Quem nunca se sentiu rejeitado em algum momento da vida?

A rejeição é uma das feridas emocionais mais comuns. Sentir-se enjeitado, jogado na lata de lixo da vida, é algo que machuca e deixa marcas. Essas, normalmente, perseguem-nos ao longo dos anos, condenando-nos a um estado permanente de medo, tristeza e revolta.
Rejeição ocorre quando nos sentimos não aceitos ou desvalorizados por outra pessoa ou grupo. Esse sentimento pode ser desencadeado por um comentário, uma crítica ou a sensação de não ser correspondido em suas expectativas. A rejeição, especialmente quando recorrente, pode ter um impacto duradouro em nossa autoestima. A rejeição ativa áreas do cérebro ligadas à dor física, o que explica por que essa experiência pode ser tão dolorosa e impactante para nossa saúde emocional.
A rejeição dói no fundo da alma, porque o desejo de ser aceito e incluído em grupos sociais ou o desejo de viver um relacionamento amoroso é importante para o indivíduo, pois são nessas relações que ocorrem diversas experiências e vivências para o amadurecimento humano, esclarece a psicóloga Patrícia Costa (2014). Também em alguns casos há uma excessiva importância dada à opinião e aos valores dos outros e a pessoa torna-se dependente de aprovações externas. Passam a agir de acordo com o que acreditam ser o desejo do outro, tendo a ilusão de que desta forma estarão seguras da solidão e de um possível abandono. Não é raro perceber que deixam de fazer coisas pelo medo de ser rejeitada, até por pessoas que não têm nenhuma ligação emocional.
Parte da nossa personalidade é formada a partir das feridas emocionais sofridas na infância. Por essa razão, a pessoa que sofre da ferida da rejeição se caracteriza por se desvalorizar e buscar a perfeição a todo custo. Esta situação vai levar a pessoa a uma busca constante de reconhecimento pelos outros, desejo que vai demorar a ser saciado. A rejeição é um sentimento antagônico ao amor, que, por sua vez, é a necessidade humana mais básica. No entanto, não há quem não tenha passado por alguma experiência de rejeição. Para determinadas pessoas, isso constitui-se em algo fortemente traumático. E passa a representar um problema sério para sua autoestima e seus relacionamentos. Contudo, ainda que uma pessoa tenha sido rejeitada por todos, o Senhor a valoriza e traça projetos para a sua vida.
A história bíblica de Jefté nos fala da rejeição. O seu nascimento não foi planejado pelos seus pais, mas apesar de sua história trágica, ele era um escolhido de Deus. Mesmo sendo um homem valoroso e guerreiro, foi vítima de preconceito por ser filho de uma prostituta. Sua cidade natal era Mispa, em Gileade, região que pertencia à tribo de Gade e era muito conhecida como a terra do “bálsamo”. Esse produto era produzido em algumas regiões do oriente como um óleo usado em incensos e perfumes; entretanto, o bálsamo de Gileade consistia em uma seiva branca produzida por suas árvores e possuía propriedades medicinais únicas, muito usado para curar e restaurar especialmente feridas.
O nome do personagem, Jefté, significa “Deus abre”, pois Gileade, seu pai, o assumiu provavelmente porque não tinha filhos ainda. Jefté era o seu primogênito e seria o líder da família caso não tivesse sido expulso por seus irmãos. Jefté foi morar em Tobe depois de ser degredado da família. Este era um lugar árido, inóspito, solitário, onde só viviam homens marginalizados pela sociedade. Ele escolheu um deserto para viver, o que refletia o estado de seu coração, sedento por amor. Ele era um líder nato e passou a chefiar um bando de marginais, que oferecia proteção em troca de dinheiro ou bens, até que o Senhor criou uma situação para favorecê-lo. Deus determinou um tempo oportuno para exaltar Jefté e assim fará na vida de cada um de nós, seus filhos.
As feridas ou marcas de Jefté: rejeição dos irmãos, indiferença do pai, vergonha da mãe e discriminação pelo povo de Mispa (sua cidade natal). Era rejeitado e aparentemente marcado pelo destino para ser infeliz. Mas, Jefté era um homem valoroso, filho de um cidadão influente, porém sua mãe era prostituta. Portanto, seu nascimento não estava nos planos de nenhum de seus pais. Pelo contrário, representava um verdadeiro transtorno para ambos. Ainda no ventre materno ele já carregava o estigma de ser filho ilegítimo e isso deveria acompanhá-lo até seu último dia na face da terra. Mesmo antes de vir à luz, já fora rejeitado.
De acordo com Aguiar (2019), precisamos saber que o feto, embora não seja capaz de falar ou pensar, e ainda não tenha sido totalmente formado, já é capaz de perceber os sentimentos e expectativas que seus pais nutrem em relação a ele. Durante a gravidez, mãe e filho compartilham, não apenas do mesmo alimento e do mesmo ar, mas de sensações, desgostos e sobressaltos comuns.
