
Você já deve ter escutado alguém dizer “isso é de direita” ou “isso é de esquerda” e talvez tenha se perguntado: de onde vêm esses
nomes? A resposta é mais simples — e mais curiosa — do que parece.
Em 1789, durante a Revolução Francesa, os deputados da
Assembleia Nacional precisavam decidir questões importantes sobre os poderes do rei Luís XVI. Simplesmente por uma questão de organização do espaço, quem defendia manter mais poder nas mãos do monarca sentava-se à direita do presidente da sessão. Quem
queria limitar esse poder e abrir caminho para mudanças mais profundas, sentava-se à esquerda. Simples assim: uma posição física que, com o tempo, virou símbolo de posições políticas diferentes.
Ao longo de mais de dois séculos, “direita” e “esquerda” foram
se transformando. Na Revolução Francesa, o debate era sobre
monarquia. No século XIX, sobre república e papel da Igreja. Com a
industrialização, o tema passou a ser as condições de trabalho e a
desigualdade social.
Hoje, de forma bem resumida, uma das diferenças mais
discutidas é esta: a esquerda costuma defender mais presença do
Estado em áreas como saúde, educação e assistência social, buscando
reduzir desigualdades por meio de políticas públicas. A direita, por sua vez, tende a confiar mais no mercado e na iniciativa privada,
defendendo um Estado menor e mais liberdade econômica.
Nenhuma dessas visões é errada por natureza — são apostas
diferentes sobre qual caminho leva a uma sociedade melhor. E, como
mostra a própria história, o que é considerado “radical” numa época pode se tornar “normal” décadas depois. O voto para todos, por exemplo, já foi visto como ideia perigosa — hoje é regra em praticamente todo o mundo democrático.
Aqui vai uma reflexão importante, especialmente num ano de eleição: política não resolve a vida de ninguém da noite para o dia.
Nenhum presidente, de nenhum partido, consegue — com uma canetada — fazer você feliz amanhã de manhã. O que a política faz é diferente: ela planta.
Existe um provérbio árabe que diz: “quem planta tamareiras não colhe tâmaras.” A tamareira leva décadas para dar frutos. Esse ditado significa que certos esforços beneficiam sobretudo as gerações futuras, não quem os inicia. Ele valoriza a paciência, a
responsabilidade intergeracional e o altruísmo: plantar algo cujos
frutos talvez só outros venham a colher.
E é assim que funciona na boa política: investimento em educação hoje forma profissionais daqui a quinze, vinte anos.
Decisões sobre meio ambiente definem se nossos netos, bisnetos terão rios limpos e clima estável. Ações na política econômica podem repercutir em um maior equilíbrio nas finanças. Escolhas sobre saúde pública hoje evitam problemas que só vamos sentir — ou deixar de sentir — num futuro distante.
Isso significa que votar pensando apenas “no que me beneficia agora” pode ser um erro de perspectiva. A pergunta mais importante talvez não seja “o que essa política faz por mim hoje?”, mas sim: “que
tipo de semente estou ajudando a plantar para quem vem depois de mim?”
No próximo domingo, dia 25 de outubro, o Brasil vai escolher não apenas um governo, mas também, de certa forma, que país quer ser nos próximos anos. Antes de decidir seu voto, talvez valha a pena fazer uma pausa e se perguntar, com calma e sem pressa: “Que
mundo eu quero deixar para meus filhos, netos e bisnetos?”
O importante é lembrar que seu voto não é só sobre o presente,
mas é como uma semente de tamareira. E pode ser que você nunca veja o fruto dela. Mas alguém, um dia, vai se sentar à sombra dessa árvore e vai comer os seus frutos. Essa pessoa pode ser seu filho. Pode ser seu neto.
Pode ser alguém que você nunca vai conhecer.
Vale pensar nisso na hora de escolher.
Álerson do Carmo Mendonça é Mestrando em Direitos Humanos
(UnB).