Não basta se emocionar: é preciso socorrer quem salva os animais

Sem apoio público, protetores independentes carregam sozinhos um problema que é de toda a sociedade

Deusanete Rosa de Almeida comemora a adoção da frágil Teka, nome esscolhido por quem adotou lá mesmo.

 

Todo mundo se comove diante de um cachorro abandonado ou de um gato ferido. Nas redes sociais, sobram curtidas, comentários indignados e promessas de ajuda. Mas, quando chega a hora de assumir responsabilidade, poucos aparecem.

No Distrito Federal, essa conta tem recaído há mais de 20 anos sobre os ombros de pessoas como Deusanete Rosa de Almeida. viúva, professora aposentada, voluntária, moradora de Planaltina, ela transformou a própria vida em uma trincheira de proteção animal. Hoje, cuida de dezenas de cães e gatos resgatados, entre a própria casa e um abrigo próximo de São Sebastião.

Enquanto muitos desistem, ela continua. Enquanto muitos abandonam, ela recolhe. Enquanto alguns levam um filhote para casa por impulso e depois devolvem, ela permanece com o peso da frustração, da despesa e do sofrimento do animal.

O abandono continua depois da adoção

Uma das revelações mais duras feitas por Deusanete é a quantidade de animais devolvidos após a adoção. Gente que leva um cachorro ou um gato para casa como quem compra um objeto. Quando o animal cresce, adoece, late, mia ou exige cuidado, a resposta é simples e cruel: devolve, ou simplesmente abandona na rua.

Há poucos dias, uma adoção feita por ela durou menos de uma semana.

É preciso dizer com todas as letras: quem adota e abandona comete um ato de crueldade. Quem deixa um animal na rua, quem o devolve sem motivo, quem o descarta porque ficou doente ou deixou de ser “bonitinho”, não pode ser tratado apenas como alguém irresponsável. Precisa responder por isso.

As leis brasileiras já preveem punição para maus-tratos e abandono. O problema é que, na prática, quase nada acontece. Falta fiscalização, falta denúncia, falta rigor. Enquanto isso, os protetores seguem recolhendo os animais que outros descartaram.

O preconceito contra os sem raça

A maioria dos animais acolhidos por cuidadores não tem raça definida. São justamente os que ficam esquecidos.

Quando aparece um cachorro de raça, logo surge interessado. Já os vira-latas, que representam a maior parte dos abandonados, seguem esperando. É uma realidade que expõe um preconceito silencioso: muita gente quer status, não companhia; quer aparência, não compromisso.

Mas os animais sem raça definida sentem dor, medo e afeto da mesma forma. Também precisam de cuidado, de casa, de carinho. O valor de uma vida não pode ser medido por pedigree.

Quem salva paga a conta sozinho

A história de Deusanete também revela outra face do problema: a omissão do poder público.

Ela afirma que, em 20 anos de proteção, nunca conseguiu ajuda efetiva do governo. Nem ração. Nem castração. Nem assistência veterinária. Tudo depende de vaquinhas, doações, favores e da solidariedade de algumas empresas.

Cada animal custa cerca de R$ 200 por mês. Quando há cirurgia, como no caso recente de uma gata com o fêmur fraturado, a despesa dispara. Ainda assim, ela continua.

Continua mesmo sem conseguir visitar a sogra, em Maceió, prestes a completar 100 anos, porque o dinheiro fica para os animais.

Continua mesmo voltando das feiras de adoção, muitas vezes, com todos os cães e gatos de volta.

Continua mesmo sem ter garantia de que, no mês seguinte, haverá ração suficiente.

Uma causa que precisa entrar no orçamento

Não é possível continuar tratando a proteção animal como se fosse responsabilidade exclusiva de voluntários.

A causa animal precisa sair da invisibilidade e entrar no orçamento público. É preciso ampliar programas de castração, criar rede de atendimento veterinário, garantir apoio a protetores independentes e abrigos, estimular campanhas permanentes de adoção responsável e destinar recursos reais para quem já faz esse trabalho.

Deputados distritais, parlamentares federais, governos e empresas não podem continuar fingindo que esse problema não existe.

Toda cidade tem pessoas como Deusanete. Pessoas que recolhem os animais que a sociedade abandonou. Pessoas que fazem, sozinhas, o trabalho que deveria ser dividido entre todos.

A forma como tratamos os animais revela quem somos

Uma sociedade que abandona seus animais revela uma parte triste de si mesma. Mas uma sociedade que abandona também aqueles que tentam salvá-los revela algo ainda pior: a incapacidade de reconhecer o valor da solidariedade.

Deusanete não precisa de homenagem. Precisa de ajuda.

E os animais também.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa