
Por uma dessas circunstâncias que a vida apronta, me vi obrigado a embarcar no voo LA3716, com destino a Campo Grande.
Obviamente não era a viagem dos sonhos. Nem estava nos planos. A realidade do dia a dia me impunha priorizar uma série de compromissos que seriam adiados por causa da nova agenda. Mesmo assim, com os bilhetes na mão — na verdade, no celular — aceitei o desafio decidido a transformar o limão em limonada, como dizem os mais vividos. Só não esperava que um serviço de bordo simplérrimo fosse deixar o voo mais azedo que o tal limão.
Levantei cedo, ajeitei a mala de qualquer jeito, me vesti às pressas e pedi socorro a um familiar pra me levar ao aeroporto. No curto trajeto — e pra meu desespero — pegamos um congestionamento inconveniente. Pra piorar, encarei uma fila gigantesca na inspeção da bagagem.
Vencidos os percalços, cheguei ao portão de embarque com uma única preocupação: será que, mesmo com a regra permitindo bagagem de mão, eu teria que despachar minha mala no porão? Alívio: a mala veio comigo pra cabine. Consegui me espremer na fileira 28.
Com toda essa correria, claro que não deu tempo nem de um cafezinho pra forrar o estômago.
Já acomodado, murmurei comigo: “Ufa. Com café ou sem café, o importante é estar embarcado e pronto pra decolar”.
Não sei se acontece com todo mundo, mas depois de grandes tensões meu estômago vira um cobrador. Parece crise de hipoglicemia pedindo calorias pra compensar o estresse. Fiquei monitorando os comissários, esperando o carrinho mágico com aqueles petiscos pra lá de “surpreendentes” — e as aspas aqui são irônicas mesmo.
Quando a comissária chegou do meu lado, eu já estava salivando. Pronto pra mastigar, com a maior sofreguidão do mundo, qualquer coisa que me oferecessem. Foi quando a até então supercordial atendente me lançou a pergunta que bugou minha mente: “Doce ou sal?”
Nesse momento, o instinto de sobrevivência — ou seria a gula? — falou mais alto. Respondi sem pensar: “Pode ser os dois?”
Meu Deus. Por que fiz a malfadada pergunta? O rosto da moça se transfigurou. O sorriso cortês sumiu e deu lugar a um semblante fechado, sisudo. Com os olhos quase me fuzilando, ela disparou: “Um ou outro!”.
Na hora me veio a imagem da minha mãe brigando comigo: “Até quando você vai ficar comendo besteira, menino?”
Meio atordoado, só consegui responder: “Tudo bem. Muito obrigado”. Ela ainda insistiu: “O senhor vai querer?” Contrariando minha fome de último grau, soltei um quase inaudível: “Não”.
Depois disso, confesso: mal pude ouvir as perguntas seguintes da dedicada funcionária:
— Água?
— Café?
— Suco?
Só balancei a cabeça. Não.
Não sei o que se passou na cabeça da aeromoça. Acho que tentou se redimir, porque mais tarde voltou pra perguntar se eu ainda aceitaria os dois pacotes de biscoito. Tarde demais. A adrenalina já tinha matado minha fome.
Na minha cabeça ficou a impressão: se a companhia orienta os funcionários a negar um pacotinho de biscoito a mais, deve estar em regime de economia máxima. Se for isso, minha recusa foi uma pequena contribuição pra saúde financeira da empresa.
Por outro lado, apesar do dissabor, a comissária — mesmo sem querer — contribuiu pra minha saúde física. Juro que, na próxima ida ao nutricionista, vou contar vantagem: resisti bravamente à tentação de comer biscoitos cheios de gordura e açúcar, enquanto fazia contorcionismo numa poltrona apertada de um voo doméstico.
Vade retro, tentação.
Peniel Pacheco é ex-deputado distrital, professor de teologia e articulista eventual do Repórter Brasília.