Por Edgar Lisboa
O reajuste autorizado para medicamentos, que pode chegar a 3,81% a partir desta terça-feira (31) vem acompanhado de um discurso técnico da Anvisa e da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED): aumento controlado, abaixo da inflação e com regras claras. No papel, tudo parece equilibrado. Na prática, não é bem assim.
A conta que não fecha para quem mais precisa

O problema não está apenas no índice, mas na realidade de quem depende de remédios todos os dias. Aposentados e pacientes crônicos já convivem com uma matemática cruel: boa parte da renda mensal é comprometida com medicamentos. Qualquer reajuste, ainda que “baixo” nos parâmetros técnicos, pesa, e pesa muito.
Nas farmácias, o impacto é imediato. Quem ganha um salário mínimo, ou pouco mais, sente no caixa aquilo que não aparece nos relatórios oficiais. Não se trata de estatística, mas de sobrevivência. Há casos em que metade da aposentadoria já é destinada à compra de remédios contínuos.
Regulação existe, mas não resolve o essencial
A CMED define tetos e a Anvisa reforça que os aumentos não são automáticos. É verdade. Mas também é fato que, ao longo do ano, os preços tendem a subir e raramente ficam abaixo do limite permitido.
O argumento de que o reajuste médio (2,47%) é o menor em duas décadas e inferior à inflação pouco consola quem já vive no limite. Na ponta, o consumidor não compara índices: ele sente o peso no orçamento.
O recado ao Planalto
Aqui está o ponto central que precisa chegar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: saúde não pode ser tratada apenas como variável econômica. Quando o custo do remédio sobe, o impacto é direto na qualidade de vida, especialmente entre idosos.
O governo tem apostado em programas de acesso e na regulação de preços, mas há um descompasso evidente entre a política pública e a realidade das farmácias. O envelhecimento da população brasileira torna essa equação ainda mais urgente.
Entre o controle e o acesso
O Brasil possui um dos sistemas de controle de preços de medicamentos mais estruturados do mundo. Ainda assim, o acesso pleno continua sendo um desafio. O reajuste anual, mesmo dentro da regra, expõe uma fragilidade: controlar preços não é o mesmo que garantir acesso.
Enquanto isso, aposentados seguem fazendo escolhas difíceis, entre comprar todos os remédios ou ajustar o tratamento. E essa é uma decisão que nenhum cidadão deveria ter que tomar.
O alerta está dado
Mais do que discutir o percentual de reajuste, o debate precisa avançar para políticas mais efetivas de acesso. O aumento pode ser tecnicamente justificável, mas socialmente continua sendo um problema.
E, neste caso, os números não contam toda a história. Quem conta são os brasileiros que, mês após mês, veem a saúde pesar cada vez mais no bolso.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa