
A cientista política Mayra Goulart da Silva, e o deputado Bohn Gass, ajudam a decifrar o movimento do PSD ao lançar Ronaldo Caiado como pré-candidato à Presidência. Para ambos, a decisão não rompe com a lógica dominante, ao contrário, reforça a leitura de que o eleitorado segue estruturado em torno de polos.
Confronto com Bolsonaro

Na avaliação de Bohn Gass, a estratégia passa diretamente pelo confronto com Flávio Bolsonaro. “Vai mostrar que a extrema-direita não tem experiência. Então, claro, ele dizendo que o Flávio não tem experiência e nós sabemos que falta competência, favorece”, comentou o parlamentar.
Desconforto difuso
Já Mayra Goulart aponta que a escolha por Caiado, em detrimento do governador Eduardo Leite, evidencia a ausência de espaço concreto para uma terceira via. Segundo ela, embora exista um “desconforto difuso” com a polarização, esse sentimento não se traduz em comportamento eleitoral capaz de sustentar uma candidatura competitiva.
Voto por rejeição domina cenário

A cientista política destaca que o padrão recente das eleições brasileiras permanece: grande parte do eleitorado vota mais por rejeição do que por adesão. Nomes como Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro simbolizam polos que mobilizam apoio e resistência simultaneamente.
Tensionamento político
O diferencial, segundo Mayra, “é que a rejeição deixou de ser concentrada em apenas um campo”. Hoje, também cresce a resistência à extrema-direita, o que aprofunda o tensionamento político e dificulta alternativas fora desse eixo.
Pacificação ou novo conflito
Ao propor anistia ampla, inclusive ao ex-presidente Jair Bolsonaro, Caiado insere um elemento sensível na disputa. O discurso de “pacificação”, segundo Mayra, “pode produzir o efeito inverso ao confrontar decisões do Judiciário, em vez de reduzir tensões, a medida tende a ampliar divisões institucionais, especialmente em um ambiente já marcado por desconfiança entre os poderes”.
Nova configuração da direita
Outro ponto central da análise é a transformação do campo conservador. Para a cientista política, a extrema-direita deixou de ser apenas reativa e passou a apresentar conteúdo próprio, com defesa explícita de valores tradicionais. Essa mudança altera o equilíbrio da disputa e torna mais complexa qualquer tentativa de reposicionar o centro político.
Influência externa e desinformação
Mayra também alerta para o impacto indireto de lideranças internacionais, como Donald Trump. O risco, segundo ela, está na influência sobre narrativas e na legitimação de discursos, potencializados pelas plataformas digitais. Nesse cenário, a desinformação ganha peso e se torna fator decisivo em um ambiente político fragmentado.
PSD mira protagonismo
A escolha de Caiado mantém o PSD como peça relevante no tabuleiro eleitoral. Com forte presença municipal, o partido preserva margem de negociação para o segundo turno. Mais do que disputar o Planalto, a legenda sinaliza que aposta em protagonismo na formação de futuras coalizões.
Polarização segue como eixo
A candidatura de Caiado não rompe com a polarização, ela a reconhece. Ao adotar um discurso de pacificação ancorado em medidas controversas, o pré-candidato entra na disputa reforçando as tensões que definem o cenário eleitoral brasileiro.
A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.
Edgar Lisboa