
Tenho pensado, ultimamente, na condição das atitudes das pessoas. Não somente com relação ao que elas fazem, mas também no sentido de que há um julgamento, um pensamento e uma predisposição que as levam a tomar determinadas decisões.
Ao estudar um pouco mais atentamente, encontrei definições sobre três aspectos do proceder humano que são distintos e podem se confundir, chegando, para algumas pessoas, a serem tratados como sinônimos… mas não o são!
Vamos falar, então, de comportamento, conduta e índole. São três aspectos do proceder humano que pautam as atitudes e as impressões que uma pessoa pode demonstrar ao longo da vida.
(i) O comportamento seria uma primeira análise que se faz de alguém ao ser estabelecido um contato. É o que se pode ver nas atitudes de uma pessoa em um primeiro contato e pode ser adaptado, moldado ou influenciado de acordo com a vontade da pessoa ou a determinação do ambiente em que se vive.
O comportamento, sob esse aspecto, pode ser natural e até mesmo adaptado ou forjado, dependendo da exigência de uma estrutura social em que se está inserido (religião, grupo social, ambiente profissional, etc.). É por isso que alguém pode fingir um comportamento para agradar a quem se gosta ou mesmo para conseguir benefícios para si ou enganar a outra pessoa que tente ludibriar.
É com esse entendimento que responsáveis por crianças as moldam de acordo com sua percepção de mundo, orientando a que sejam comportadas, ou seja, que se adaptem a situações dependendo de ambiente ou pessoas próximas. A moldagem do comportamento vai interferir, também, na construção do caráter, aspecto que vamos ver a seguir.
(ii) Já o caráter é uma conduta que se constrói ao longo da vida, a partir dos procedimentos e julgamentos aprendidos no seio do grupo social que acolhe a pessoa. Em primeira análise, a família tem esse poder. Afinal, ali ouvem-se conselhos e percebem-se exemplos de como agir nas mais variadas situações.
É por meio do caráter que a pessoa vai demonstrar sua condição ética e moral. Está para além do mero comportamento, que, como vimos acima, pode ser adaptado ao convívio ou até mesmo simulado. Com o caráter, a pessoa vai ser capaz de negar determinadas atitudes que não lhe são consideradas corretas e, portanto, são inegociáveis.
O caráter de alguém nos faz entender que aquela pessoa que se comporta de maneira tão doce pode revelar um temperamento que vá além do que demonstra, afinal, algumas visões de mundo estão tão arraigadas nos julgamentos que, em muitas situações, não é possível segurar o comportamento fingido ou simulado por muito tempo. Dessa forma, pode surgir alguma explosão de procedimentos que a faz defender determinado ponto de vista, para além do que é exigido de atitude onde se está ou com quem se fala.
(iii) O terceiro aspecto do qual tratamos é a índole. Essa é uma nuança inata, daquele tipo que nasce com você e muitos consideram impossível de ser modificada. Sendo um traço de propensão natural, que se admite que pode ser contido por meio dos outros vistos acima, é mais estável e apresenta características que são propensas à individualidade, e são julgados como maus ou bons (boa ou má índole).
Depois de esbarrar nesses conceitos, passei a me lembrar de situações que os podem ilustrar. Quem não se lembra de exemplos de pessoas que nasceram em um lar com sete irmãos, todos criados da mesma maneira, e um deles acaba sendo uma vergonha para os pais, desviando-se de caminhos trilhados pela família e revelando-se praticantes de crimes inimagináveis?
Casos como esse nós vemos até em gêmeos. Duas pessoas com criação idêntica, dentro de um mesmo lar, exemplos e orientações semelhantes, mas um deles se desvirtua de forma inegável. Situações como essa derrubam a tese de que lhes falta firmeza dos pais ou devidas punições exemplares, e confirmam a teoria da índole: inata que pode emergir para além do que se percebe no comportamento.
Por outro lado, vemos como é importante a construção de limites, a compreensão da convivência, o respeito ao próximo e o senso de colaboração. Já que isso vai contribuir no caráter da pessoa, entende-se que é necessário um acompanhamento por meio de palavras, exemplos e atitudes semelhantes para que a moldagem desse aspecto seja suficiente.
É pelo caráter que alguém pode ter, até mesmo, as ferramentas necessárias para segurar uma índole considerada má. Mas também é pelo caráter que se pode dar a ilusão de que aquela pessoa é o centro do ambiente ou deve ser adorada por quem a rodeia. Dessa forma, muitas das percepções do caráter são resultado de uma criação equivocada e problemática.
Personagens literários e bíblicos nos dão exemplos da aplicação desses conceitos. Lembro-me de uma história contada sobre um escorpião que recebeu ajuda de um sapo para atravessar um rio e, mesmo no meio da viagem, picou aquele que lhe dava carona, causando um naufrágio fatal para ambos. A história dizia que o escorpião explicara tal ato falando: “Eu não pude evitar. Essa é a minha natureza”.
Sansão também pode ser um bom exemplo a ser recobrado aqui. Fascinado por uma filisteia, ele acabou traindo seu povo como resultado da fragilidade humana atingida por uma paixão incontrolável. Traído e subjugado, em seus últimos momentos recobrou as orientações que teve e arrependeu-se do que fez.
Muitas vezes somos iludidos ou enganados por comportamentos fingidos. Isso é diferente de ajustar seu comportamento diante de situações que lhe exigem conduta padronizada em ambientes determinados ou no trato com algumas pessoas. Entender que o caráter pode ser orientado, educado e disciplinado é diferente de manipular as pessoas. Essa vertente é necessária para construção da nossa moral e da ética, como vimos acima.
Ter clareza de que a índole pode emergir a qualquer momento é importante. Isso também falando do nosso aspecto pessoal. Por isso é necessário que tenhamos clareza das nossas questões internas, nossos desejos e nossos pensamentos.
Além disso, na nossa atitude como educadores, devemos saber que a construção do caráter pode ser cara para o caminho de uma pessoa. Ajude a construir convivências saudáveis a partir dessas informações. É possível um mundo de relações pacíficas e amorosas, como Jesus Cristo quis: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5.9).
Sandro Xavier é Linguista, Teólogo e Psicanalista.