Companheiro de Jugo (Josué Silva)

Josué Silva/Divulgação

A palavra jugo tem suas raízes na língua latina e deriva do termo “jugum”. Tem dois sentidos, como outras muitas palavras: o denotativo (real) – “jugo”, “canga” – e o conotativo (figurado) – “fardo”, “carga”.

No primeiro sentido, é usada na agricultura, pois é um instrumento utilizado para unir dois animais de carga permitindo que trabalhem em conjunto para puxar arados distribuindo o peso entre eles de forma que realizem um esforço conjunto sem que um trabalhe ou se esforce mais que o outro. Aqui é o aspecto do trabalho, dos afazeres, das obrigações diárias. Seu uso no sentido conotativo se estende praticamente por todas as áreas da existência humana – religiosa, filosófica, cultural, artística, literária, política, doméstica, profissional, financeira, social etc. Aqui é o aspecto emocional, as pressões, o estresse do dia a dia. Vamos, aqui, usá-la nos dois sentidos.

Todos sabemos que o ser humano é um ser gregário e, por isso, dialógico. Isso faz com que ele precise se relacionar com outras pessoas, ter contato, dialogar, falar com alguém, passar e receber conhecimento, comunicar suas emoções, dividir-se, mostrar-se, revelar-se.

É claro que nem todos são tão gregários. Uns mais que outros – ou menos –, mas o importante é que não é bom se estar só. “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2.18) é a inconteste afirmação divina sobre esse assunto. Ficar só, de vez em quando, por desejo próprio, é bom. O tempo todo ou porque não tem opção não é bom.

Hoje, por causa da facilidade da comunicação virtual, os contatos pessoais estão cada vez menos realizados, desejados e até possíveis. Antes eram só chamadas telefônicas. Hoje, poucas chamadas são feitas. São mais contatos via mensagens de texto e áudio, mas, se quisermos, temos a opção da vídeo chamada.

A mensagem de texto é fria. É uma comunicação de mão única. A mensagem de áudio é quente, pois podemos sentir a emoção na voz do emissor. A mensagem por vídeo chamada é a ideal. Nela, temos vida, calor, pois vemos quem está falando e percebemos o que ela está sentindo pelo que vemos na expressão de seu rosto. Infelizmente ela não pode se dar em todos os lugares e a qualquer hora.

Precisamos, às vezes, de que alguém nos escute, de que alguém nos dê atenção, de que nos empreste o ouvido, o rosto, as emoções. Às vezes, precisamos de um afeto, de um abraço, de um carinho. Quando isso acontece, o telefone, por mais moderno que seja, não pode nos favorecer. É claro que a inteligência artificial está aí para suprir muitas coisas e, acredito, logo suprirá essa também, entretanto, o detalhe é que é artificial. Não é real. Nesses momentos, lembramo-nos de que somos gregários, do contato, do toque. Do real.

Precisamos de companheiros de jugo. Várias vezes carecemos de alguém que coloque o pescoço ao lado do nosso na canga e nos ajude a arar a terra dos nossos muitos afazeres domésticos, das nossas intermináveis obrigações diárias, pois nos vemos trabalhando a terra cheia de espinhos e pedras sozinhos.

Precisamos de companheiros de jugo para que nos ajudem a carregar nossos fardos emocionais. São cargas relacionadas ao nosso passado, ao nosso presente e que nos tornam inseguros quanto ao futuro.

É aqui que entra o nosso real (não virtual), real (não imaginário), real (não de mentira) companheiro de jugo. Sua ordem é que tomemos o seu jugo, que é suave, e o seu fardo, que é leve (Mateus 11.28-30). Aqui temos o jugo nas suas duas acepções de sentido: Ele coloca o pescoço ao lado do nosso na canga para juntos fazermos o trabalho do dia a dia e nos ajuda a carregar o fardo emocional.

Quanto ao trabalho, Ele sempre faz a parte que cabe a Ele e nos ajuda a fazermos a que cabe a nós. Ele não faz a nossa parte. Nem adianta pedir que Ele faça a nossa parte. A nossa parte é nossa e pronto. O importante é termos consciência de que não estamos sós na rotina da vida, na rotina de viver, que não é fácil. Ele está conosco. Na mesma canga, sob o mesmo jugo para juntos fazermos o que temos que fazer.

Com Ele, viver não será um sofrimento. Será uma viagem com momentos bons e ruins, mas uma viagem ao encontro do Criador.
Quanto às questões emocionais, Ele é nosso companheiro de jugo quando passamos por pressões, estresse, desespero, aflição, depressão, angústia, agonia, medo, fobia, pânico etc. Nesses momentos, Ele não apenas estará conosco, mas pode, também, nos livrar desses fardos seja por uma intervenção direta de sua graça infinita ou usando alguém ou alguma coisa para nos dar alívio ou solução.

Termos a Ele como nosso companheiro de jugo não nos garante vida fácil e tranquila. Sabemos que não são só flores. Entretanto, o que importa é que não estamos sós. O que importa é que temos um verdadeiro companheiro de jugo que jamais nos deixará sós visto que Ele sabe que, sem Ele, não conseguiremos fazer o que cabe a nós fazermos (e aí sucumbiremos sob o jugo dos afazeres) e que, sem Ele, não conseguiremos nos libertar de nossos fardos existências (e aí sucumbiremos sob o jugo emocional).

Esse companheiro de jugo, um dia, quando por aqui passava, na forma humana, precisou de companheiros de jugo. Ele disse que sua alma estava profundamente triste até à morte e pediu que seus discípulos orassem com ele, que lhe fizessem companhia (Mateus 26.36-46). Seus discípulos, infelizmente, não corresponderam com suas expectativas.

Nesse episódio em que Ele precisou de companheiros de jugo, dois aspectos relevantes devem ser destacados. O primeiro é que o jugo – trabalho sacrificial e fardo de dor e angústia – que Ele carregava não era dEle. Era nosso. O segundo é que, aqui, Ele já se apresentava como nosso maior companheiro de jugo.

Josué Silva é pastor, teólogo, professor de língua portuguesa, palestrante, conselheiro cristão, master terapeuta emocional da Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), escritor e membro da Academia Evangélica de Letras do Distrito Federal.