Empresários veem avanço das importações, juros altos e aumento de custos como ameaça à produção nacional
Por Edgar Lisboa
O alerta feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre o avanço da desindustrialização ganhou forte repercussão entre empresários e lideranças do setor produtivo. A avaliação é de que o resultado do PIB do primeiro trimestre de 2026 expôs uma realidade preocupante: enquanto a economia cresce impulsionada pelo consumo e pelos serviços, a indústria de transformação praticamente ficou estagnada, avançando apenas 0,1%.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, tem defendido que o Brasil corre o risco de aprofundar a perda de competitividade industrial diante da combinação de juros elevados, carga tributária crescente, insegurança regulatória e aumento da entrada de produtos importados. A entidade afirma que boa parte da demanda interna por bens industriais está sendo atendida por mercadorias vindas do exterior, reduzindo a capacidade de geração de emprego e renda da indústria nacional.
Brasília também sente os efeitos

Em Brasília, representantes do setor produtivo demonstram preocupação semelhante. O presidente da Fibra, Jamal Jorge Bittar, tem defendido em diversos fóruns empresariais a necessidade de políticas permanentes de incentivo à produção nacional, destacando que a indústria é responsável pelos empregos de maior qualificação e remuneração. A avaliação de empresários ligados à construção civil, à metalurgia e à cadeia de alimentos no Distrito Federal é que o custo do crédito e a concorrência com produtos importados vêm reduzindo investimentos e adiando projetos de expansão.
A percepção entre empresários brasilienses é de que o país vive uma contradição: registra crescimento econômico, mas sem fortalecer o setor que historicamente impulsiona inovação, produtividade e desenvolvimento tecnológico.
“Sem indústria forte não há crescimento sustentável”
A preocupação também aparece em entidades nacionais. Segundo a CNI, o crescimento recente continua baseado no consumo, enquanto a taxa de investimento caiu de 17,6% para 16,5% do PIB. Para o setor produtivo, isso significa que o país cresce sem construir uma base sólida para sustentar a expansão nos próximos anos.
O superintendente de Economia da CNI, Marcio Guerra, afirma que a indústria enfrenta uma combinação de fatores negativos: juros elevados, encarecimento de insumos, aumento da tributação, concorrência externa e incertezas regulatórias. A entidade também alerta que medidas em debate no Congresso podem ampliar custos em um momento considerado delicado para a competitividade industrial.
Sinal amarelo para 2026
A leitura predominante entre empresários é que o país está diante de um sinal amarelo. O crescimento da indústria extrativa e da construção civil ajudou a sustentar os números gerais do PIB, mas não foi suficiente para esconder a fragilidade da indústria de transformação, responsável pela maior agregação de valor da economia.
Nos bastidores do setor produtivo, a preocupação é que o Brasil volte a repetir um fenômeno conhecido das últimas décadas: crescimento econômico sem fortalecimento da produção industrial. Para os empresários, isso significa menos inovação, menor produtividade, redução da competitividade internacional e perda gradual de empregos qualificados.
A avaliação é que, sem uma agenda robusta de crédito, redução do custo Brasil, incentivo à inovação e fortalecimento da produção nacional, o país poderá chegar a 2026 com uma economia maior no papel, mas cada vez mais dependente de produtos fabricados fora de suas fronteira
PIB do 1º trimestre reforça desindustrialização do país, avalia CNI

Perspectivas para a indústria de transformação são preocupantes em meio a juros altos, enxurrada de importações e pressões sobre custos
O resultado do PIB do 1º trimestre, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na sexta-feira (29), reforça o cenário de desindustrialização do país e deixa o setor em alerta para 2026, avalia a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Apesar do crescimento de 1% da indústria, em ritmo próximo ao do PIB, que subiu 1,1%, a indústria de transformação cresceu apenas 0,1% em relação ao 4º trimestre de 2025.
Penalizada pelos juros altos e pela maior entrada de produtos importados, o segmento enfrenta aumento de custos em várias frentes, como o encarecimento de insumos e matérias-primas por conta da guerra no Oriente Médio e a elevação da tributação após medidas como o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a redução de incentivos fiscais de forma linear.
“Esse quadro é ainda mais preocupante quando a indústria se depara com a redução da jornada de trabalho, em discussão no Congresso Nacional, o fim do imposto de importação sobre compras de pequeno valor e o tabelamento do frete, que já foram implementados. Os custos não param de subir e o ambiente é cheio de incertezas”, afirma Marcio Guerra, superintendente de Economia da CNI.
Extrativa e construção puxam crescimento
A indústria extrativa continua sendo o principal fator a explicar o crescimento do setor industrial. A alta de 3,6% foi impulsionada pela extração de petróleo, gás natural e minério de ferro e pelo aumento dos preços dessas commodities devido à guerra no Oriente Médio. Vale lembrar que a indústria extrativa é menos sensível aos juros altos do que os demais segmentos industriais.
Apesar da política monetária contracionista, a indústria da construção subiu 2,9%, puxada pelo crescimento do mercado de trabalho e das horas trabalhadas no setor. As perspectivas para o setor se tornaram mais positivas após medidas como o aumento do valor máximo dos imóveis financiados pelo Sistema Financeiro de Habitação (SFH) e a disponibilização de linhas de crédito para a reforma de moradias de famílias de baixa renda.
Modelo de crescimento não é o mais adequado
Embora o investimento tenha aumentado 3,5% no 1º trimestre de 2026, maior alta trimestral em cinco anos, o resultado está longe de indicar uma mudança no modelo de crescimento observado nos últimos anos, pautado no consumo, o que é preocupante, avalia a CNI. Vale lembrar que, apesar da alta, a taxa de investimento caiu para 16,5%, ante os 17,6% registrados no mesmo trimestre do ano passado.
Impulsionado pelos estímulos fiscais, a consumo das famílias subiu 1%, maior alta desde o 3º trimestre de 2024. “Boa parte da demanda por bens industriais tem se direcionado para as importações. Isso prejudica ainda mais a situação da indústria”, explica Marcio Guerra.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa com Agência de Notícias da Indústria