
O início dos trabalhos no Congresso Nacional foi marcado por um discurso duro e contundente do deputado Kim Kataguiri (União/SP), que subiu à tribuna para classificar como “muito ruim” a forma como o Parlamento começa o ano legislativo. Para ele, enquanto o país enfrenta dificuldades fiscais e cobra responsabilidade do Estado, a Câmara e o Senado avançam justamente no sentido oposto: ampliam despesas, criam cargos e preservam privilégios.
Privilégios avançam, reforma não
Kataguiri criticou a aprovação de projetos que, somados, aumentam em cerca de R$ 5 bilhões os gastos públicos, incluindo a manutenção dos supersalários, a criação de aproximadamente 18 mil novos cargos e reajustes no Legislativo com possibilidade de remuneração acima do teto constitucional. Segundo o deputado, propostas estruturais, como a reforma administrativa e a PEC contra os privilégios, de sua autoria e que visa acabar com supersalários no Judiciário, Ministério Público e Executivo seguem sem qualquer avanço.
Privilégios preservados, cortes ignorados
No discurso, Kataguiri apontou o que considera uma resistência sistemática do Parlamento em mexer nos próprios benefícios. Citou a recusa em discutir o corte da cota parlamentar, do uso de carros oficiais, do auxílio-gasolina e até do auxílio-mudança pago a deputados reeleitos. Também criticou a manutenção das emendas parlamentares, que classificou como um “sequestro” de cerca de R$ 50 bilhões do Orçamento.
Congresso extrapola funções
Para o deputado, o Congresso extrapola suas funções ao executar orçamento, algo que, segundo ele, não ocorre em países com democracias consolidadas. “Parlamento legisla e fiscaliza, não executa”, afirmou, reforçando que esse modelo aprofunda distorções e alimenta a descrença da população na política.
Desgaste da imagem política
Kataguiri também criticou a falta de avanço em comissões parlamentares de inquérito. Lembrou que não há CPI instalada na Câmara, incluindo uma proposta por ele para investigar o tráfico de crack, parada há dois anos. No Senado, citou a ausência de sinalização do presidente Davi Alcolumbre para instalar a CPMI do Banco Master.
Parlamento desacreditado
Ao final, fez uma autocrítica severa à classe política. Disse que a má imagem do Parlamento junto à sociedade não é injusta e chegou a afirmar que a realidade interna é “pior do que as pessoas imaginam”, com desempenho fraco, defesa de interesses corporativos e corrupção mais profunda do que o senso comum percebe.
Defesa da educação e novos cargos

Na contramão das críticas, a deputada Maria do Rosário (PT/RS) saiu em defesa dos projetos que criam novos cargos, destacando o papel estratégico da educação pública para o desenvolvimento nacional. Segundo ela, os institutos federais e as universidades públicas, criados e fortalecidos nos primeiros governos do presidente Lula, são instrumentos essenciais para garantir soberania, inovação e inclusão social.
Empregabilidade qualificada
A parlamentar ressaltou que os institutos federais têm forte vínculo com o desenvolvimento local e contribuem para a empregabilidade qualificada, especialmente em um país que busca ir além da condição de exportador de commodities. A parlamentar defendeu a criação de cerca de 16 mil cargos para IFs e universidades, além de 1.500 cargos para o Ministério da Gestão, e comemorou o fim da lista tríplice nas universidades federais, assegurando a posse dos reitores mais votados. Ao final, pediu voto favorável às propostas.
PT tenta se descolar do aumento de privilégios

Após a aprovação do reajuste dos servidores do Legislativo, o presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, Edinho Silva, afirmou que o partido é contrário a medidas que ampliem privilégios. Segundo ele, o Brasil vive um momento de descrédito da política e da democracia, e qualquer iniciativa que afaste a vida institucional da realidade do povo só aprofunda essa crise.
Reformas estruturais
Edinho defendeu cautela e afirmou que o Congresso deveria estar debatendo reformas estruturais, como a reforma político-partidária, para melhorar a representatividade e fortalecer a democracia, em vez de abrir brechas para remunerações acima do teto constitucional.
Alerta para desequilíbrio fiscal