Há marcas que se instalaram em nós quando ainda estávamos no útero materno e que podem acompanhar-nos e assombrar-nos durante anos. Além de ser rejeitado pelos pais e pela sociedade antes mesmo do seu nascimento, Jefté atravessou mais um momento difícil. Já rapazinho, foi escorraçado pelos irmãos mais novos. Os “filhos legítimos” de Gileade expulsaram-no de casa. “Não herdarás na casa de nosso pai, porque és filho doutra mulher”, disseram-lhe (Jz 11.2). Os moradores da cidade, movidos pelo preconceito, apoiaram tal decisão. Ninguém moveu uma palha para intervir em seu favor. Aos traumas antigos somavam-se novos. Era rejeição sobre rejeição, empurrando Jefté na direção perigosa de uma vida dominada pela revolta.
Vale ressaltar que as ruas de nossas cidades estão hoje cheias de “jeftés”. Gente que foi desprezada, magoada, ferida e que fez da revolta e da rebeldia o seu jeito de sobreviver. Adolescentes e jovens que tentam, através das drogas, das gangues e da delinquência, dar o troco ao mundo e mostrar-lhe o quanto os fez sofrer.
Mas, o maravilhoso é que a situação de Jefté alterou-se radicalmente. De fora da lei ele passou a ser herói nacional; de bandoleiro, a juiz de Israel, com direito a figurar na seleta galeria dos heróis da fé do Velho Testamento (Hb 11.32). Ele quebrou as algemas da rejeição e descobriu o seu verdadeiro valor. Nosso Deus é aquele que joga por terra todas as previsões, diagnósticos, prognósticos, expectativas e profecias dos homens. As circunstâncias da vida de Jefté e o modo como ele reagiu a elas o haviam condenado a uma vida triste e recalcada, mas o Senhor rasgou esse veredito e decidiu escrever um novo final para a história dele. E assim como ele, todos os que se sentem rejeitados podem modificar a sua situação com a ajuda divina.
De acordo com Aguiar (2019), a resposta à rejeição dos homens é o fato de que Jesus também conheceu a rejeição. O amoroso e perfeito Filho de Deus foi rejeitado por seus contemporâneos e ainda hoje o é por muita gente. “Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso.” (Is 53.3) Na verdade, a rejeição nada tem a ver com o nosso verdadeiro valor. As origens e as razões dela não estão em quem é rejeitado, mas naquele que rejeita. Cristo não foi enjeitado por defeitos que porventura tivesse, mas por causa da dureza do coração dos homens. De modo semelhante, você é uma pessoa de muito valor, e se alguém o rejeitou, esse alguém tem problemas – e não necessariamente você.
A solução para o sofrimento causado pela rejeição é o fato de que Jesus também a experimentou. Ele sabe exatamente como nos sentimos. O remédio para as marcas deixadas pela rejeição é o fato de que Deus pode transformá-las em bênção. Nossas experiências de rejeição, nas mãos de Deus, podem tornar-se instrumentos poderosos para uma vida útil e vitoriosa. É necessário entender que, por mais dolorosa que seja, a rejeição é uma experiência universal. Todos, em algum momento passam por isso. Muitas vezes ela não tem a ver com o nosso valor pessoal, mas com a expectativa ou necessidade do outro. Encarar a rejeição como parte do caminho, e não como um fracasso pessoal, é o que permite crescer com ela. Portanto, cientes de que a rejeição faz parte da vida, é preciso aceitar essa realidade, passo importante para desenvolver resiliência emocional. Quanto mais se aprende a enfrentar o desconforto sem fugir dele, maior será a capacidade de lidar com perdas, mudanças e desafios futuros com maturidade. Ninguém está imune ao medo de ser rejeitado.
Assim, para superar a rejeição é preciso ter consciência de que não se pode mudar o que aconteceu no passado, mas se pode escolher como quer lidar com o que fizeram conosco. Superar a ferida emocional da rejeição não é uma tarefa fácil, mas é possível com o tempo, esforço e as estratégias corretas.
Muitas pessoas têm sido induzidas a buscar o seu valor próprio fora do amor de Deus. O resultado é que elas vão continuar se sentindo rejeitadas, pois somente o amor divino nos faz sentir plenamente aceitos, suprindo a nossa carência afetiva. Esse sentimento é incondicional, puro e ilimitado, é o único capaz de nos saciar. O Senhor ama e valoriza cada um de nós como um ser único (Salmo 139.14), que criou à sua imagem e conforme a sua semelhança (Gn 1.26). Esse é o valor intrínseco a cada ser humano.
Luzelucia Ribeiro da Silva é professora, filósofa e teóloga.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, Marcelo. Cura pela palavra. Curitiba, PR: Editora Betânia, 2019.
MACEDO, Cléa. Divã espiritual. Cura da alma à luz da Bíblia. Brasília,DF: Editora Cristã, 2021.
https://www.patriciacostapsicologa.com.br/single-post/2014/08/04rejei%C3%A3o-a-ferida-do-vazio. Acesso em 23 de outubro de 2025.