
A liberdade de expressão é um direito natural, concedido pelo Criador e recepcionado constitucionalmente como um direito fundamental, numa cláusula pétrea. Ela compreende a liberdade de pensamento, ação e expressão. Ainda que, em passado recente, esta liberdade vem enfrentando algumas releituras, que visam estreitar este direito, ele é essencial à livre manifestação do pensamento, intelectual, artístico, científico e de comunicação. Seu alcance não depende de nacionalidade, tempo ou espaço, sendo aplicáveis a todos os seres humanos.
Hoje, como nunca na História, no mundo ocidental em particular, esta liberdade tem sido exercida tão amplamente. Criou-se até um novo conceito a quem se chamou de “lugar de fala”. Nesta nova conceituação, a conjuntura de onde uma pessoa fala, em especial por sua posição social, histórica e política, influenciada por questões de gênero, raça e classe social, dá a este indivíduo uma autoridade superlativa para expressar os seus posicionamentos. É um sucedâneo ao “falar de cátedra” que era uma manifestação com autoridade, conhecimento profundo e segurança sobre um determinado assunto, como um especialista abalizado.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem garante a liberdade de expressão. Todos podem falar livremente, expondo suas ideias ou reinvindicações, mas nada garante que elas serão ouvidas, sem que antes a pessoa tenha conquistado por suas ações e conduta de vida, o direito de ser escutada. Ser efetivamente ouvido, é uma árdua conquista e não uma dádiva institucionalmente concedida. Parafraseando um dito popular, diríamos: Falar é fácil. Se fazer ouvido é que é difícil.
Aprendi na minha juventude, na organização cristã Mocidade Para Cristo – MPC, um de seus lemas centrais que é o de “ganhar o direito de ser ouvido”. Por ele, precisa-se construir relacionamentos, conquistar confiança e viver um testemunho prático antes ou durante a ministração de qualquer conteúdo ou reivindicação de alteração de atitudes. O conceito implica que o respeito e a credibilidade, essenciais para compartilhar a fé, são conquistados por meio do amor e da vivência cristã sincera no dia a dia.
“Ganhar o direito de ser ouvido” é um conceito chave na contextualização do Evangelho. Sugere que o cristão, no cumprimento de sua missão, deve primeiro construir relacionamentos de amizade e confiança, agindo de forma digna, para que sua mensagem seja aceita.
Esta audiência, previamente conquistada, decorre de ações práticas de efetivo serviço à comunidade, que demonstram o amor de forma concreta antes de compartilhar o conteúdo da mensagem que se pretende reverberar.
O ouvir vem pelo respeito à pessoa, ou à causa que ela defende. Neste contexto, acho muito oportuno relembrar um antigo adágio popular: “Suas atitudes falam tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz”.
O problema está naqueles que, repetindo “ladainhas” previamente aprendidas, querem revolucionar ou transformar o mundo, em especial atacando as estruturas socialmente estabelecidas desde os primórdios da sociedade humana, como a estruturação da família, as religiões, a propriedade privada e, em especial, a liberdade de expressão, sob o pretexto de resguardar pretensos direitos individuais ou de minorias.
Cargos institucionais, posição eclesiástica, a relação parental, a cor da pele ou opção sexual não garante o direito de ser ouvido. Somente aqueles que são amados e respeitados pelo interlocutor, são efetivamente escutados, e têm lugar de fala. Pode, e é salutar, haver divergências de posicionamento entre as pessoas, mas é pelo respeito conquistado de antemão, que o interlocutor terá o espaço para expor seu ponto de vista. Ninguém, efetivamente, “vence no grito ou na coação”. Na pressão, o máximo que se consegue é um assentimento tácito, que pode mudar o comportamento, mas que não altera os sentimentos e anseios pessoais.
A fé cristã, e as demais obrigações sociais, é demonstrada pelo caráter do mensageiro e pelos frutos que são visíveis ao próximo, e não apenas pela fala ou pela ministração. Conforme nos recomenda o apóstolo João: “não amemos de palavra, nem de língua, mas por obras e em verdade” (1 João 3.18).
Não seremos ouvidos pelo uso da força ou da arguta argumentação histórica, filosófica ou lógica, mas por uma atitude de sincera humildade, com disposição de prestar um serviço à sociedade, e respeito ao próximo, e compreensão aos que são mais frágeis ou ignorantes dos propósitos de Deus para o ser humano.
A recomendação do profeta e sacerdote Zacarias, já desde o Velho Testamento, de que “não [é] por força nem por violência, mas pelo meu Espírito” (Zc 4.6), nos relembra que a obra do Senhor não é estabelecida e realizada com base nos méritos das realizações humanas, ou pelo poder da persuasão ou do status social. O sucesso da obra de Deus depende, antes de tudo, da ação poderosa do próprio Espírito Santo de Deus.
Se há algo que salta aos olhos do leitor dos Evangelhos, é que o povo que buscava conhecer e seguir a Jesus, das diversas etnias, classes sociais ou vinculação religiosa, reconhecia que ele tinha o que oferecer por suas atitudes manifestas, e falava com autoridade:
“Quando Jesus acabou de pronunciar estas palavras, estavam as multidões atônitas com o seu ensino. Porque Ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os mestres da lei” (Mateus 7.28,29).
Esse continua sendo o caminho: viver o Evangelho antes de pregá-lo. Assim, quase sem perceber, ganhamos algo precioso — o direito de ser ouvido.
Elias Brito Júnior compõe o Conselho Local de Brasília, da Mocidade Para Cristo do Brasil.