O consultor de macroeconomia Raul Velloso avaliou que os projetos aprovados criam distorções graves nas contas públicas. Segundo ele, as novas regras praticamente dobram os salários do alto escalão do Legislativo, permitem pagamentos acima do teto constitucional e instituem benefícios como escala de trabalho diferenciada e gratificações por produtividade que podem chegar a 100% do salário.
Rombo fiscal expressivo
Velloso lembrou que o próprio presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos/PB), admitiu em plenário que os vencimentos podem ultrapassar o teto. Para o economista, o problema se agrava diante do anúncio de um rombo fiscal expressivo no resultado primário, somando governo central, estatais, estados e municípios.
Ampliando desigualdades
Raul Velloso alertou que esse tipo de gasto corrente não gera crescimento econômico nem empregos e compete diretamente com investimentos em infraestrutura. Além disso, pode gerar efeito cascata, estimulando pedidos de equiparação em outras carreiras do serviço público e ampliando ainda mais as desigualdades internas.
Escassez para muitos, privilégios para poucos
O debate expôs uma contradição central da política brasileira: enquanto o discurso oficial fala em ajuste fiscal, responsabilidade e falta de recursos, decisões concretas seguem preservando e ampliando benefícios para segmentos específicos do Estado. A dificuldade em enfrentar privilégios históricos contrasta com a pressão por cortes em áreas sensíveis e com a redução da capacidade de investimento público.
Distanciamento entre Parlamento e sociedade
No embate entre discursos de austeridade e práticas corporativas, cresce o distanciamento entre o Parlamento e a sociedade. E, como alertaram diferentes vozes no plenário, esse abismo cobra um preço alto: mais descrédito, mais desconfiança e uma democracia cada vez mais pressionada por suas próprias contradições.
Custo político em ano eleitoral

A crise já começa a ser vista como um desgaste direto para o presidente da Câmara, Hugo Motta, logo nos primeiros dias do ano legislativo. Em um calendário marcado por disputas eleitorais, a decisão tende a ampliar o ruído político e alimentar críticas internas e externas. Nos bastidores, cresce a expectativa de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vete o projeto. Governo está dividido sobre os vetos aos exageros salariais do Congresso. A articulação para pressionar pelo veto já começou, enquanto servidores cobram uma saída concreta que corrija distorções, restabeleça a isonomia e evite que a crise administrativa se transforme em um problema político ainda maior para o Congresso.
Clima de embate ideológico

Em meio à retomada das sessões, a deputada Carla Dickson (União/RN) ocupou a tribuna para um pronunciamento incisivo, no qual fez críticas diretas à esquerda e ao governo federal. Em tom de indignação, a parlamentar afirmou que o debate político segue dominado por narrativas que, segundo ela, distorcem fatos e mantêm o Congresso em permanente clima de campanha.
Palanque reaberto
A parlamentar afirmou que o clima no plenário já é claramente eleitoral. Segundo ela, bastaram dois dias para perceber o tom adotado por parlamentares de esquerda. “Estamos retornando aos trabalhos dessa Casa e já no segundo dia pude perceber, e digo até ficar nauseada, com tanta narrativa mentirosa e hipócrita de deputados de esquerda”, declarou. Para a deputada, o Congresso segue funcionando como palco permanente de campanha. “Deu pra ver que o tom será esse ano eleitoral, um palanque eleitoral. Na verdade, o palanque nunca foi desfeito, a força do nome Bolsonaro continua ecoando e com força nesse plenário”.
Bolsonaro como alvo
Ao avançar no discurso, Carla Dickson acusou o governo federal de atribuir todos os seus problemas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. “O governo federal não conseguiu trabalhar, por culpa de quem? De Bolsonaro. Os inúmeros impostos criados e aumentados era por causa de quem? De Bolsonaro”, afirmou. Em tom irônico, acrescentou: “Até uma baleia foi tema de discussões acaloradas aqui, culpa de quem? De Bolsonaro”. Para a deputada, o objetivo político da esquerda foi alcançado. “Agora, a maior liderança da direita, Bolsonaro, está onde vocês sonharam”, disse, antes de questionar: “E o Brasil? Como fica?”.
Responsabilidades e contradições
Na parte mais dura do pronunciamento, a parlamentar criticou diretamente o governo Lula e rejeitou a transferência de responsabilidades. “É culpa de Bolsonaro o filho do Lula roubar idosos, crianças com deficiência e ainda fugir do Brasil com medo de uma tal Papuda? É culpa de Bolsonaro a nora do Lula roubar da educação das nossas crianças, deixando o MEC só com livros de português e matemática esse ano? É culpa de Bolsonaro o rombo de trilhões nos caixas públicos e a falência à vista de nossas estatais?”, questionou. Em seguida, foi categórica: “Na verdade, se tirar o nome Bolsonaro da política, acaba a esquerda brasileira”.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa