
“Minha vida é um livro aberto.” Essa frase é utilizada por aqueles que afirmam ter uma vida íntegra, que garantem não temer qualquer escrutínio em seu passado ou presente por nada terem a esconder. “Tenho uma vida transparente” é o que apregoam tais pessoas, especialmente alguns políticos. Segundo a Bíblia, assim é diante de Deus. Ela afirma que Deus conhece o ser humano inteiramente, tanto no aspecto horizontal (desde antes da existência do indivíduo e para sempre), quanto no vertical (até o mais profundo do coração e da mente). Na visão bíblica, a nossa vida será sempre transparente aos olhos divinos. Mas, poderá ser assim também perante os outros seres humanos?
Num domingo à noite, um grupo do qual eu fazia parte decidiu testar essa ideia em uma igreja. Nós participávamos de uma nova igreja, uma pequena igreja experimental. Para evitar a liturgia tradicional, a cada domingo uma equipe ficava encarregado de escolher um assunto, planejar e coordenar a reunião. Eu e mais alguns membros fomos designados para dirigir o culto naquele domingo e escolhemos como tema a questão do viver com transparência. Quando iniciou a reunião, eu expus a ideia, reportei-me a textos bíblicos que tratam do assunto e disse que iríamos abordá-lo a partir de elementos concretos. Falei que, para isso, tínhamos pesquisado a vida de diversos membros da igreja e descoberto coisas muito interessantes sobre eles. Perguntei se podíamos contar essas coisas para que a igreja analisasse o comportamento deles e avaliasse o nível de transparência em suas vidas.
Quase apanhamos! Foi uma revolta geral. Enquanto falava pude ver a reação nos rostos dos membros da igreja: primeiro, desconfiados; depois, assustados; e, por fim, irritados. E nos confrontaram: como a gente pôde tomar a iniciativa de pesquisar a vida deles sem pedir permissão? E o direito à privacidade? E se alguns dos fatos revelados criassem problemas entre os membros da igreja? E se esses fatos fossem levados para fora do grupo? Nem é preciso dizer que ninguém deu autorização para que fatos de sua vida fossem expostos perante os outros. Pedi calma e expliquei que estávamos blefando. Não seríamos tão imprudentes a ponto de investigar a vida dos membros da igreja sem que eles permitissem. Era apenas uma provocação para suscitar o debate sobre o tema. Ao final da conversa, a conclusão foi que ninguém pode se gabar de ter uma vida transparente.
Na verdade, ninguém aguentaria viver nessa condição. Seria muito difícil convivermos com outras pessoas se conhecêssemos tudo sobre elas, e elas soubessem tudo sobre nós. Toda pessoa necessita de uma área em sua vida que seja oculta para outros, um território em que só ela sabe caminhar, para sentir-se protegido na relação com os demais. Mais que isso, nem para nós mesmos a nossa vida é inteiramente aberta. A nossa psique impede o inteiro conhecimento sobre nós, enterrando alguns fatos em nosso inconsciente porque a nossa consciência não pode suportá-los. Somente um deus pode aguentar o peso do conhecimento integral sobre o caráter e a história dos seres humanos. Para estes, o segredo é um elemento necessário para viver.
Como agir quando fatos que queremos manter em segredo vêm à tona acidentalmente ou porque a profissão ou encargo exigem que o véu do sigilo seja retirado? Dependendo do tipo de segredo, alguns conseguem ser resilientes e sobrevivem; outros sucumbem e têm a vida destruída. Todos conhecemos casos de religiosos e políticos para as duas situações.
Todavia, não há como nos relacionarmos com outros sem abrir nossa vida para eles. A primeira coisa que fazemos ao ter contato com alguém pela primeira vez é inquiri-la sobre a sua vida. Nas atividades comerciais é necessária a cessão de informações sobre nós para a outra parte. O trabalho com dinheiro público exige transparência das nossas ações. Mas, até que ponto a nossa vida deve ser transparente para os outros? Difícil responder a essa pergunta. São muitos os fatores que entram nessa equação: natureza, objetivos e nível do relacionamento; a necessidade de proteção pessoal, de pessoas e instituições que dependem de nós. Por isso, além dos segredos meramente pessoais, existem os segredos profissionais e institucionais.
Nossa vida é um livro aberto, mas algumas de suas páginas precisam ser ilegíveis.
Paulo José Corrêa é mestre em Direito, pós-graduado em Letras e autor do livro “Três Bilhetes e um Segredo”.