Escolher entre o simbólico e o diabólico (Peniel Pacheco)

Peniel Pacheco/Divulgação

Para quem aprecia a origem das palavras, um exercício fascinante é investigar a etimologia das expressões que usamos todos os dias. Movido por essa curiosidade, adquiri há muitos anos o Novo Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, editado em 1957 na cidade do Porto, em Portugal.

Sabe-se que grande parte do vocabulário do português deriva do grego e, sobretudo, do latim. Chama a atenção a engenhosidade com que gregos e romanos combinavam duas ou mais palavras para compor um novo termo, com sentido mais preciso. Foi nessa trilha que me propus a destrinchar duas expressões carregadas de significado, especialmente para quem professa a fé cristã: símbolo e diabólico.
O que une
A primeira é “SÍMBOLO”. Vem do grego “symballein”, formado por “SYN” – “com”, “junto”, como em sinergia, sinônimo, síntese – + “BALLEIN” – “lançar”, “jogar”, “colocar em movimento”, como em bola, bala, embalo. O sentido literal é “lançar junto”, “fazer coincidir”.
Símbolo, portanto, é o que une. É um sinal convencionado pelo qual as pessoas se reconhecem, a junção de elementos comuns que evocam memória, dão sentido e despertam pertencimento. O exemplo mais universal é a aliança no dedo anelar esquerdo: um círculo de metal que vai  além do valor em si, pois simboliza um pacto, uma história compartilhada, a união entre duas pessoas.
Ampliando o conceito, toda cultura vive de símbolos. A bandeira une uma nação, o hino une um povo, o abraço une amigos. O simbólico, por natureza, é agregador. Ele aproxima, reconcilia, constrói pontes.
O que separa
A segunda expressão é justamente o oposto etimológico: “DIABOLOS”, que deu origem à palavra diabo. Se “symballein” é “jogar junto”, “diaballein” é “jogar contra”, “separar”. É formada por “DIA” – prefixo que exprime separação, divisão, oposição, “um contra o outro” – + “BALLEIN” – “lançar”, “atirar”.
Se símbolo é o que une, diabólico é o que divide. Daí o sentido literal de Diabo no Novo Testamento: “ho diabolos”, “o separador”, “o que lança um contra o outro”, “o acusador”, “o caluniador”.
O Direito preservou essa acepção com precisão. A chamada “prova diabólica” é aquela em que se exige de alguém a comprovação de um fato impossível ou excessivamente oneroso – uma exigência feita justamente para separar, para inviabilizar, para acusar sem dar chance de defesa.
Enquanto o simbólico gera concórdia, o diabólico gera discórdia. Enquanto um aproxima, o outro isola.
Quando o simbólico vira pretexto para o diabólico
À primeira vista, a distinção parece simples. Na prática, a história mostra o contrário: são inúmeros os casos de condutas diabólicas cometidas em nome do simbólico.
Hitler invocou a união do povo alemão – um símbolo poderoso – para deflagrar a Segunda Guerra Mundial e promover o extermínio. A Ku Klux Klan usou a cruz, símbolo máximo do cristianismo, para justificar o linchamento de afrodescendentes nos Estados Unidos. A defesa da paz, símbolo universal, já foi usada incontáveis vezes para legitimar a corrida armamentista e intervenções militares.
O mesmo mecanismo se repete em escala menor. A Bíblia, lida fora do contexto, foi e continua sendo usada para fundamentar discriminação e preconceito. O falso discurso do “amor incondicional” tem servido para acobertar violência doméstica e feminicídio. As liberdades de expressão e de escolha – pilares simbólicos da democracia – vêm sendo apropriadas para legitimar tanto a libertinagem quanto o discurso de ódio contra pessoas e instituições.
O padrão é sempre o mesmo: toda vez que alguém se arroga o direito de definir, segundo sua própria conveniência, o que é certo e o que é errado para si e para os outros, e usa um símbolo nobre como escudo, há uma ação diabólica em curso. Ainda que revestida de premissas morais, ideológicas, filosóficas ou religiosas.
O símbolo maior
Se há um símbolo maior de reconciliação entre o céu e a terra, é a figura do próprio Cristo. Sua trajetória é marcada por gestos simbólicos que apontam para a união.
No nascimento, a estrela de Belém simboliza a presença divina entre os homens. No batismo, a pomba simboliza a restauração da paz entre o Criador e a criatura. No partir do pão e no repartir do cálice, vemos o símbolo da unidade do corpo e da comunhão com o Mestre. Na cruz, símbolo do suplício romano transformado em sinal de entrega, está a representação máxima do perdão: um inocente no lugar dos culpados. E no céu, destino final, reside o símbolo cotidiano da esperança que se renova.
Cristo, o Reconciliador, faz exatamente o inverso do Separador. Enquanto o diabólico constrói muros, cria abismos, abre fendas e semeia intriga; o simbólico derruba muralhas, constrói pontes, cimenta rachaduras e abre caminho para a concórdia. É a lógica da Nova Aliança.
Não por acaso, a síntese desse projeto está nas Bem-aventuranças:
“Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus; bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus” (Mateus 5:9-12).
No fim, a escolha etimológica é também uma escolha existencial: de que lado da história queremos estar? Se a vida nos convida a decidir, todos os dias, entre separar e unir, que valha a pena viver, em sua forma mais pura e plena, a vocação do simbólico, como contraponto radical a tudo o que é diabólico.
Peniel Pacheco é professor de Teologia, especialista em Docência no Ensino Superior e Mestre em Ciência da Educação.