
“Que felicidade plena é essa, intangível tal qual um universo inteiro? E o que é, senão um universo inconstante dentro de nós?”
Sem dúvida a felicidade é um dos sentimentos humanos mais complexos de se definir, considerando que o estado de felicidade está fundamentado nas percepções, experiências, valores e anseios de cada indivíduo. Seria um equívoco definir a felicidade de forma taxativa. Desse modo, é fundamental entendê-la como sendo um estado singular, inconstante e infinito (no tocante às várias formas de alcançar a felicidade).
Certa vez li um livro intitulado “Felicidade: modos de usar”, fruto do debate entre Cortella, Pondé e Karnal, que trazia concepções filosóficas e pessoais sobre o tema, que foi explorado de forma dinâmica e compreensível num eclodir de ideias acerca das possibilidades, inúmeras, de vivenciar a felicidade dentro dos mais diversos cenários. Um coexistir saudável e consciente de felicidade e tristeza, cada qual com sua devida importância e imprescindibilidade ao crescimento humano.
Não poderia deixar de citar aqui umas das ideias de Cortella, com a qual, particularmente, mais me identifiquei no decorrer da minha leitura: “A vida tem perturbações, tem percalços o tempo todo. A vida tem dificuldades, e uma pessoa que se coloca como alguém feliz de modo contínuo não entendeu a própria existência”.
Essa colocação nos leva a crer que a felicidade é palpável, porém indomável. Ela é transitória. Isso nos leva a refletir sobre certa obrigatoriedade de sermos constantemente felizes nos dias atuais, principalmente, nessa nova era das redes sociais, onde o cenário é sempre propício à “felicidade” ideal, onde sentir-se triste é um mal ao qual não podemos ser submetidos, ignorando o fato da necessidade humana de vivenciar situações desagradáveis e até dolorosas, para sua própria evolução. É como se, todos os dias, precisássemos sempre de um grande evento feliz para que só assim pudéssemos nos autoafirmar como sendo pessoas, plenamente, felizes. Uma competição medíocre de quem “é” mais feliz, onde a cobrança por uma felicidade constante tem graves efeitos colaterais, que tem acometido a sociedade com transtornos mentais como ansiedade, depressão e outros.
A tal felicidade constante é irreal e corrobora a máxima de que todo excesso esconde, em si, uma falta. Como diz o trecho da música do Frejat: “Rir é bom, mas rir de tudo é desespero”. Taxar a felicidade como plena e constante é tratar a vida como uma estrada retilínea de asfalto indestrutível que não comporta buracos, pedras ou sequer ondulações e, desse modo, fosse inaceitável tropeçar em um ou outro percalço, ao longo do caminho. E esta é a grande problemática: vivemos tropeçando como crianças ensaiando os primeiros passos, ainda cambaleantes. E como encontrar o equilíbrio sobre as próprias pernas (leia-se vida), sem os tropeços e as quedas?
A felicidade, segundo penso, é um estado em que não se enraíza a constância; um estado efêmero que não percorre caminho linear. Ela ocorre de dentro pra fora e não o contrário; no sentir profundo de um contentamento que transborda, ornando o externo diante de nosso olhar. Essa felicidade, da qual me refiro, rejeita a significância do amanhã e impulsiona à plenitude do agora, como se qualquer desfecho após um estado genuíno de felicidade fosse irrelevante. É como se tudo pudesse se findar ali, naquele instante.
Certamente, a beleza da felicidade mora na sua eventualidade e subjetividade. Ela habita na forma como enxergamos e interagimos com a vida, as pessoas e os acontecimentos. Para Drummond, por exemplo, a felicidade é um estado de espírito transitório por natureza. Nós temos momentos de plenitude, divinos, celestiais, mas, ao lado disso, tem a rotina, a dor de barriga, a dor de dente, a conta por pagar.
