
Chove forte. José Antônio pula poças d´ água do chão batido da rua da escola. No pátio, recolhe o guarda-chuva. Organiza o material escolar na carteira. A direção pedagógica orientou professores e alunos a discutirem a censura nas músicas. O professor pergunta:
— José Antônio, crente pode ouvir rock’n’roll?
— Esse é o tema da aula?
— A sua Bíblia diz que “todas as coisas são lícitas, mas nem tudo convém.” Um texto que não decide nada…
— Mas exige avaliação de quem o lê. Vou colocar os sapatos lá fora. Estão cheios de lama.
— Pode ir. Eu espero você voltar. Cinco minutos de leitura silenciosa, pessoal!
Na igreja José Antônio é cercado de amigos. Diferente dos colegas da escola, que o ignoram. Mas isso não altera a admiração que os alunos e professores têm pela sua inteligência.
— Professor, respondendo sua pergunta, determinados textos da Bíblia são como princípios ou bases aplicáveis a diversas épocas ou contextos. Os mesmos textos bíblicos, ampla aplicação. Aprendi isso com o pastor Claudinho, na Escola Dominical de minha igreja.
— Prosseguindo a aula… Com a guerra no Vietnã, a força do rock é usada para criticar a guerra. A banda brasileira, Os Incríveis, cantava: Era um garoto que como eu… Rá tá tá tá… (risos na sala)
Ao lado de José Antônio um aluno levanta a mão, pedindo a palavra:
— As bandas de rock dizem palavrões nas músicas. Isso não é protesto; é baixaria.
— O palavrão tem um sentido social: indignação, protesto, desabafo…
José Antônio discorda do professor que não interrompe o comentário:
— A voz gutural, agilidade ao dedilhar as cordas das guitarras e a enlouquecida bateria… Isto é rock’n’roll, pessoal!
— Toca Raul!!! –, pediu um aluno no fundo da sala.
O professor bebe um gole d´água.
— Nos meados dos anos 70, o festival de Woodstock impactou a juventude norte americana. Surgem Joe Cocker, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, dentre outros.
— Professor e a música brasileira?
— Ei, José Antônio! Pergunta para o professor o que ele acha das drogas consumidas em Woodstock.
— Pergunta você. Eu já sei a resposta dele.
— Professor, vai bater o sinal e você não falou nada da música brasileira.
— No Brasil…
— Êêêê… Ebaaaa!…
— Agora, sim!
— No Brasil, enquanto os militares invadem universidades, a Record cede espaço para os memoráveis festivais. A música revela talentos paulistas, capixabas e nordestinos; surge o rock brasileiro. Acordes simples e letras leves como o banho de lua na voz de Celly Campello ou o jeito espalhafatoso de Jair Rodrigues enriquecem o cenário musical brasileiro. Rita Lee canta nos Mutantes; Elis Regina, MPB 4, João Gilberto e Roberto Carlos desfilam seus talentos. Os gênios aguardam a vez na coxia do teatro: Chico, Gil, Caetano, Tom Zé, João Bosco…
— A minha vó não perdia as novelas do rádio.
— As novelas no Rádio se distanciavam do público. Porém, as músicas cresciam nas preferências. Raul Seixas, o Maluco Beleza, empresta a voz para os poemas do amigo Paulo Coelho, um “bruxo” sem chapéu cônico, que escreve poemas enigmáticos. Em 1973 foi lançada a música “Mosca na Sopa”, uma crítica à censura.
— Professor, vamos discutir o tema ainda hoje? Acho que não vai dar tempo.
O professor ajeita os óculos e ignora a pressa do aluno.
— O Brasil aguarda o fim do regime autoritário para respirar novos ares da democracia. A tesoura dos militares fez calar expressivas manifestações culturais.
— Professor!
— Sim, pode falar José Antônio.
— Você já ouviu o Grupo Logos? Katsbarneia? Banda Ruptura? Rebanhão? Janires? Vencedores por Cristo?
— Sim… (O professor recoloca os óculos.) O nosso tempo está quase terminando. Antes do sinal, distribuo a minha conclusão. As músicas que exerceram um papel de influência e luta social, hoje não são lembradas. Mas o Brasil alcançou parcialmente o seu objetivo. Vandré cantou: Caminhando e cantando, seguindo a canção… Somos todos iguais, braços dados ou não. Vem, vamos embora que esperar não é saber…. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. E o grito nas ruas? Diretas já! Essa frase ecoou como protesto e indignação. O desejo da liberdade. A censura na cultura brasileira ensinou que, a nação perde quando se vê impedida no acesso à liberdade política, econômica e religiosa.
O sinal da escola toca encerrando a aula. José Antônio é o último a recolher o material escolar da carteira. O professor, por alguns segundos, tem a nítida impressão de que José Antônio tinha muito mais a dizer.
— José Antônio!
— Sim, professor!
— A liberdade é um direito sagrado do cidadão assim como a religião é um direito sagrado da sua escolha. Se a sua fé é a verdade ou não, isso é um mero conceito particular. Argumentos cabem dentro das escolhas. O que prevalece é a liberdade no exercício das escolhas. Siga a sua fé, é o seu direito. E eu sigo o meu ateísmo.
Jose Antônio agradece o professor que insiste na pergunta:
— Quem é Jesus para você?
— Professor… Ele é um amigo, um grande amigo.
— Só isso?
— Ele é suficiente; não preciso de mais nada.
No dia seguinte José Antônio entra na sala de aula com um adesivo colado no peito: “Ele é suficiente”.
— José Antônio, pode explicar esse adesivo?
— O pão de cada dia eu ganho com o meu trabalho. O destino da minha alma pertence a Ele. Ele sabe o que faz. Ele é suficiente.
Toda a sala aplaude. E a coordenação pede que o adesivo seja retirado da camiseta da escola.
JUDSON SANTOS, professor, teólogo, escritor Membro da Academia Evangélica de Letras do DF — AELDF.