Agora com o Senado o final da escala 6×1

Paulo Pimenta, líder do Governo (Crédito: Bruno Spada/ Câmara dos Deputados)

A Câmara dos Deputados transformou o debate sobre o fim da escala 6×1 em uma das maiores batalhas políticas e sociais de 2026. Em dois turnos, os deputados aprovaram a proposta que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e garante dois dias de repouso remunerado. O texto agora segue para o Senado, carregando muito mais do que uma discussão trabalhista: virou disputa eleitoral, ideológica e econômica.

Transição gradual

A proposta prevê transição gradual. Dois meses após a promulgação, a jornada cairá para 42 horas. Depois de um período de adaptação de um ano, passa definitivamente para 40 horas semanais. A aprovação teve margem ampla: 472 votos favoráveis e 22 contra, no primeiro turno e 461 no segundo. Os números mostram que a pressão popular atravessou partidos e contaminou o ambiente político.

Reparação histórica

O líder do governo, Paulo Pimenta (PT/RS), tratou o tema como reparação histórica. Para ele, a escala 6×1 representa “a face mais cruel das relações de trabalho”, atingindo principalmente mulheres, mães e trabalhadores de baixa renda. Pimenta ainda resgatou embates históricos, comparando a resistência atual às críticas que existiram contra direitos como férias, 13º salário e a PEC das domésticas.

Pressão das ruas

Na mesma linha, Daiana Santos (PCdoB/RS) afirmou que o tema deixou de ser exclusividade da esquerda e amadureceu socialmente. A parlamentar relacionou a jornada extensa ao aumento de afastamentos físicos e psicológicos e sustentou que a pressão das ruas e das redes sociais acabou empurrando o Congresso para votar a matéria.

Vida além do trabalho

Já Bohn Gass (PT/RS) apostou no discurso histórico. Disse que o Congresso pode repetir um marco semelhante ao da Constituição de 1988. Para ele, reduzir a jornada significa “vida além do trabalho”, menos estresse, mais convivência familiar e até aumento de produtividade. O petista foi além e defendeu que, no futuro, o Brasil poderá discutir até mesmo o modelo 4×3.

Aventura eleitoral

A oposição reagiu com dureza. Bibo Nunes (PL/RS) chamou a proposta de “aventura eleitoral” e acusou o governo Lula de usar o tema politicamente em ano pré-eleitoral. Segundo ele, trabalhar menos e manter salários poderá gerar desemprego e pressionar empresas já fragilizadas.

Impactos sociais

A deputada Fernanda Melchionna (Psol/RS) acusou setores conservadores de tentarem atrasar uma pauta ligada aos interesses dos trabalhadores. Para ela, parte da direita insiste em austeridade econômica enquanto ignora os impactos sociais da atual jornada.

Riscos ao agronegócio

O deputado Sérgio Turra (PP/RS) alertou para riscos econômicos, especialmente no agronegócio e na cadeia avícola. Segundo ele, frigoríficos podem enfrentar dificuldades operacionais e sanitárias caso a adaptação seja feita sem planejamento técnico.

Respeito ao Trabalhador

Também cauteloso, Ubiratan Sanderson (PL/RS) defendeu respeito ao trabalhador, mas cobrou do governo medidas concretas para reduzir impactos no comércio e nas empresas. Sanderson defende transição gradual, desoneração da folha e maior participação do Executivo na adaptação da economia.

Tom histórico e trabalhista

Quem fez o discurso mais simbólico foi Pompeo de Mattos (PDT/RS). Em tom histórico e trabalhista, o parlamentar lembrou que quase todos os direitos trabalhistas enfrentaram resistência quando surgiram. Citou Getúlio Vargas, a licença-maternidade, as férias remuneradas e o 13º salário criado no governo João Goulart. Pompeo argumenta que a economia sempre absorveu essas mudanças e acredita que o mesmo ocorrerá agora. “Ninguém vai morrer por causa disso”, resumiu.

Jornada de Trabalho 5×2

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera inadequado e inoportuno o texto da PEC que reduz a jornada de trabalho, com reflexos na escala 6×1, aprovado nesta quarta-feira (27) pelo plenário da Câmara dos Deputados. A CNI defende que o tema seja analisado com equilíbrio, responsabilidade e base técnica, considerando os efeitos sobre trabalhadores, empresas, consumidores e a economia brasileira, e não sob pressão de um ano eleitoral.

Debate técnico e responsável

Para a instituição, mudanças dessa magnitude exigem debate amplo, técnico e responsável, com participação de trabalhadores, empregadores e poder público. Isso porque alterações dessa natureza podem gerar impactos relevantes sobre emprego, custos e a economia de maneira geral.

Tema na campanha de 2026

O Senado receberá um texto cercado de pressão social, resistência empresarial e disputa política. A votação mostrou que o tema ultrapassou sindicatos e partidos. Entrou definitivamente na campanha de 2026 e dificilmente sairá dela tão cedo.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

Edgar Lisboa