “Porque eu amo peixe ou eu adoro uma picanha etc.”. Será mesmo? Segundo entendimento do rabino, se realmente amássemos o peixe, ele teria sido pescado e devolvido vivo para a água. Na verdade, segundo ensinou o mestre, nós amamos a nós mesmos, por isso o peixe vai parar na panela.
      Muito do que chamam de amor é ‘amor a peixe”, colocamos os outros em “frigideiras e panelas” das nossas próprias paixões e vamos chamando tudo isso de amor. Talvez seja só excesso mesmo, mas o Cântico dos Cânticos nos alerta: “As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios, afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de todo desprezado” (8.7).
      Pode ser que a sabedoria do amor é saber justamente a medida de aproximação e de distanciamento – um tipo de “elasticidade” que falta em muitos relacionamentos. Vamos vivendo e sufocando as pessoas, alimentando relações em que já não se sabe “o que sou eu e o que é você” nas palavras da escritora e psicanalista Ana Suy em seu livro _Não pise no meu vazio_.
     É triste reconhecer que vamos transformando o outro em mantimento para as nossas necessidades. Nossas paixões olham para as nossas necessidades e satisfações, é lindo no hebraico bíblico o significado de amor como doar-se ou doação.
    O ano está terminando, dizem que o Natal é o tempo de dar um passinho para trás para garantir o muco protetor da vida – tipo um ritual litúrgico que chama o outro para um abraço, não o abraço profundo na canção de Jota Quest que diz que “Tudo que se espera ou sonha; num abraço a gente encontra”. E o Ano Novo? Aí, o tempo é para saltos para frente (para quem pode, nas ondas), muita bebida, promessas, cumprimentos, roupas brancas (as íntimas podem ser de outra cor, de preferência as que chamam prosperidade, e para terminar, tudo regado a muito “amor a peixe”.
José Sipaúba Costa Júnior é Professor, escritor, teólogo, psicanalista, matemático e mestre de Taekwondo.

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