“Fraudes Piedosas”: Nada Novo Debaixo do Sol (Elias Brito Júnior)

Elias Brito Júnior/Divulgação

A prática das chamadas “fraudes piedosas” (pia fraus, em latim), também denominadas “enganos piedosos”, consiste no uso de artifícios para despertar sentimentos que confirmem princípios, valores ou doutrinas. Essa prática se manifesta nos campos religioso, político, científico (especialmente na medicina) e comercial, além de várias outras áreas da atuação humana.
De forma simplista, poderíamos reduzir essa prática a uma “mentirinha branca”. A justificativa para tal atitude baseia-se na ética utilitarista de que “os fins justificam os meios”. Crê-se que romantizar personagens, ou exagerar eventos, relíquias e textos, seja válido se servir para converter pessoas, proteger instituições ou fortalecer o engajamento dos fiéis. Busca-se criar uma ilusão com objetivos socialmente aceitos, uma pequena falsidade dita com a intenção de poupar sentimentos, evitar conflitos ou manter a harmonia social.
Na esfera religiosa, as fraudes piedosas existem desde as primeiras eras do Cristianismo. Na Idade Média, surgiu uma infinidade de relíquias falsas: pedaços da cruz de Cristo, vestes de personagens bíblicos e até ampolas com sangue e lágrimas de santos. No século XVI, o reformador João Calvino ironizou essa prática, dizendo que, se todos os pedaços da cruz espalhados pelo mundo fossem reunidos, seria possível encher um navio inteiro.
Há também a proliferação de textos apócrifos ou de lendas sem respaldo na história bíblica. Apesar da “boa intenção” de inspirar a devoção e consolidar dogmas, não há como confirmar a canonicidade desse material. Afinal, como diz o ditado popular: “de boas intenções o inferno está cheio”.
O teólogo alemão Rudolf Bultmann (1884–1976) argumentava que esses relatos mitológicos não eram inventados deliberadamente por interesses escusos. Para ele, a comunidade cristã primitiva expressava sua fé por meio de mitos e linguagem poética — elementos que ele buscou “desmitologizar” em seus escritos. Diferente de uma fraude voluntária, o mito, na visão de Bultmann, era uma tentativa legítima da igreja primitiva de dar sentido à revelação de Deus em Cristo. Era a linguagem da época, não uma mentira intencional.
Contudo, sejam tais práticas fantasiosas, míticas ou fraudulentas, elas não fazem diferença para quem verdadeiramente busca o Cristo Ressurreto. O verdadeiro cristianismo não se limita a coisas feitas por mãos humanas. Essa necessidade do “concreto” é uma fragilidade do ser humano. Os indivíduos muitas vezes precisam tocar para crer, a exemplo de Tomé, que quis verificar com os próprios dedos a perfuração dos cravos nas mãos de Jesus.
O Cristianismo, fundamentalmente, é uma experiência rica em espiritualidade, mas despojada de “concretudes” físicas. Ele estimula a relação direta entre o divino e o humano, sem a necessidade de totens ou intermediários litúrgicos. O indivíduo pode se relacionar pessoalmente com o Transcendente.
Essa “carência” visual ou tátil talvez explique certos rituais da cristandade que não encontram respaldo bíblico. Jesus nos deixou apenas duas ordenanças práticas: o batismo nas águas (rito de iniciação) e a Santa Ceia do Senhor – Eucaristia (rito de confirmação). A falta de uma liturgia visual densa explica a tendência de alguns cristãos em resgatar ritos e festas do Antigo Testamento, introduzindo práticas judaizantes nos cultos contemporâneos.
Essa antiga prática de criar narrativas simbólicas para explicar fenômenos naturais ou dilemas existenciais não ficou presa aos livros de História. Ela continua viva, ativa e agora travestida com os recursos da tecnologia digital.
O que são as modernas fake news ou as engrenagens da pós-verdade, produzidas aos borbotões na internet, senão as velhas fraudes piedosas repaginadas? Com o advento da inteligência artificial — que gera imagens, clonagem de voz e vídeos hiper-realistas —, velhas mentiras são ressuscitadas e aperfeiçoadas. É fácil criar “falsas verdades” para reforçar dogmas políticos ou religiosos, buscando o controle institucional e blindando os fiéis e militantes contra ameaças externas, o que infla o sentimento de pertencimento ao grupo.
Em episódios recentes, especialmente na esfera partidária, vemos esse mecanismo ser usado largamente. Tendemos a achar que os problemas do presente são inéditos. Falamos de manipulação das massas, mercantilização da fé e polarização como se fossem exclusividades do século XXI.
Há quem pense que a sociedade está pior do que nunca. Mas a inovação, muitas vezes, é apenas uma “novidade antiga” com roupagem tecnológica ou ideológica. A natureza humana e suas estruturas básicas continuam as mesmas desde a Criação. O sábio Rei Salomão já nos alertava sobre isso há três mil anos: “O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.” (Eclesiastes 1:9, NVI).
Para o cristão comprometido em viver e proclamar a verdade de Deus, é indispensável buscar sabedoria e discernimento. Precisamos distinguir o que vem do Alto daquilo que chega embalado como “engano santo”, mas que não procede do Divino. O apóstolo João, em sua primeira carta, alertou a Igreja Primitiva sobre a necessidade de examinar a origem das mensagens:
“Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (1 João 4:1, NVI).

Elias Brito Junior é mestre em teologia – Concentração em Igreja e Sociedade.