
Por Edgar Lisboa
“Rei de Roma” aposta na força mental da Seleção e elogia o trabalho do técnico italiano
Paulo Roberto Falcão, considerado pelos italianos o eterno “Rei de Roma”, demonstrou confiança na preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo. Em entrevista ao jornalista Carlos Eduardo Éboli, na CBN, Falcão analisou o trabalho de Carlo Ancelotti, avaliou o elenco brasileiro, discutiu possíveis formações e destacou a importância do aspecto psicológico para o sucesso da equipe.
Confiança, mas sem certezas

Para Falcão, a palavra “certeza” é forte demais quando se trata de futebol, especialmente em uma Copa do Mundo. Ainda assim, ele acredita que Ancelotti aproveitou os amistosos para observar alternativas e agora está próximo de definir sua equipe ideal.
Segundo Falcão, o treinador italiano tem um modelo de jogo bastante conhecido, baseado em duas linhas compactas de quatro jogadores e dois homens mais avançados. Foi assim que atuou em clubes como Milan e Real Madrid.
“Eu estou confiante. Acho que a Seleção deverá crescer na medida em que a Copa avançar. Confio muito no trabalho do Carlos Ancelotti. Ele é muito competente e nós temos jogadores importantes, de muita qualidade técnica”, afirmou.
O esquema preferido de Ancelotti
Falcão acredita que Ancelotti deve abandonar as experiências dos amistosos e adotar uma formação mais próxima daquela que sempre utilizou ao longo da carreira.
Na visão do ex-jogador, o treinador gosta de equipes equilibradas, com intensidade na marcação e velocidade na transição ofensiva.
Ele observa que o futebol moderno tem reduzido os espaços e valorizado a recuperação rápida da bola, o que exige jogadores com força física, capacidade de pressão e inteligência tática.
A preocupação com a lesão de Wesley
Entre os temas abordados, Falcão lamentou a lesão do lateral Wesley, um dos destaques da temporada europeia.
Embora reconheça que Ancelotti não costuma utilizar laterais excessivamente ofensivos, considera que Wesley oferecia uma alternativa importante para ampliar o poder de ataque pelos lados do campo.
“Seria uma opção para criar superioridade numérica pelos lados, fazendo dois contra um sobre os laterais adversários”, explicou.
Mesmo assim, acredita que a Seleção possui alternativas para suprir a ausência.
Defesa sólida e meio-campo definido
Na avaliação de Falcão, a estrutura defensiva brasileira está praticamente consolidada.
Ele considera que o goleiro Alisson, a dupla de zaga formada por Marquinhos e Gabriel Magalhães e os volantes Bruno Guimarães e Casemiro representam uma base segura para a equipe.
“O Marquinhos e o Gabriel estão numa compactação muito boa e se entendendo bem. Isso é fundamental para qualquer equipe que queira chegar longe numa Copa.”
A intensidade como marca da nova Seleção
Um dos aspectos que mais agradaram Falcão foi a postura agressiva da equipe sem a bola.
Ele destacou a pressão exercida sobre o adversário, especialmente na recuperação da posse ainda no campo ofensivo.
Para o ex-meia, esse comportamento foi decisivo no amistoso diante do Egito e representa uma tendência do futebol atual.
“O principal ponto positivo foi essa capacidade de não esperar o erro do adversário. O Brasil roubou bolas importantes já no campo de ataque.”
Segundo ele, as seleções mais competitivas do mundo utilizam exatamente esse modelo de pressão constante e redução de espaços.
O futebol mudou

Reconhecido como um dos maiores meio-campistas da história do futebol brasileiro, Falcão admite sentir falta dos grandes armadores clássicos.
Ele cita jogadores como Toni Kroos e Luka Modric como exceções em um cenário cada vez mais dominado pela intensidade física.
“Hoje é mais raro encontrar aquele meia que joga de cabeça em pé, que vê o campo inteiro e faz o passe decisivo.”
Mesmo assim, reconhece que o futebol evoluiu para uma dinâmica diferente, baseada em velocidade, marcação e ocupação de espaços.
O fator psicológico pode decidir
Um dos trechos mais interessantes da entrevista foi a análise sobre a importância do aspecto emocional.
Falcão revelou que perguntou diretamente a Ancelotti qual seria sua prioridade no curto período de preparação.
A resposta o agradou.
“Ele me disse que vai priorizar o mental dos jogadores.”
Para Falcão, a gestão psicológica será determinante numa competição tão curta e intensa.
“Gostei muito dessa resposta. O jogador precisa estar preparado tecnicamente, mas também emocionalmente.”
Sem reserva de mercado
Falcão também defendeu a contratação de Ancelotti, encerrando um debate que dividiu parte do futebol brasileiro.
“Gostei muito da contratação dele. Não devemos ter reserva de mercado. Temos que ser favoráveis à competência.”
Na opinião de Falcão, a nacionalidade do treinador é secundária diante da qualidade profissional e da capacidade de liderança.
O time ideal de Falcão
Ao longo da entrevista, Falcão participou de uma espécie de exercício de escalação da equipe que imagina para a estreia.
Embora admita que está apenas especulando, apontou uma formação próxima da seguinte:

Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro, Bruno Guimarães, Luiz Henrique e Rafinha; Vinícius Júnior e Matheus Cunha.
Ele também ressaltou que jogadores como Endrick, Martinelli e Igor Thiago oferecem alternativas importantes.
“A gente está brincando de escalar o time, mas ele pode botar quem ele quiser do meio para a frente, porque tem opções para fazer o que quiser.”
O REI DE ROMA
Um brasileiro que virou lenda na Itália

Muito antes de Ancelotti assumir a Seleção Brasileira, Falcão já era reverenciado na Itália.
Sua passagem pela AS Roma transformou a história do clube e lhe rendeu um título que poucos estrangeiros receberam: “Il Re di Roma” — o Rei de Roma.
O apelido nasceu após a conquista do Campeonato Italiano de 1982/83, encerrando um jejum de mais de quatro décadas sem títulos nacionais.
Até hoje, seu nome é tratado com respeito quase religioso pelos torcedores romanistas.
Uma experiência inesquecível em Roma
Por Edgar Lisboa
Na época em que Falcão brilhava na Roma, viajei à Itália para entrevistá-lo para o Correio do Povo, de Porto Alegre.
O prestígio do “Rei de Roma” impressionava.
Para fazer compras com tranquilidade, precisava aproveitar o horário do almoço, quando as lojas fechavam para o descanso dos comerciantes. Fora desse período, o assédio dos torcedores tornava praticamente impossível qualquer passeio.
Mas o que mais me marcou aconteceu na Praça São Pedro.
Ao conversar com um ambulante que vendia lembranças do Vaticano, ouvi a pergunta:
— “Brasiliano?”
Respondi que sim.
Em seguida veio outra:
— “Conosce il Falco?”
Expliquei que estava em Roma justamente para entrevistá-lo e que era jornalista do Rio Grande do Sul, terra natal de Falcão.
A reação foi imediata.
— “Bellissimo!”
O vendedor começou a anunciar aos demais ambulantes que eu era amigo de “Falco”. Em poucos minutos, virei celebridade por tabela.
Ganhei lembranças do Vaticano e ninguém aceitou pagamento.
— “No, è un regalo.”
O orgulho de ser da terra de Falcão
Outro episódio igualmente emocionante ocorreu no trajeto do aeroporto para o hotel.
Uma senhora me convenceu a trocar o táxi pelo ônibus.
Durante a viagem, comentou com o motorista que eu era brasileiro e conhecia Falcão.
Foi o suficiente.
Passei a viagem respondendo perguntas sobre Paulo Roberto Falcão.
Todos queriam saber notícias de “Il Re di Roma”.
Naquele momento compreendi que Falcão havia ultrapassado a condição de jogador de futebol. Tornara-se um símbolo da cidade, uma referência de elegância, talento e liderança.
Como gaúcho, senti um enorme orgulho.
Poucos brasileiros receberam tanto carinho e admiração fora do país quanto Falcão.
E, décadas depois, continua sendo tratado em Roma como uma verdadeira majestade do futebol mundial.
“Ao longo da minha carreira de jornalista, entrevistei personalidades de diversas áreas e em muitos países. Poucas vezes, porém, presenciei um nível de admiração popular semelhante ao que vi em Roma por Paulo Roberto Falcão. Não era apenas respeito por um grande jogador. Era gratidão. Gratidão de uma cidade inteira a um brasileiro que ajudou a mudar a história de um clube e conquistou o coração de um povo. Décadas depois, o ‘Rei de Roma’ continua reinando na memória dos italianos e no orgulho dos brasileiros.”
Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa