
Em tempos de excesso de informações e estímulos, cultura da performance, necessidade de validação e crescente escassez de autoconhecimento, pode-se afirmar que vivenciamos uma crise de sentido contemporânea. Tal cenário decorre da fluidez das relações, da instabilidade das referências e do enfraquecimento dos vínculos humanos.
Essas questões se articulam à Modernidade Líquida, conceito proposto pelo sociólogo Zygmunt Bauman, no qual a sociedade é marcada pela instabilidade, pela transitoriedade e pela constante sensação de vazio existencial. Nesse contexto, nada parece feito para durar: relações, interesses, sonhos e identidades. Tudo se tornou volátil. Há uma busca constante pelo novo, pelo extraordinário ou por qualquer experiência que possa conferir sensação de pertencimento e significado, numa tentativa de dar sentido à própria existência.
É como se o valor da vida estivesse condicionado ao espetáculo – à urgência de viver experiências intensas e compartilháveis – enquanto a profundidade silenciosa da vida comum vai sendo gradualmente negligenciada. Em meio a essa busca incessante por reconhecimento, desempenho, satisfação pessoal e preenchimento do vazio existencial, surge uma questão inevitável: qual é, afinal, o verdadeiro propósito da vida?
A partir dessa inquietação, proponho a reflexão sobre duas perspectivas de propósito que, embora partam de fundamentos distintos, convergem para uma mesma necessidade profundamente humana: a busca por sentido.
A primeira delas é o Ikigai, cujo conceito surgiu em Okinawa, no sul do Japão, região conhecida pela alta expectativa de vida de seus habitantes e pela expressiva quantidade de centenários acima da média mundial e até mesmo dos padrões japoneses (BBC News Brasil, 2018). O Ikigai propõe uma reflexão sobre aquilo que dá sentido à existência da vida humana a partir da junção entre paixão, vocação, utilidade e realização pessoal. Sua perspectiva se estrutura na relação entre as dimensões pessoal, profissional e social, envolvendo o que se ama fazer, aquilo em que se é bom, o que o mundo precisa e aquilo pelo qual se pode ser remunerado.
Sob essa perspectiva, o foco permanece no eu e em sua busca por sentido existencial, baseado nas aspirações pessoais e na busca por realização. Entre seus aspectos positivos está a busca pelo equilíbrio e a promoção de um senso maior de propósito. É uma oportunidade de autoconhecimento que reduz a sensação do vazio e ajuda no alinhamento das diversas áreas da vida. Em contrapartida, o Ikigai pode simplificar demais a complexidade da vida real, numa ideia focada em encontrar o ponto perfeito, desconsiderando que nem todos os indivíduos possuem as mesmas condições econômicas, emocionais e sociais para alcançá-lo. Além disso, pode gerar certa dependência de resultados, circunstâncias favoráveis e reconhecimento externo como fundamentos para a construção do sentido da vida.
Em contraposição a essa perspectiva, a visão bíblica retira o eu do centro do propósito existencial, estabelecendo Deus como o verdadeiro eixo da vida e do seu real sentido. Assim, o propósito não nasce do interior humano nem se limita à sua satisfação e conquistas, mas decorre de uma relação de intimidade com o Criador, alicerçada principalmente na obediência, no serviço, no amor e na esperança da eternidade.
Enquanto o Ikigai associa propósito à felicidade terrena e ao equilíbrio material, a Bíblia apresenta, muitas vezes, uma compreensão marcada pela renúncia, pela perseverança e, em muitos casos, pelo sofrimento. Nesse sentido, personagens bíblicos viveram chamados difíceis, distantes de uma vida de conforto ou estabilidade, mas permaneceram firmes na fé. Aqui posso citar Moisés, que enfrentou décadas no deserto, e Paulo, que suportou perseguições, prisões e dificuldades em seu ministério. Em ambos os casos, o propósito transcendia as necessidades individuais, alcançando impacto coletivo, por meio da responsabilidade, liderança e serviço.
Nos relatos bíblicos, o sentido de propósito está, claramente, mais associado à obediência e ao serviço do que ao conforto ou à harmonia pessoal. Há um objetivo maior, externo ao eu, diferentemente do Ikigai, que, embora considere o impacto social, permanece centrado na realização e no bem-estar individual. Não se trata de negar o valor e importância da realização pessoal, mas de reposicioná-la. Na perspectiva bíblica, ela não é o centro do propósito, embora possa fazer parte dele, podendo, inclusive, ser um meio de manifestação do propósito divino.
Vale considerar que o fruto desse propósito não se manifesta de forma imediata, linear ou confortável. Ele envolve muitas vezes espera, sofrimento, silêncio e amadurecimento. Contudo, o ser humano tende a romantizar o propósito como algo lógico e harmonioso, quando na verdade ele é processual e formativo: ele não apenas nos conduz a um destino, ele nos molda em caráter, nos preenche, amplia a nossa fé e o nosso entendimento sobre significado e pertencimento a algo maior, transcendente.
O ponto é que ambas as perspectivas oferecem contribuição significativa para a compreensão do sentido da vida. No entanto, compreendo, a partir de uma visão mais subjetiva, que o propósito sob o contexto bíblico se apresenta como um caminho mais consistente diante da crise de sentido. Isso porque, não o diminui à mera autorrealização, mas o coloca numa dimensão maior, na qual a vida ganha um “porquê” mesmo em meio à dor, ao sofrimento, à falta de reconhecimento, aos resultados desfavoráveis, às perdas e às tantas outras conturbações que atravessam a existência humana. Há uma certeza acolhedora nas Escrituras: a certeza da fidelidade de Deus para com aqueles que creem e se dispõem a viver a totalidade de Seu propósito.
“Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor” (Provérbios 19:21).
Ana Carla é escritora e poetiza.