O Idadismo e a Bíblia (Orcélio Amâncio)

José Orcélio de Almeida Amâncio/Divulgação

“Lembrem-se dos dias antigos; considerem as gerações passadas. Perguntem a seus pais, e eles lhes contarão; perguntem a seus anciãos, e eles lhes explicarão” (Deuteronômio 32.7).

Hoje, quando olho para a sociedade hodierna, numa visão macro, percebo que o grande destaque não são mais os idosos, com suas experiências, conselhos e visão de mundo.
O panorama atual é um cenário bastante tecnológico, mais focado na beleza estética, com o ser “sarado” e com o “corpo atlético”. Este é o grupo reverenciado e procurado para dirimir dúvidas e aconselhar as gerações mais jovens.
O que prende muitas vezes as gerações “alfa” e “beta”, principalmente, nas redes sociais, por horas, são os programas atrativos, repletos de entretenimentos feitos para os jovens e adolescentes transmitidos por influenciadores de pouca idade. Eles não param para ouvir alguém com idade avançada, nem tão pouco procuram se aconselhar com eles. É preciso que valorizemos mais os idosos e essa prática precisa começar no seio da família, onde muitas vezes eles são deixados de lado e não são consultados para nada.
O idadismo é também conhecido como etarismo ou ageísmo, ou seja, trata-se do conjunto de estereótipos capaz de rotular comportamentos, aparências e capacidades, ignorando a individualidade; são preconceitos e discriminações voltados para uma pessoa ou grupo tomando como base a sua idade.
A Bíblia recomenda: “…perguntem a seus anciãos, e eles lhes explicarão” (Deuteronômio 32.7). As gerações modernas, dificilmente irão recorrer aos avós, aos pais ou outra pessoa de idade mais avançada. Essa faixa etária mais jovial, quando têm alguma dúvida, recorre principalmente à internet.
Ouvir alguém de mais idade, para eles, é demorado, é perda de tempo e eles não têm paciência de ouvir os mais experientes na vida para lhes transmitirem algum conselho.
O idadismo se manifesta, principalmente, atingindo a faixa de idade mais velha, limitando oportunidades e violando direitos humanos e contrariando assim, o que está preconizado na Palavra de Deus. Paulo escrevendo a Timóteo orienta a tratar as pessoas idosas com mais respeito: “Não repreendas asperamente os anciãos, mas admoesta-os como a pais; aos jovens, como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães, às moças, como a irmãs, em toda a pureza.” (1 Tm 5.1,2).
Em Levítico está escrito: “Diante das cãs te levantarás, e honrarás a face do velho, e terás temor do teu Deus. Eu Sou o Senhor.” (Lv 19.32). Muitos não conhecem a Deus, quanto mais honrarem as pessoas de mais idade!
O idadismo é muito nocivo à sociedade, porquanto, ele não é visto apenas como um incômodo social, mas ele pode promover impactos extremamente severos na vida das pessoas, podendo ocasionar transtornos psicológicos, riscos de depressão e isolamento familiar e até mesmo social. Quantas pessoas com idade avançada têm abandonado seus trabalhos e optam em permanecer em casa, isolados de tudo e de todos, por causa de discriminação, subestimação da capacidade de aprendizado e adaptação nas diversas áreas de trabalho?
É preciso que cada um de nós afaste toda e qualquer prática de idadismo, e cumpramos o que está preconizado nas Escrituras Sagradas: “Lembra-te dos dias da antiguidade, atenta para os anos de muitas gerações, pergunta a teu pai, e ele te informará, aos teus anciãos, e eles te dirão.” (Dt 32.7).
É aconselhável que cada família cuide e ampare os seus idosos em todos os sentidos da vida. A sociedade contemporânea precisa reaprender a ouvir diligentemente aos idosos. Estes têm experiências gloriosas e são capazes de aconselhar pessoas a tomarem decisões acertadas. O idadismo corrói de maneira silenciosa as relações, e na maioria das vezes promove a destruição de vínculos sociais e empobrece a sabedoria coletiva.
O texto bíblico de Deuteronômio 32.7, toca num ponto que a sociedade hoje, insiste em esquecer: a memória, a experiência e a voz dos mais velhos não são opcionais, são estruturais para a saúde de qualquer comunidade. Trata-se de um chamado antigo para um problema moderno. O texto bíblico não é apenas uma recomendação moral; é uma estratégia de sobrevivência social. Deus orienta o povo a olhar para trás, ouvir os mais velhos e aprender com eles. A sabedoria não nasce espontaneamente, ela é transmitida.
Hoje, vivemos um momento delicado, pois a cultura da velocidade, da estética e da juventude transformou o idoso em alguém “ultrapassado”, “desconectado”, “irrelevante”. O que antes era honra, virou estereótipo. O que antes era referência, virou invisibilidade. Precisamos resgatar os valores dos idosos e honrá-los, reverenciarmos e respeitá-los por ter vivido gerações antes de nós.
O idadismo é na verdade um preconceito silencioso, muitas vezes aceito como “normal”. Mas ele dilacera o coração, e destrói a autoestima dos idosos, mas também a transmissão de sabedoria entre gerações, a coesão social e a visão bíblica de comunidade.
A Bíblia sempre soube valorizar a velhice. A Escritura não romantiza a velhice, mas a honra. E isso faz toda a diferença. Ela é vista como bênção. Veja o que diz o texto bíblico: “Coroa de honra são as cãs, quando se acham no caminho da justiça” (Pv 16.31).
As pessoas de maior idade são fontes de sabedoria. Lutemos por elas!

Orcélio Amâncio é pastor, escritor e membro da Academia Evangélica de Letras.