
“Por que me tornei um filósofo? Porque sou movido pelo espanto. A vida sem espanto é burocrática, e tudo que é burocrático compromete a beleza das coisas. E Dostoiévski dizia que a beleza salvará o mundo. Para mim, a filosofia é uma forma de confissão dessa beleza” (Luiz Felipe Pondé).
Pode relaxar, pois o tema desta reflexão não é sobre contos para assustar crianças. Estou escrevendo sobre algo que me preocupa há um bom tempo: a perda do encantamento pela vida. O que fazer para não entrar em pânico o tempo todo? Como lidar com a finitude que se repete continuamente em nossa breve existência? Por que valeria a pena viver uma vida que sequer parece exigir nossa atenção?
Quem perde o senso de reverência pela vida, perde a vida em grande parte. Se mantenho o sabor pela vida, é porque nunca perdi o espanto pela vida. Segundo Pondé: “E o espanto é o irmão gêmeo do encantamento”. Vivemos tempos de grande distração que nos conduz a um estado quase que contínuo de desatenção. O psicanalista Contardo Calligaris em seu livro “O Sentido da Vida” nos alerta: “Fruir da vida só é possível para quem não se distrai; para quem, ao contrário, mantém um esforço constante de atenção à vida. O esforço, obviamente, não garante que a vida nos reserve só coisas boas, mas a primeira coisa boa é a própria atenção às coisas da vida”.
A distração e a desatenção são perigosíssimas. Muitos suicidas morrem de tanto se distrair da vida. O suicídio torna-se até atraente numa vida desatenta. É como se o morrer fosse um ato aparentemente digno de nota. Nas palavras de Byung-Chul Han em seu livro “Falando Sobre Deus”: “Nossa atenção é absorvida pelo consumo de estímulos. Com isso, ela se torna plana, perde toda profundidade, todo ápice”.
O texto sagrado nos lembra: “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam” (Salmos 111.10) e no Livro de Provérbios encontramos outra bela afirmação: “No temor do SENHOR, tem o homem forte amparo, […]. O temor do SENHOR é fonte de vida para evitar os laços da morte” (Provérbios 14:26-27). O temor é um espanto santo que nos protege dos laços da morte, nos proporciona um estado de atenção (sabedoria) e um viver prudente. É uma reverência que nos livra de morrer antes da morte!
E a religião? Segundo Calligaris: “A ideia do ‘morrer bem’ (que retroativamente, honraria nossa vida inteira) é promovida por aqueles que acreditam numa transcendência e num sentido divino do mundo. Para eles, o que realmente importa é o que acontecerá na nossa morte e depois dela. Valorizar o morrer bem acima do viver se torna justamente um jeito de se distrair da vida, um jeito de viver desatento”. Seria o religioso, um obnubilado que espera um latifúndio na Lua?
De fato, existem razões estruturais para a crise da religião contemporânea, além do declínio da atenção, o fortalecimento maciço do “eu” torna-se um problema. Nas palavras de Chul Han: “Veneramos o culto do self, a liturgia do self, em que cada um é sacerdote de si mesmo […] Cada um se produz e se performa a si mesmo. O ‘eu’ ruidoso mantém Deus afastado de nós”. Por falar em espanto, quem se lembra do famoso Trem Fantasma?
Júnior Sipaúba é Professor, escritor, teólogo, psicanalista, matemático e mestre de Taekwondo.