
Pesquisa Quaest mostra crescimento do presidente entre eleitores independentes, melhora gradual na avaliação do governo e impacto político do Caso Master e do tarifaço americano na disputa presidencial
A recuperação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas eleitorais ganhou força e já começa a produzir reflexos concretos na corrida presidencial. Levantamento Genial/Quaest divulgado nesta quarta-feira (10) aponta que o presidente abriu seis pontos de vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno. Lula aparece com 44% das intenções de voto, contra 38% do adversário.
O resultado representa uma mudança importante em relação ao cenário observado em abril, quando Flávio Bolsonaro chegou a superar numericamente o presidente por 42% a 40%. Desde então, porém, o quadro eleitoral sofreu alterações relevantes. Lula recuperou terreno e alcançou sua maior vantagem sobre o senador desde janeiro, quando chegou a abrir sete pontos de diferença.
Eleitores independentes voltam a migrar para Lula
A principal explicação para a melhora do desempenho do presidente está no comportamento do eleitorado independente, tradicionalmente decisivo em disputas nacionais.
Nesse segmento, Lula avançou de 29% para 37% entre maio e junho. No movimento inverso, Flávio Bolsonaro caiu de 31% para 24%. A mudança sugere que parte dos eleitores sem alinhamento ideológico fixo passou a rever suas posições nas últimas semanas.
Para analistas políticos, esse grupo costuma responder com mais intensidade a acontecimentos recentes da campanha e ao ambiente econômico e político do país.
Caso Master produz desgaste para Flávio Bolsonaro
A pesquisa também mediu os efeitos políticos das revelações envolvendo o chamado Caso Master, que passou a ocupar espaço central no debate eleitoral.
Segundo o levantamento, 65% dos entrevistados consideram que Flávio Bolsonaro errou ao solicitar recursos ao empresário Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Além disso, 60% afirmam que os áudios e conversas divulgados levantaram suspeitas sobre a conduta do senador. Outros 78% acreditam que Flávio pode estar escondendo informações sobre eventual envolvimento irregular no caso.
O estudo mostra ainda que 62% dos entrevistados avaliam que o senador tinha conhecimento sobre o suposto envolvimento de Vorcaro em práticas de corrupção. Entre os eleitores consultados, 12% afirmaram que as revelações diminuíram sua disposição de votar em Flávio Bolsonaro.
Tarifaço dos Estados Unidos fortalece discurso do Planalto
Outro fator que aparece como elemento de influência eleitoral é a nova ameaça de sobretaxas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
A pesquisa indica que 47% dos entrevistados concordam com a narrativa defendida por Lula de que Flávio Bolsonaro teria contribuído para estimular as medidas adotadas por Washington contra o Brasil.
Já 46% concordam com a avaliação do presidente de que parte das pressões americanas está relacionada a disputas envolvendo o sistema Pix e a política econômica brasileira.
O tema também fortaleceu o discurso nacionalista do Palácio do Planalto. Para 47% dos entrevistados, Lula representa melhor a defesa dos interesses nacionais diante das pressões externas. Flávio Bolsonaro aparece com 37%.
Quando questionados sobre o impacto eleitoral do tarifaço, 39% afirmaram que a medida aumenta a disposição de votar em Lula. Outros 30% disseram que a situação amplia a vontade de votar em Flávio Bolsonaro.
Lula mantém vantagem sobre outros adversários
O levantamento também simulou outros cenários de segundo turno. Contra o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e contra o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), Lula aparece com 45% das intenções de voto, contra 35% dos adversários.
Já diante de Renan Santos, do Movimento Brasil Livre (MBL), o presidente mantém 45%, enquanto o adversário evolui de 28% para 31%.
A pesquisa ainda mediu possíveis candidaturas no primeiro turno. O deputado Aécio Neves (PSDB) aparece com 2% das intenções de voto, mesmo índice de Romeu Zema. O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa (DC), registra 1%.
Melhora gradual da avaliação presidencial anima o Planalto
Os números divulgados pela Quaest também trazem sinais considerados positivos para o governo.
Embora a desaprovação de Lula continue superior à aprovação, a tendência observada nos últimos três meses é de redução gradual da rejeição ao presidente. Em análise na CBN, o jornalista Lauro Jardim destacou que a melhora ocorre em segmentos considerados estratégicos para a disputa eleitoral.
Entre eles está o eleitorado evangélico. A diferença entre desaprovação e aprovação do presidente nesse grupo caiu de 35 para 25 pontos percentuais entre maio e junho. Embora o saldo continue negativo para Lula, o movimento interrompe uma trajetória de deterioração observada ao longo dos últimos meses.
Outro indicador observado pelo mercado político é a percepção econômica da população. Cerca de 30% dos entrevistados afirmaram que seu nível de endividamento diminuiu recentemente. Analistas associam parte desse resultado aos efeitos iniciais do programa Desenrola 2.
Expectativa para os próximos meses
A quatro meses da eleição, o cenário permanece aberto, mas os números da Quaest oferecem ao Palácio do Planalto motivos concretos para comemorar. Lula volta a crescer justamente entre os eleitores independentes, reduz rejeições em segmentos importantes e consegue transformar temas como o Caso Master e o tarifaço americano em ativos políticos.
Do lado da oposição, o desafio passa a ser conter o desgaste provocado pelas denúncias recentes e recuperar a narrativa junto ao eleitorado moderado. A tendência das próximas pesquisas mostrará se a vantagem atual representa apenas uma oscilação momentânea ou o início de uma mudança mais consistente no quadro eleitoral de 2026.
A pesquisa ouviu 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais entre os dias 5 e 8 de junho. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-07661/2026.
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa