Vereadores Mirins dão exemplo de cidadania e respeito no Congresso

Sessão histórica da Câmara dos Deputados durante votação da jornada de trabalho

Por Edgar Lisboa

Enquanto a Câmara dos Deputados viveu nesta semana debates tensos e, em muitos momentos, marcados por excessos verbais durante a discussão sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, um grupo de jovens estudantes de Criciúma, em Santa Catarina, acabou chamando atenção justamente pela postura equilibrada, pelo interesse público e pela disposição em discutir soluções para os problemas reais da população.

Os chamados “vereadores mirins” participaram de atividades pedagógicas em Brasília e acompanharam de perto as discussões no Congresso Nacional. Mais do que uma visita institucional, a experiência serviu como demonstração de que a política pode — e deve — ser construída com responsabilidade, educação e espírito público.

O programa Vereador Mirim é uma iniciativa pedagógica voltada a estudantes do Ensino Fundamental e busca estimular cidadania, protagonismo juvenil e compreensão sobre o funcionamento do Poder Legislativo. O projeto funciona em diversas cidades brasileiras e permite que alunos participem de eleições internas, debates, sessões simuladas e apresentação de propostas voltadas às necessidades da população.

Em muitas cidades, inclusive, as eleições ocorrem em parceria com os Tribunais Regionais Eleitorais, utilizando urnas eletrônicas e aproximando os jovens do processo democrático desde cedo.

Vereadores Mirins de Santa Catarina Benício Oliveira Lima e Victor Hugo Comim Fontanella

Os estudantes de Criciúma estiveram na Câmara dos Deputados justamente no período em que parlamentares discutiam a jornada de trabalho 5×2. O contraste chamou atenção. Enquanto parte dos debates entre adultos ultrapassava, em alguns momentos, o limite do respeito e do bom senso, os jovens vereadores mirins demonstravam maturidade ao defender ideias, ouvir opiniões e discutir propostas de interesse coletivo.

Benício Oliveira, de 13 anos, vereador mirim pelo Colégio Rogacionista, afirmou que a experiência em Brasília vem sendo um aprendizado importante. “A gente está conseguindo aprender bastante. Pretendo ser deputado um dia”, disse.

Questionado sobre qual seria sua primeira proposta caso chegasse à Câmara dos Deputados, Benício respondeu sem hesitar: “Segurança pública. É um problema muito grande no Brasil. O crime organizado hoje está muito forte”.

Sobre a discussão da jornada de trabalho, o jovem demonstrou cautela e preocupação econômica. Disse apoiar o modelo 5×2, mas ponderou sobre propostas mais radicais. “A 4×3 eu não apoio porque daí a economia quebraria muito e ia aumentar inflação e desemprego”, avaliou.

Outro membro da comitiva foi Victor Hugo Comim Fontanella, de 14 anos. Segundo ele, a viagem pedagógica teve como objetivo conhecer os três Poderes e buscar recursos para projetos locais.

Victor destacou que o mais importante dentro do plenário é acompanhar “as discussões para a representação do povo” e observar pautas de interesse público.

Ao falar sobre prioridades, o estudante mostrou preocupação com problemas básicos enfrentados por muitos municípios brasileiros. “Eu focaria mais na infraestrutura das cidades porque muitos municípios não têm escolas, creches e postos de saúde”, afirmou.

Mesmo jovem, Victor também fez questão de valorizar a importância da representação política. “Os parlamentares estão representando bem a sociedade. Todos são de suma importância para a representatividade da população”, declarou.

Vereadora Mirin Brenda Gonçalves Aguiar Pereira

Já a estudante Brenda Gonçalves Aguiar Pereira, de apenas 13 anos, da escola Bairro da Juventude, levou para Brasília uma pauta diretamente ligada à realidade enfrentada em bairros de Criciúma: a situação dos dependentes químicos e os impactos na segurança das comunidades.

Segundo Brenda, a preocupação principal envolve comerciantes, famílias e crianças que convivem diariamente com situações de insegurança e furtos provocados pelo avanço da dependência química.

“A nossa pauta é sobre as internações involuntárias de dependentes químicos. Muitas vezes as pessoas ficam sendo assediadas na rua. Tem casas que acordam sem energia porque roubam fios de cobre”, relatou.

A jovem também destacou que a viagem teve objetivo prático. Além da experiência política, o grupo foi em busca de recursos para o projeto e a cidade. “A gente veio para Brasília não só para passear, mas também para conseguir recursos para crescer. Já conseguimos R$ 500 mil em emendas parlamentares”, comemorou.

O exemplo desses jovens reforça a importância de programas de formação política e cidadã dentro das escolas e das câmaras municipais. Em tempos de radicalização, intolerância e discursos agressivos, iniciativas como o “Vereador Mirim” mostram que é possível construir uma nova geração mais preparada para o diálogo, para o respeito institucional e para a defesa das necessidades reais da população.

Mais do que formar futuros candidatos, o programa ajuda a formar cidadãos conscientes, preparados para compreender o papel das instituições e participar das decisões que impactam diretamente a vida das pessoas.

A experiência também deixa um recado importante aos próprios parlamentares: investir em educação política, cidadania e protagonismo juvenil talvez seja um dos caminhos mais eficazes para melhorar o nível do debate público no Brasil.

Cabe agora ao Congresso Nacional, às assembleias legislativas, às câmaras municipais e aos próprios parlamentares ampliarem apoio a iniciativas como essa, garantindo recursos, incentivo e espaço para que mais jovens tenham acesso à formação política séria e responsável.

O país precisa preparar melhor suas futuras lideranças. E, pelo que se viu nos corredores e plenários de Brasília, muitos desses jovens vereadores mirins já entenderam algo que parte da política adulta parece ter esquecido: representar o povo exige equilíbrio, responsabilidade e compromisso com quem mais precisa.

Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa