Entre o discurso do livre comércio e o velho protecionismo europeu

Carne exportação

Enquanto o Mercosul ainda comemora o acordo comercial firmado com a União Europeia, a decisão europeia de excluir o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e animais ao bloco expõe uma contradição difícil de ignorar. O mesmo continente que defende abertura comercial, integração e cooperação internacional volta a erguer barreiras sanitárias que, na prática, funcionam também como instrumentos de proteção econômica.

A justificativa oficial da União Europeia é técnica: o Brasil não teria apresentado garantias suficientes sobre o controle do uso de antimicrobianos na pecuária. O argumento se apoia na política europeia de combate à resistência bacteriana e no rigor sanitário adotado pelos países do bloco. No papel, a medida parece legítima. Na prática, porém, ocorre justamente no momento em que agricultores europeus, especialmente franceses, intensificam pressões políticas contra o acordo Mercosul-União Europeia.

O recado é claro: a Europa continua abrindo mercado apenas até o ponto em que seus interesses internos não sejam ameaçados.

A decisão tem forte impacto econômico e político. A União Europeia é hoje um dos principais destinos da carne brasileira, ficando atrás apenas da China em diversos segmentos. A exclusão do Brasil da lista sanitária atinge diretamente exportadores, frigoríficos e toda a cadeia do agronegócio do Mercosul, justamente quando o bloco sul-americano buscava transformar o acordo em símbolo de retomada comercial e fortalecimento geopolítico.

O episódio também revela um problema histórico enfrentado pelo Mercosul: a excessiva dependência da boa vontade europeia. Há décadas, o bloco negocia concessões, adapta regras e aceita exigências ambientais e sanitárias cada vez mais rígidas, enquanto a Europa mantém mecanismos sofisticados de defesa de seus produtores locais.

Não se trata apenas de saúde animal. Há forte componente econômico e político. O produtor europeu teme competir com um agronegócio mais eficiente, mais barato e altamente competitivo como o brasileiro. E, diante disso, questões ambientais, sanitárias ou regulatórias acabam servindo como barreiras indiretas de mercado.

O impacto político dentro do Mercosul também tende a crescer. A medida reforça críticas de setores que já consideravam o acordo desequilibrado e excessivamente favorável aos europeus. Afinal, enquanto os países sul-americanos abrem espaço para produtos industrializados europeus, continuam enfrentando obstáculos quando tentam ampliar exportações justamente em sua área mais competitiva: o agro.

O silêncio inicial do Ministério da Agricultura também aumenta a pressão interna. O setor produtivo cobra reação rápida e firme do governo brasileiro, tanto na área diplomática quanto técnica. Afinal, se o acordo comercial começou sob o signo da comemoração, a decisão europeia mostra que a disputa real apenas começou.

No fundo, a mensagem enviada por Bruxelas é dura: o livre comércio europeu continua tendo fronteiras muito bem definidas quando os interesses econômicos internos entram em jogo.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa