
Estamos às vésperas de uma nova eleição e, para variar, em uma situação política complicada. É difícil não se preocupar com esse momento. O que a Bíblia diz sobre isso? Há lições sobre política na Bíblia? Vejamos.
POVO E HERÓIS
A Bíblia confirma o que é constatado por estudiosos da literatura: como nos romances, o povo quer heróis, aqueles que enfrentam os inimigos e trazem a solução para todos os problemas. O apoio popular se dá pela identificação com o herói. Candidatos que conseguem vender essa imagem têm maiores chances. Mas, heróis também podem decepcionar.
No Antigo Testamento, a participação popular na escolha de um líder aparece na história do rei Saul. Cansados dos abusos dos filhos do líder Samuel, os israelitas pediram um rei. Saul foi o escolhido por Deus. Mas, foi aceito pelo povo em razão do porte físico — destacava-se pela beleza e altura — e por vencer os inimigos de Israel. Tinha atributos físicos de herói e agia como tal.
Mas, Saul decepcionou a Deus e outro rei foi escolhido: Davi. Esse possuía boas qualidades de caráter, mas era um desconhecido. Para convencer o povo de que ele seria um bom líder, sua história pública começa com um ato heroico: venceu o gigante Golias. Davi reinou por um bom tempo. Mas seu reinado foi marcado por grandes escândalos.
Na história de Jesus, o roteiro é um pouco diferente. Sua entrada triunfal em Jerusalém, aclamado como rei dos judeus, cria a expectativa de que seja o herói que salvaria a nação do jugo romano. “Hosana!”, era o grito que então se ouvia. Jesus, porém, frustra o desejo popular ao se entregar aos inimigos sem resistência, não agindo para libertar Israel. O povo passa a rejeitá-lo. “Crucifica-o!”, era o grito que agora ecoava. O sentimento popular é volúvel como uma folha ao sabor do vento. Melhor deixar os heróis para as folhas dos romances.
ESTADO E RELIGIÃO
A Bíblia revela que Jesus que não se aliou a correntes políticas. Alguns historiadores dizem que os autores dos Evangelhos mostraram um Jesus politicamente neutro para evitar a perseguição; o verdadeiro Jesus seria um zelota, um insurgente contra o domínio romano, face que teria sido ocultada nos Evangelhos.
Seja isso verdade ou não, o Jesus dos cristãos é o que está retratado nos Evangelhos. E esse evitou alinhar-se a partidos, ainda que suas ações tivessem um inevitável reflexo político. Seu projeto era criar uma nova comunidade que, sem olvidar a atuação política, se posicionasse para além dos partidos políticos.
Seu apartidarismo aparece na escolha dos discípulos. Eram pessoas de diversas condições sociopolíticas: um cobrador de impostos para os romanos; dois da facção política que lutava contra o império; alguns pescadores sem consciência política aguçada; outros da elite judaica. Sua afirmação “deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” também mostra essa atitude apartidária. A mesma visão está na sua rejeição ao anseio dos discípulos por uma restauração imediata do reino de Israel. Alguns acham que por isso Judas o traiu. Ele teria se decepcionado por Jesus não se insurgir contra os romanos.
A luta do Jesus bíblico foi contra a opressão religiosa, que se aliava ao jugo político institucional. Apesar das acusações contra ele serem de natureza política, foram os líderes religiosos que o levaram à cruz. Esses tinham interesse político institucional: manter-se no poder com o apoio do governo romano.
Os Evangelhos mostram que, quando se aliam a governos, religiosos podem ser tão ou mais tiranos que líderes políticos. Isso aconteceu e acontece com diversas religiões, inclusive com o cristianismo. Governo estatal e Religião institucional não devem se misturar porque essa mistura é ruim tanto para a Religião quanto para o Estado. A história de Jesus reforça a ideia do Estado laico.
CRISTÃOS E ELEIÇÕES
A Bíblia, no livro dos Atos dos Apóstolos, contém o relato de uma eleição. Havia uma situação conflituosa sobre a distribuição dos alimentos na igreja. Dois partidos se formaram: cristãos palestinos e cristãos oriundos de outros locais. Esses últimos alegavam que eram prejudicados na divisão dos alimentos.
A queixa foi levada aos apóstolos que, em vez de dizerem quem tinha razão, propuseram a eleição de um grupo para resolver o conflito. A orientação dos apóstolos foi: “…escolham entre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, para os encarregarmos desse serviço.”
Nesse texto estão três diretrizes eleitorais para os cristãos: 1) a comunidade deve assumir a responsabilidade pela resolução de seus problemas; 2) boa reputação (Como isso está difícil!) e sabedoria (capacidade para o bom exercício da função) são os critérios a serem utilizados para a escolha de um candidato a cargo público; 3) cabe aos líderes religiosos orientar seus liderados quanto à aplicação desses critérios, sem dizer-lhes em quem devem votar e sem apoiar candidatos ou partidos.
Boa eleição e bons votos é o que todos desejamos para o Brasil!
Paulo José Corrêa é mestre em Direito e pós-graduando em Ciências da Religião