Ubiratan Sanderson (Crédito: Kayo Magalhães, Câmara dos Deputados)
O debate sobre o uso do FGTS voltou ao centro da política nacional, mas agora em duas frentes completamente distintas, e que ajudam a medir o tamanho da disputa sobre o papel social do fundo criado para proteger o trabalhador brasileiro. De um lado, o deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS) propõe utilizar até 100% do saldo do FGTS para renegociação de dívidas bancárias e contas em atraso. A proposta parte de uma realidade concreta: milhões de brasileiros estão sendo sufocados por juros altos, crédito restrito e inadimplência crescente.
Patrimônio construído
O parlamentar sustenta que o trabalhador deve ter liberdade para acessar um patrimônio construído com anos de contribuição, especialmente em momentos de aperto financeiro. A ideia encontra respaldo em parte da população que vê no FGTS um dinheiro “parado”, enquanto famílias convivem com cartão de crédito, cheque especial e financiamentos impagáveis.
Educação financeira
O projeto ainda incorpora educação financeira e simplificação da renegociação, tentando evitar que o consumidor volte rapidamente ao ciclo das dívidas. Politicamente, Sanderson aposta em um discurso de autonomia do trabalhador sobre o próprio recurso.
Trabalhador sem reservas
Mas o debate está longe de ser simples. O FGTS não foi criado como conta corrente para emergências cotidianas. Sua lógica histórica é funcionar como proteção em caso de desemprego, financiamento habitacional, e amparo em momentos críticos. Liberar integralmente o saldo pode aliviar a crise imediata de milhares de famílias; mas também deixar trabalhadores sem reserva justamente quando mais precisarem dela.
Juros corroem salários e renda
Entre quitar dívidas sufocantes e manter recursos presos enquanto os juros corroem salários e renda, o projeto de Sanderson tende a ganhar apoio popular no Congresso, especialmente em um ambiente econômico marcado pelo superendividamento.
FGTS para comprar armas
No extremo oposto desse debate aparece a proposta do deputado Marcos Pollon (PL-MS), que autoriza o uso do FGTS para a compra de armas, munições e equipamentos de armazenamento.
A iniciativa aprovada na Comissão de Segurança Pública provocou forte reação de parlamentares da oposição, e ampliou a discussão sobre os limites do uso do fundo.
A diferença entre as duas iniciativas é significativa. Enquanto Sanderson tenta associar o FGTS à recuperação financeira das famílias e ao combate à inadimplência, a proposta de Pollon desloca completamente a finalidade social do fundo para um campo político e ideológico muito mais controverso.
Instrumento de consumo
O Congresso terá de decidir nos próximos meses até onde o FGTS pode deixar de ser uma reserva de proteção social para se transformar em instrumento de consumo, renegociação financeira ou até financiamento de políticas defendidas por grupos específicos. E essa discussão tende a revelar não apenas divergências econômicas, mas também diferentes visões sobre o papel do Estado, da proteção social e das prioridades nacionais.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa