
As dúvidas de um eleitor brasileiro diante da urna
Prof. Jacildo Duarte
Há decisões que exigem coragem. Comprar um carro usado, por exemplo. Aceitar uma ligação de número desconhecido. Pedir a um grupo de brasileiros que escolha o restaurante sem levar meia hora. Em ano eleitoral, acrescenta-se outra à lista: decidir em quem votar.
À primeira vista, a tarefa não deveria ser tão complicada. Os candidatos apresentam suas propostas, o eleitor compara as opções e escolhe aquela que lhe parece melhor. O problema é que a eleição real não se parece com essa descrição organizada. Antes que o cidadão termine de ler um programa de governo, já recebeu três vídeos, duas denúncias, quatro desmentidos e a mensagem de um primo que conhece “uma pessoa de dentro”. Se a informação fosse distribuída por peso, precisaríamos de uma balança ao lado da urna.
Seria fácil atribuir a indecisão à falta de interesse do eleitor. Em muitos casos, porém, ela nasce justamente da atenção que ele dedica à escolha. Quem examina propostas descobre que elas nem sempre explicam de onde virão os recursos, quanto tempo levarão para produzir resultados ou se pertencem às atribuições do cargo disputado. É compreensível gostar de um candidato que promete resolver o trânsito, a saúde, o preço dos alimentos e a solidão dos domingos. Difícil é entender como fará tudo isso, sobretudo quando concorre a uma função que não lhe confere metade desses poderes.
Prometer, afinal, é uma das atividades mais praticadas durante a campanha. Executar exige orçamento, negociação, competência e contato frequente com a realidade, essa adversária pouco fotogênica. Por isso, uma proposta merece ser examinada além de sua aparência. Que problema pretende enfrentar? Por qual meio? Qual será o custo? A quem caberá realizá-la? Perguntas assim talvez não rendam um refrão de campanha, mas ajudam bastante o eleitor.
A trajetória do candidato também importa. Todos podem mudar de opinião, corrigir erros e aprender com a experiência. Convém, contudo, observar se há alguma relação entre o que a pessoa diz hoje e o que fez quando teve oportunidade de agir. Durante a campanha, quase todo mundo defende diálogo, transparência e respeito. São palavras excelentes. Ficam ainda melhores quando sobrevivem ao dia da posse.
Outro desafio é o ambiente em que discutimos política. As redes sociais permitem acesso rápido a documentos, entrevistas e diferentes pontos de vista. Permitem, com a mesma rapidez, que uma frase retirada de seu contexto faça uma viagem pelo país antes que alguém procure saber onde ela foi dita. O vídeo curto pode despertar uma dúvida legítima; raramente oferece, sozinho, elementos suficientes para encerrá-la. Desconfiar de uma mensagem não exige diploma nem filiação partidária. Às vezes, basta reparar que ela começa com “a imprensa jamais mostrará isto” e termina pedindo que seja enviada a todos os contatos até as onze da noite.
Verificar informações dá trabalho. É preciso procurar a fonte, conferir a data, ler além do título e resistir à vontade de acreditar imediatamente em algo só porque confirma nossa opinião. Essa última parte costuma ser a mais difícil. Gostamos de pensar que analisamos os fatos com serenidade, mas temos uma curiosa facilidade para detectar exageros na campanha alheia e chamar os exageros do nosso candidato de “modo de falar”.
Talvez o eleitor devesse desconfiar um pouco mais de si mesmo. Não para paralisar sua escolha, mas para submetê-la ao mesmo cuidado que exige dos outros. Se uma acusação contra o candidato que apoiamos merece investigação, uma acusação contra seu adversário também merece. Se uma promessa parece irreal quando vem de um lado, não se torna viável por ter sido impressa nas cores do outro. A coerência perde seu encanto quando precisa ser aplicada a quem preferimos, mas é justamente aí que demonstra seu valor.
Isso não significa tratar todas as candidaturas como iguais nem renunciar às próprias convicções. Valores, prioridades e experiências pessoais orientam legitimamente o voto. Uma pessoa pode dar maior peso à educação; outra, à saúde, à segurança ou à administração dos recursos públicos. O essencial é saber por que determinada proposta nos convence e estar disposto a examiná-la com honestidade. Escolher exige critérios. Repetir a opinião de alguém que fala mais alto, não.
A conversa com quem pensa diferente pode ajudar, desde que ainda seja uma conversa. Há discussões políticas que começam com uma pergunta e, dois minutos depois, já convocaram a história nacional, a honra da família e um vídeo cuja origem ninguém conhece. Nesses momentos, talvez seja prudente baixar o tom antes que alguém precise escolher entre defender seu argumento e ser convidado para o próximo almoço de domingo.
O respeito não obriga ninguém a fingir concordância. Podemos contestar uma proposta com firmeza, apontar contradições e defender nossas posições sem concluir que toda pessoa de opinião diferente é desonesta ou incapaz de pensar. Ouvir um argumento não compromete o voto. Pode até melhorar as razões pelas quais o decidimos manter.
E se, depois de tudo isso, restar alguma dúvida? Restará, provavelmente. Votar é escolher entre possibilidades concretas, com informações sempre incompletas e consequências que ninguém controla por inteiro. A maturidade política não consiste em alcançar uma certeza teatral. Consiste em buscar informações confiáveis, pesar o que sabemos e assumir a responsabilidade pela decisão. A dúvida bem examinada pode ser mais útil do que a convicção adquirida em trinta segundos.
O trabalho do eleitor continua quando termina a apuração. Quem vence precisa ser acompanhado, cobrado e avaliado. Isso vale também para o candidato em quem votamos. Aliás, vale especialmente para ele: a fiscalização fica fácil quando o eleito era o preferido do vizinho.
Hoje, diante da urna, cada cidadão dará uma resposta particular à pergunta do título. Não espero que todos cheguem à mesma conclusão. Espero que cheguem por um caminho que consigam explicar, sem depender de boatos, promessas impossíveis ou fidelidade cega. Depois, será preciso guardar a disposição de prestar atenção ao que os eleitos de fato fizerem.
Quanto ao número do candidato, vale anotá-lo antes de sair de casa. Após tanta reflexão, seria uma pena descobrir, diante do teclado, que a única informação cuidadosamente esquecida foi justamente aquela de que precisávamos.
Jacildo da Silva Duarte é pedagogo, professor, psicopedagogo, mestre em educação e doutor em ciências sociais.