
Uma parábola para pessoas que desejam fazer do bom diálogo um instrumento para a manutenção de relacionamentos saudáveis.
Peniel Pacheco
É muito comum ler e ouvir abordagens em torno da solidão de Adão. O texto bíblico diz que essa solidão foi percebida até mesmo pelo Criador: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18). No entanto, raramente alguém se arrisca a conjecturar sobre um eventual estado de solidão enfrentado por Eva. Mas, será mesmo que Eva tenha sentido solidão? Analisando o texto bíblico, em suas entrelinhas, eu me arriscaria a dizer que sim. Afinal, o que levaria uma pessoa, em sã consciência, a dialogar com uma serpente?
Embora pareça absurdo, estudos revelam que, diante da extrema necessidade de companhia, pessoas solitárias encontram alento conversando com plantas, animais ou falando sozinhas. Segundo a psicologia, isto tem a ver com Regulação Emocional, ou seja, conversar com animais ou plantas pode ajudar a reduzir a solidão, atuando como uma forma de compensação emocional, fazendo com que a pessoa sinta alívio ao desabafar sem ser julgada.
Diante da constatação de que o silenciamento pode ser uma das piores consequências da solidão, fica mais fácil entender porque pessoas solitárias recorrem a tais expedientes na ânsia de superarem o isolamento a que estão submetidas. Na ausência de alguém que possa ouvi-las, elas passam a conversar sozinhas ou a dialogar com retratos, plantas ou animais.
Porventura Eva teria se sentido assim? Eu suponho que, por algum motivo desconhecido, ela tenha sido, ainda que momentaneamente, privada dos ouvidos de seu marido e, então, como forma de superar a solidão, ela resolveu conversar com os bichos e o animal que se revelou ser o mais “astuto entre todas as alimárias”, foi a víbora alada estrategicamente instalada em um galho qualquer da árvore da ciência do bem e do mal.
Todo mundo sabe que samambaia, cobra, gato ou cachorro não falam, mas, mesmo não respondendo, eles auscultam. Ora, se Eva realmente se viu privada dos ouvidos do seu marido e, sem poder contar com outro confidente, ela poderia perfeitamente ter apelado para ouvir as vozes imaginárias que ecoavam pelo jardim. Vozes que, provavelmente, vinham de sua própria mente, dizendo: “Veja o quanto esse fruto proibido é agradável aos olhos e desejável ao paladar! Pense em quantas descobertas maravilhosas você faria se pudesse experimentá-lo!”
Embora pareça estranho que alguém seja capaz de dialogar com os animais, ninguém se nega a reconhecer que frequentemente somos bombardeados por vozes interiores desafiando-nos a tomar certas atitudes ou a criar coragem para sairmos do lugar comum. Eva pode ter visto na figura da serpente um ótimo álibi para dar ouvidos a si mesma. A suposta ausência do marido poderia ter despertado nela o desejo de sentir-se dona do próprio destino. Desejava ser mais esperta e corajosa, mais disposta a correr riscos e a se aventurar em busca de novos conhecimentos e experiências. Foi assim que encontrou na exótica figura da serpente a parceira ideal para dividir sua curiosidade e seus questionamentos interiores.
Quando alguém se sente só, qualquer companhia parece confiável. O desconforto do isolamento pode ser facilmente preenchido com qualquer tipo de ilusão, até mesmo as mais improváveis. A solidão de Eva pode ter desencadeado um processo de ansiedade que a deixou meio fora de si. Nesse estado de inquietação, não foi difícil ser convencida por si mesma a fazer o que lhe parecia ser uma oportunidade irrecusável: “tomou o fruto, comeu e o deu ao seu marido”.
É fato notório que as aventuras cometidas em momentos de profunda comoção requerem cumplicidade. A exemplo da solidão experimentada anteriormente por Adão, agora vinha a exigência de oferecer a contrapartida à “sua adjutora”: não seria bom que Eva ficasse só. Precisava de companhia para dividir as dores e superar as consequências advindas dos seus atos impensados.
Adão, que recebera a mulher com o propósito de colocar um ponto final na própria solidão, agora teria de demonstrar sua capacidade de administrar a crise provocada pela solidão da própria companheira. Abandoná-la à própria sorte seria uma demonstração de fraqueza e um atestado de culpa por ter permitido que ela chegasse àquela situação. Para não deixá-la se afogar sozinha no mar da desilusão, ele saltou do barco e se agarrou a ela numa tentativa desesperada de provar seu altruísmo. Não se afogaram totalmente, mas mergulharam a humanidade inteira no mar da descrença e no lamaçal da transgressão.
A solidão de Eva soa como um grito silencioso que ecoou pela história, lembrando-nos que a falta de comunicação e a ausência de conexão podem levar a decisões terrivelmente desastrosas. Que esta parábola nos ensine a manter a compreensão mútua e a comunicação bem ativadas, antes que o silêncio nos consuma inteiramente por dentro lançando-nos cada vez mais distante do paraíso da boa convivência.
Peniel Pacheco é professor de teologia, especialista em docência no ensino superior e mestre em ciências da educação.