Hoje, parece haver mais desejo em apresentar-se feliz aos outros, do que a si mesmo. E essa “felicidade” está boiando sobre a superfície do entendimento do seu real sentido. É como se a felicidade fosse aquela roupa que a nossa mãe comprara única e exclusivamente para grandes eventos, mas o tempo passava e a perdíamos, ou porque ficava pequena e não nos cabia mais ou porque ficava puída pelo tempo.
Imagino que a felicidade real esteja atrelada à simplicidade, por exemplo: algo que me fazia sentir felicidade quando criança era, depois de um banho de chuva na volta da escola, tomar um banho morno, vestir uma roupa confortável e tomar um leite quente, enquanto assistia meu desenho favorito. Era quando toda minha família se reunia no Natal. Era quando obtinha êxito numa prova para a qual me dediquei arduamente. Era quando eu dormia até tarde no domingo. Era quando eu tinha contato com a natureza. Foi quando eu me formei. Foi quando a minha filha nasceu e eu pude olhar a primeira vez para o seu rosto (a vida até poderia acabar ali).
Dessa forma, vejo a felicidade como um aglomerado de momentos, consecutivos ou não, relacionados às realizações na esfera intelectual, afetiva, espiritual ou material, que nos faz sentir vivos, que nos acomete com uma sensação única de realização e bem estar. Parece pequeno considerar esses acontecimentos como causadores de eventuais estados de felicidade em mim, contudo os considero como sendo razões de ser da felicidade em sua essência real e pura.
“[…]E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.” (Cecília Meireles)
A felicidade nos visita, todavia, não mora. Então, que deixemos entreabertas, portas e janelas a essa ilustre visitante. E que possamos ter felicidade, sempre que nos couber tê-la. Mas quando a tristeza vier, que possamos extrair aprendizado e entender nossas vulnerabilidades e oscilações. É a partir desses extremos que somos moldados e inclinados a crescer em sabedoria. A entender que não há exclusividade a nenhum ser, seja na felicidade, seja na tristeza.
Ela está relacionada às nossas necessidades e expectativas mais íntimas; tem significado diverso para cada um. Não garante a ausência de tristeza, mas é um bálsamo de esperança para nos deleitarmos dos bons ventos que soprarem ao longo da jornada terrena. A felicidade está aqui, aí, em toda parte, mas só é feliz aquele que deixar de ver para, enfim, inclinar-se a enxergar.
“Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!”
(Mário Quintana)
E enxergar nesse contexto é ter nos olhos as “retinas da fé”. Atentar-se ao derredor e sua riqueza. Alicerçar-se na boa conduta, praticar o bem, amparar ao que está desamparado. Ser grato ao que se possui, consciente de que todo aquele que enxerga além do que pode ser visto carrega em si a esperança, combustível para a felicidade.
“Feliz é quem confia no SENHOR, cuja esperança é o SENHOR. É como árvore plantada junto ao rio, com raízes que se estendem até as correntes de água. Não se incomoda com o calor, e suas folhas continuam verdes. Não teme os longos meses de seca, e nunca deixa de produzir frutos
(Jeremias 17:7-8).
Há felicidade nas maravilhas advindas do Criador. Há felicidade no sopro de esperança no despertar de um novo dia! Há felicidade no saciar da fome, no matar da sede! Há felicidade na chuva que chega e no sol que brilha! Há felicidade no sorriso de um estranho, num abraço (acalento) e no amor de quem amamos! Há felicidade no afeto, e até no sonhado objeto!
Cada qual com seus eventuais surtos de felicidade. Ainda assim, sabidos da certa infelicidade que também se achega, hora ou outra. Mas nem essa, nem aquela residem na constância. O que, certamente, reside em nós é a decisão de tornar o que nos remete felicidade, a força motriz para encarar tudo aquilo que a sinuosa estrada da vida nos reserva enquanto seguimos cambaleando.
Ana Carla é escritora e poetiza.