Grupo de apoiadores com camisetas dos “Amigos do Samuel Gaúcho” chama atenção em sessão solene pelos 66 anos de Brasília, na Câmara dos Deputados, e revela um retrato pitoresco da pré-campanha no DF

Na política, principalmente em ano de pré-campanha, vale quase tudo: slogan, bordão, apelido, camisa padronizada, promessa de mudança e até um “gaúcho” que, no fim das contas, nasceu em Minas Gerais.
Foi exatamente essa mistura improvável que chamou atenção durante a sessão solene em homenagem aos 66 anos de Brasília e a Juscelino Kubitschek. Em meio às autoridades, discursos e reverências à capital, um grupo destoava pelo entusiasmo e pela camiseta uniforme: “Amigos do Samuel Gaúcho”.
Parecia torcida organizada. Ou bloco de carnaval fora de época. Mas era, na verdade, um ensaio de campanha.
A curiosidade começou pelas camisetas
As camisas espalhadas pelo plenário despertavam a mesma pergunta entre os presentes: afinal, quem é Samuel Gaúcho?
Fui atrás da resposta e encontrei o próprio personagem, cercado por colaboradores e apoiadores.
“Na verdade, eu sou pré-candidato a deputado distrital pelo Gama e região”, explicou, com naturalidade. Segundo ele, os integrantes da pequena claque improvisada são amigos da comunidade, apoiadores e, quem sabe, futuros assessores.
“Os colaboradores estão me dando apoio aqui hoje. No futuro, se a gente ganhar, vão ser os assessores da gente”, disse, sem cerimônia.
No fundo, nada mais brasiliense. Brasília sempre foi uma cidade construída por gente que chegou de toda parte do país e aprendeu a misturar sotaques, origens e ambições. Em época eleitoral, essa mistura ganha até camiseta.
O gaúcho que veio de Minas
Mas a parte mais curiosa da conversa ainda estava por vir.
Samuel Gaúcho não é exatamente gaúcho.
Ou melhor: é e não é.
Samuel Nogueira Corrêa nasceu em Governador Valadares, em Minas Gerais. Morou no Rio Grande do Sul, viveu também em Santa Catarina, tem mãe catarinense e acabou ficando conhecido em Brasília pelo apelido que pegou.
“Sou de Minas, mas morei em Porto Alegre e em Santa Catarina também. Aí fiquei conhecido aqui em Brasília como Samuel Gaúcho”, contou.
No Distrito Federal, onde quase ninguém nasceu exatamente onde vive, isso faz todo sentido. Há candangos nordestinos, goianos do Entorno, mineiros que viraram brasilienses e, agora, um gaúcho que nasceu em Minas e quer representar o Gama.
O Gama e a força do povo gaúcho
O curioso é que Samuel aposta justamente em uma das regiões mais orgulhosas de sua própria identidade no Distrito Federal. O Gama tem alma de cidade grande e jeito de interior. É conhecido pela força da comunidade, pela tradição de moradores antigos, pelo futebol, pelas histórias de pioneiros e por um eleitorado que costuma valorizar quem está presente no dia a dia.
Ali, o sobrenome político vale tanto quanto a convivência. E talvez por isso “Samuel Gaúcho” funcione melhor do que “Samuel Nogueira Corrêa”.
No Gama, apelidos pegam. Há o comerciante conhecido pelo bairro, o líder comunitário identificado pela profissão, o candidato chamado pelo nome de guerra. A política local, muitas vezes, é feita na padaria, na fila do mercado, no lanche da esquina e na conversa em frente ao portão.
Samuel conhece bem esse território.
Do salgado à política
Há mais de dez anos, Samuel trabalha vendendo salgados e lanches na região da UNICEPLAC, a faculdade de Medicina do Gama.
“Eu trabalho com salgado, com lanche, lá na UNICEPLAC. Estou há mais de dez anos ali”, contou.
Talvez venha daí sua principal base eleitoral: a convivência diária. A política do contato, do cafezinho, do pastel, do “como vai a família?”. Em cidades como o Gama, isso ainda pesa.
Enquanto muitos candidatos surgem embalados por marqueteiros, redes sociais e vídeos profissionais, Samuel aparece com algo mais simples: uma camiseta, um grupo de amigos e a fama construída no balcão.
Segurança, saúde e educação: o cardápio clássico
Quando perguntado sobre suas prioridades, Samuel não fugiu do roteiro tradicional de campanha.
Disse que pretende focar em segurança, saúde e educação. Afirmou acompanhar o trabalho do “Capitão Davi” nas escolas cívico-militares e criticou a situação da saúde pública no Distrito Federal.
“A saúde no Distrito Federal está abandonada, está largada às traças, está na UTI”, afirmou.
Segundo ele, sua atuação seria voltada ao Gama, Santa Maria, Ponte Alta e Recanto das Emas.
É o cardápio clássico de toda eleição distrital: promessas de melhorar a saúde, reforçar a segurança e investir nos jovens. Quase todos os candidatos dizem algo parecido. A diferença, neste caso, talvez esteja no personagem.
Entre JK e a pré-campanha
A sessão era para homenagear Brasília e Juscelino Kubitschek, o presidente que ergueu a capital reunindo brasileiros de todos os cantos do país.
De certa forma, Samuel Gaúcho parece uma continuação desse espírito brasiliense: um mineiro com passagem pelo Sul, apelido de gaúcho, vida construída no DF e candidatura voltada ao Gama.
Brasília tem dessas ironias. A cidade criada para unir o Brasil produz, de tempos em tempos, figuras que parecem improváveis, mas que só poderiam existir aqui.
No jogo eleitoral, vale quase tudo. Vale slogan, vale camiseta, vale grupo de amigos fazendo volume na plateia. Vale até ser gaúcho sem ser gaúcho.
E, no Gama, onde o povo costuma gostar de quem chega junto, isso pode até render voto.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa