Cargas ao Mar (Peniel Pacheco)

Peniel Pacheco/Divulgação

Peço a compreensão das leitoras e leitores por iniciar esse artigo com a transcrição de um texto relativamente longo, extraído do livro do Profeta Jonas:

“Então, os marinheiros, cheios de medo, clamavam cada um ao seu deus e lançavam ao mar a carga que estava no navio, para o aliviarem do peso dela. Jonas, porém, havia descido ao porão e se deitado; e dormia profundamente.
Disseram-lhe: Que te faremos, para que o mar se nos acalme? Porque o mar se ia tornando cada vez mais tempestuoso.
Respondeu-lhes: Tomai-me e lançai-me ao mar, e o mar se aquietará, porque eu sei que, por minha causa, vos sobreveio esta grande tempestade.
Então, clamaram ao Senhor e disseram: Ah! Senhor! Rogamos-te que não pereçamos por causa da vida deste homem, e não faças cair sobre nós este sangue, quanto a nós, inocente; porque tu, Senhor, fizeste como te aprouve.
E levantaram a Jonas e o lançaram ao mar; e cessou o mar da sua fúria (Jonas 1).

Não é incomum, a nós seres humanos, passarmos por situações inesperadas e, não raro, ameaçadoras. Algumas vezes tais infortúnios são ocasionados por motivos alheios à nossa vontade, como foi o caso de toda a tripulação que estava naquela embarcação juntamente com Jonas. O texto mostra que o desespero deles se tornou tão grande que recorreram a expedientes que pareciam ser os mais razoáveis em tais circunstâncias.
Primeiro, apelaram para a religiosidade: “Clamavam cada um ao seu deus…” Depois, tentaram aliviar a peso do navio lançando a carga ao mar. Como nada disso foi suficiente para retomarem o controle da embarcação, eles passaram a investigar de quem poderia ser a culpa pelo terrível vendaval.
Muitas vezes, diante de desafios inesperados que se abatem sobre nossos ambientes, procuramos encontrar soluções baseadas em superstições ou nos procedimentos considerados recorrentes pela maioria das pessoas. Entretanto, há casos em que os reais motivos de grandes tempestade emocionais, não são de natureza externa, mas provocadas por escolhas erradas que nós mesmos fazemos. Foi exatamente o que aconteceu com o profeta Jonas, conforme ele mesmo admitiu: “Tomai-me e lançai-me ao mar, e o mar se aquietará, porque eu sei que, por minha causa, vos sobreveio esta grande tempestade”.
Não é fácil reconhecer nossas responsabilidades sobre eventuais danos causados nas vidas das pessoas que nos cercam. Às vezes parece mais cômodo “descer ao porão” para dormir, fingindo que os desastres e catástrofes não têm nada a ver a com a gente, como fez o profeta.
Contudo, devemos considerar o fato de que manter uma pesada carga emocional sobre os outros pode gerar muitos transtornos e provocar tamanho desespero – nas pessoas com as quais nos relacionamos – que, na ânsia de aliviar as tensões, tais pessoas se vêm na contingência de “lançar fora” muitas coisas realmente significativas e preciosas, na tentativa de aliviar a pressão sobre suas almas. Quantos amores desfeitos em meio ao desespero? Quantos bens materiais e imateriais jogados fora nos momentos de medo, angústia e ansiedade?
Pior do que causar tais transtornos é não ter a coragem de assumir a parte da responsabilidade que nos cabe e tomarmos o caminho de volta ao ponto de equilíbrio para o recomeço de uma viagem com destino certo e sem atropelos.
A melhor atitude é escolher bem onde se deseja chegar, ou seja, aquele percurso que nos levará diretamente ao centro do nosso propósito de vida, guiado pela boa mão divina visando nosso próprio bem e o bem daqueles que serão alcançados pelo nosso procedimento.
Mas, se porventura, algum dia tomamos o rumo errado, é preciso “saltar do barco” antes que o mesmo se afunde e todos pereçam.
Segundo o texto, Jonas é um símbolo do quanto nossa teimosia pode causar enormes transtornos para nós mesmos e para os que nos cercam. Por vezes, a melhor opção é sacrificar o ego inflado pela nossa própria intransigência: “E levantaram a Jonas e o lançaram ao mar; e cessou o mar da sua fúria”.
“Lançar ao mar” pode conter o sentido de descartar no “mar do esquecimento” todos aqueles sentimentos ou atitudes que nos fizeram desviar dos nobres propósitos estabelecidos, tal qual bússola, a orientar os nossos caminhos, como no dizer do apóstolo Pedro: “Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências” (1 Pd 2:1), pois – dizemos nós – um coração tomado por essa carga pesada é capaz de naufragar a qualquer momento. Afinal, para chegarmos intactos ao destino – como ocorreu depois com Jonas – temos de nos assegurar de que nossa consciência esteja absolutamente tranquila e nossa alma totalmente leve e livre de todo embaraço! Boa viagem!

Peniel Pacheco é professor de teologia, pastor e mestre em ciências da educação.